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MALDIÇÃO DA BALEIA BRANCA SOBE AO PALCO DO SÃO LUIZ

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Gregory Peck preso ao cachalote, com as linhas de vários arpões a tolherem-lhe o corpo, enquanto espera a morte no dorso do inimigo. À volta, o mar vermelho de sangue. Era esta imagem cinematográfica do Capitão Ahab, fixada numa película de John Huston (1956) “vista há muitos, muitos anos, na televisão”, que pairava ainda na memória do encenador António Pires, quando Alexandre Oliveira (seu sócio na produtora Ar de Filmes) lhe passou para as mãos o romance de Herman Melville, dizendo: “E se pegasses nisto?”
Habituado a levar ao palco clássicos da literatura (como A Paixão do Jovem Werther, de Goethe; o Dom Quixote, de Cervantes, a partir da tradução de Aquilino; ou Os Lusíadas), Pires entusiasmou-se e pôs imediatamente mãos à obra. Com Maria João Cruz, guionista das Produções Fictícias que já conhecia de outras andanças (por exemplo, A Morte de Romeu e Julieta, 2005), lançou-se num longo processo de “investigação dramatúrgica” e adaptação literária que culminou no espectáculo Moby Dick, estreado ontem à noite no Teatro São Luiz, em Lisboa, onde permanecerá até 3 de Março (quintas e sextas-feiras, às 21h00; sábados, às 16h00 e às 21h00).
“Foram uns seis meses a partir pedra”, diz António Pires, “incluindo o mês que passámos nos Açores, com os senhores da Universidade, do Instituto do Mar e do Museu do Pico”. Transformar a prosa densa de Melville numa peça acabou por ser menos problemático do que se poderia supor: “Aquilo é muito teatral. Alguns diálogos chegam a parecer Shakespeare e a forma como eles articulam os pensamentos, como se questionam, tem uma força extraordinária. Existe ali conflito, tensão, matéria dramática.”
Apesar dos inevitáveis cortes [o livro tem cerca de 600 páginas], o encenador quis manter o fio condutor da história, centrando-a na figura de Ahab (Miguel Guilherme), o capitão obstinado que vagueia pelos oceanos em busca da baleia branca que lhe arrancou uma perna, homem consumido pelas circunstâncias e que arrasta uma tripulação inteira para a espiral da sua loucura. “Ahab é o ódio e a vingança, é a obsessão cega contra a Natureza, contra a baleia que personifica um Mal que está, no fim de contas, dentro dele.” O mais extraordinário de tudo é que Ahab, no seu desvario suicida, consegue ser persuasivo. “Porque será que as outras personagens todas, mesmo as mais racionais (Starbuck), seguem o discurso do capitão? Foi esse fascínio perigoso que quis pôr em cena.”
Além de ter aglutinado várias personagens em cada um dos sete marinheiros que se cruzam no esboço minimalista do Pequod (navio de Ahab) criado pelo cenógrafo João Mendes Ribeiro, a adaptação de Maria João Cruz criou ainda o Piloto da História (Maria Rueff), narrador que olha de fora para os acontecimentos e que não existe no texto original. “Em todos os meus espectáculos há figuras deste tipo, que dialogam com o público e acabam por resgatar passagens ou ideias interessantes que estão nos livros mas que a linguagem dramatúrgica geralmente sacrifica”, lembra Pires.


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Rueff, que surge em Moby Dick num registo contido, muito distante da exuberância histriónica das suas personagens televisivas, assume o carácter profético da personagem: “Eu sou uma espécie de oráculo da tragédia grega. Sou a mulher que fica em terra: a mãe, a amante, a namorada, a filha. No fundo, aquela que sobrevive e fica para contar.” As vestes de quaker permitem situar historicamente a tragédia e sublinhar a rigidez moral de um mundo dominado pela Bíblia (cuja sombra se prolonga da evocação inicial do castigo de Jonas ao simbolismo do nome de personagens e navios).
Outra das funções do Piloto consiste em fazer a ponte com a escrita de Melville, com a sua música. “Quisemos resgatar a poética do texto, nomeadamente as belíssimas descrições do mar, dos céus, das tempestades e dos vários fenómenos naturais.” Como o Fogo-de-Santelmo que em dado momento ilumina, a um canto do palco, o mastro do Pequod, mais alto do que o segundo balcão.
Desde o início, a equipa foi acompanhada, a par e passo (excepto na viagem aos Açores), pelo realizador João Botelho. “Ele esteve sempre presente, das leituras até à estreia, passando pelos ensaios num armazém de Benfica, enorme (para caber o cachalote) e gélido, mas com uma luz belíssima”, diz Pires. O documentário será exibido na RTP ainda este ano, em data a definir.

[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]

Fotografias: JMS

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