1. Qual é, para ti, o lugar que Cesariny ocupa na literatura portuguesa do século XX?
2. Como é que se deu a tua aproximação à obra poética de Cesariny?
3. Que aspectos da sua escrita é que te parecem mais importantes?
4. Existem ecos, ou influências (mesmo se remotas), da poesia dele na poesia que escreves? E na dos outros poetas da tua geração?
Respostas de Luís Quintais:
1. Lugar maior, evidentemente. Inventiva verbal, beleza convulsiva, sentido do risco, jogo e ironia q.b. A poesia no limite, nessa indomesticada e indomesticável fronteira entre a realidade e a imaginação.
2. Idos anos oitenta do século passado. Primeiro veio António Maria Lisboa, depois Cesariny.
3. Para lá do que assinalei atrás, destacaria outros aspectos menos formais ou oficinais.
Em tempos de vontade de poder, a vontade de liberdade, sem concessões, sem barganha. Coisa para poucos, como se sabe.
4. Sim. Explícitas, mesmo. Leia-se o meu O dia claro (ou Mário Cesariny vai a banhos) em Duelo (p. 42). Nos da minha geração, destacaria o Pedro Mexia.
Respostas de Rui Lage (que subverteu a ordem):
2. A minha introdução à poesia portuguesa posterior a Orpheu foi tardia e não se fez pelos canais “normais”. Excluídos os clássicos medievais e quinhentistas, excluídos alguns românticos e oásis como Gomes Leal, Pessanha ou Cesário, excluído, sobretudo, o Colosso de Rodes da nossa cultura, oitava maravilha do mundo, Fernando Pessoa (e os outros de si), o que eu lia era a poesia e a ficção inglesa, francesa, espanhola, italiana, e, em traduções, alemã e russa. Só mais tarde é que entrei na poesia portuguesa contemporânea, e fi-lo pela porta dos anos setenta (através dos poetas que o meu pai lia e me passava). Lembro-me bem do meu primeiro livro “pós-moderno”: “Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde” de Manuel António Pina (2.ª ed., 1982). E que apropriados são, agora que Cesariny nos trocou por Elsinore, os primeiros versos desse livro: “os tempos não são bons para nós, os mortos./ Fala-se demais nestes tempos (inclusive cala-se)”. Quer isto dizer que só “descobri” Nemésio, Eugénio, Sophia, Sena, Herberto, Fiama, Carlos de Oliveira ou O’Neill há relativamente pouco tempo. Quanto a Cesariny, não foi há muito anos que dei por mim a perguntar quem era, afinal, este poeta de apelido Vasconcelos, cuja incatalogável poesia de desconcerto, desengano e estranheza falava num tal de Epaminondas, que escrevia “a um rato morto encontrado num parque” ou mostrava “ter lavados e muitos dentes brancos à mostra”.
1. Como é sabido, Cesariny nutria por Pessoa um misto de veneração e repulsa, antinomia sine qua non para se operar, na altura, qualquer ruptura com o passado. Tanto assim é que Cesariny, tendo escolhido o corajoso caminho da orfandade, sentiu mais tarde a necessidade de inventar um pai: Teixeira de Pascoaes. Mas o verdadeiro pai de Cesariny foi Cesário. Se dúvidas houverem leiam-se os primeiros versos de “Corpo Visível”, saído a lume em 1950, numa edição de autor custeada por Eugénio de Andrade (que foi por isso, como informa Maria de Fátima Marinho em “O Surrealismo em Portugal”, de 1987, o seu primeiro editor): “A esta hora entre os blocos de prédios enevoados a bela mancha/ diurna dos calceteiros na praça”. O grande prestidigitador é pois o legítimo herdeiro do poeta do “gás” e do “bairro onde miam gatas”, inventor da moderna poesia portuguesa. Em Cesariny dá-se, acima de tudo, o triunfo da imaginação (nada havendo de mais livre que a imaginação). Nele acontece uma admirável e penso que irrepetível sincronia entre o “id” e o “real quotidiano”. Se as obras de um Eugénio ou de um Herberto, por exemplo, impressionam pela coerência estética, a de Cesariny impressiona pela incoerência (que é sempre mais difícil de parafrasear ou imitar…). Ora eu sempre preferi, à politicamente correcta e inflexível coerência, a bem mais humana e maleável incoerência. Um escritor incoerente não teme pregar rasteiras a si mesmo, voltar atrás, contradizer-se, ou até desistir, como foi o caso, quando acha que é chegada a hora certa. O país devia sentir neste momento uma “pena capital” pelo desaparecimento de uma das mais singulares figuras da sua cultura – mas isso era se não estivéssemos todos, como no poema de M. A. Pina, mortos.
4. Se ecos existem, não sou capaz de os ouvir. Quem sabe se através de um exame dentário ou recorrendo ao teste do carbono 14. De qualquer forma Cesariny operava em frequências invulgares, conseguindo picos de subsónicos e de agudos impossíveis de reproduzir. Às vezes penso que só os cães no cimo dos povoados (ou os lobos do Primeiro dos “Cantos de Maldoror”) é que atingiam uma total compreensão do que ele estava a dizer. No meu último livro, “Revólver”, termino o segundo poema com os versos: “uma vez, eu pecador me confesso/ lavei as mãos nas santas águas/ de uma pia baptismal”. Admito que tenho um fraquinho pela dessacralização, essa arte tão difícil e cruel - para o Joyce, I.N.R.I. significava “Iron Nails Ran In” (“pregos de ferro entraram”). Será por aí? Mas não lhe vejo sucessor, nem poetas que se tenham estreado nas últimas décadas com a sua vocação para a ruptura, à excepção, talvez, de Adília Lopes. Penso que só Fernando Assis Pacheco (esse outro inclassificável poeta maior do século XX) teve coragem para abrir o presente envenenado do “Virgem Negra”. Depois há uns pozinhos em Jorge Sousa Braga e, estou certo, um belo cadáver em Manuel Resende. Quanto à minha geração, não posso senão especular (ocorre-me um poema de Tiago Gomes chamado “Señoritas”)... Para vibrar nas mesmas frequências de Cesariny seriam precisas grandes doses de imaginação, e, hoje em dia, cedemos, quase sem luta, à frustração e ao desencanto (excepção feita àqueles que “infundem o prodígio”, pairando, lá no alto, sobre o lixo do mundo, sacerdotes do absoluto). Temos talvez a dolorosa consciência (falo dos poetas que leio, que me interessam) de que a verdade começa quando as asas de Ícaro derretem e este se precipita sobre o mar, e não antes, quando parte, confiante, rumo ao sol.
Respostas de Pedro Sena-Lino:
1. Muitas vezes me ocorreu esta ideia: a Literatura Portuguesa do século XX tem três príncipes renascentistas, artistas completos e múltiplos na sua voz de várias artes, da pintura à literatura, do ensaio à poesia, à ficção; cada um deles está ligado às três vanguardas literárias do século XX Português: o da geração de “Orpheu”, com Almada Negreiros; o do Surrealismo, com Cesariny; o do Experimentalismo, com Ana Hatherly.
Cesariny é, para além disso, o príncipe renascentista de múltiplos talentos (a revelação próxima de um espólio musical contará dos seus dons pianísticos) que vive longe do seu reino: o gostosamente desterrado de tantos sítios onde era esperado, para vir no inesperado; Cesariny é um príncipe por dentro e um clown por fora, quando tantos outros são príncipes por fora e verdadeiros palhaços por dentro.
Além disso, penso que ninguém como Cesariny (e alguns dos seus próximos surrealistas, como O’Neill e Natália Correia) trouxe o riso e a sátira para a Literatura Portuguesa; repare-se como a sua obra poética termina mais do que numa sátira (O Virgem Negra). Esse reinar desreinando é uma das mais sãs atitudes literárias em Portugal, um país anão que teima em coroar gigantes.
2. Através do amor. Com Cesariny aconteceu-me um mistério, absolutamente carne até na alma, de que ainda não me livrei: é que me a c o n t e c e r a m poemas seus. De cada palavra à pausa, à suspensão, ao silêncio murro do impossível no estômago. E vários: “Poema” (Em todas as ruas te encontro), “O Jovem Mágico” e sobretudo este (“De profundis amamus):
(…) Não faz mal abracem-me/ os teus olhos/ de extremo a extremo azuis/ vai ser assim durante muito tempo/ decorrerão muitos séculos antes de nós/ mas não te importes/ não te importes/ muito/ nós só temos a ver/ com o presente/ perfeito/ corsários de olhos de gato intransponível/ maravilhados maravilhosos únicos/ nem pretérito nem futuro tem/ o estranho verbo nosso»
3. A revolução pessoal e interior, o desconcerto procurante de si; a desinstalação; a beleza que nunca é, porque está a ser.
4. Creio que sim, mas isso está no sangue, e ninguém consegue ver a alma do sangue. Duas coisas, porém, entre a poesia e a acção, sem dúvida: o poema como um acto de explosão, de questionamento revoltoso, sentido por mim e assim ouvido e escrito aceso; e nunca pactuar com as importâncias instituídas: a literatura não tem tiranos, tronos nem propriedade horizontal.
E Cesariny continua a ser incómodo nesta espécie de capitalismo neo-realista de corte que parece ser (a maioria d)a literatura portuguesa de hoje.
Resposta de Joaquim Cardoso Dias:
Repetido à pele
Para o tio Mário Cesariny
eu devia chamar deus e ser eternamente miúdo
e tocar-te repetido à pele
pela mesma boca com a palavra amor
a envelhecer a barba pelas costas
e peço para ti um coração míope
para acolher o esquecimento de brincar no mundo
Os poetas não ocupam lugares. Os verdadeiros poetas entram devagar nas casas que crescem através da nossa vida e permanecem entre as páginas dos livros, numa pluralidade universal e intransmissível. Mas vivemos num mundo que se preocupa em dar nome a tantos rumores e a tantos sonhos e em rotular a sede de uma voz que nunca mais disse adeus. E os grandes cientistas que descobrem na via láctea a poeira de um rasto de estrelas que existiu há muitos milhões de anos são os mesmos que fazem desaparecer o nono planeta do nosso sistema solar. Mas esquecem que a única verdade é semelhante à travessia de todas as sílabas que delimitam a fronteira onde termina esta verdade e o prodígio transparente e inicial de um poeta não ocupar lugares. Um poeta como Mário Cesariny existiu para que gostassem dele. E mesmo injustiçado e incompreendido tentou mudar a sociedade com uma escrita do real quotidiano e pagou um preço injusto por não ser deste mundo. Mas hoje os homens todos têm tanto frio no coração. Mas hoje somos todos cegos que se olham através de passos sem ruído, como animais à espera de sangue alheio no meio dos campos de trigo.
E apetece-me cometer algumas inconfidências. Entrar em casa de Cesariny era passar umas horas liberto do peso das coisas reais. Lembro-me de numa tarde de verão em que sem ter telefonado a avisar da minha visita fui a casa do Mário. Seriam talvez 15h30. O Mário vestia apenas umas leves calças de pijama. Lembro-me sempre da sensação de abraçar o tronco nu daquele corpo magro e quase alto, salpicado de pingos de tinta azul, verde e branca e de olhar depois aquelas mãos infantis sujas de tinta e daquela forma visionária e mágica de demiurgo com que falava das coisas e da minha poesia. Lembro-me da colagem-pintura que estava a fazer ali à minha frente. Um trabalho sobre a fotografia retirada de um jornal de um condenado à morte nos EUA. Nos seus olhos enquanto falava recordarei para sempre a revolta que tudo isso lhe provocava. Então a irmã Henriette, entrando no atelier, chamou-o para almoçar. Surpreendido perguntei: “A esta hora ainda não almoçaram”? E em tom de peça de teatro cómico Henriette exclamou: “Ainda não! Sabe, esta casa é surrealista em tudo. Até no horário das refeições”. E o Mário com o seu grande à-vontade afável e mordaz diz: “Olha, que merda”. E como nós nos rimos. E como me fazia feliz saber que vivíamos ao mesmo tempo e que sempre que quisesse poderia visitá-lo na rua Basílio Teles. Mas o Mário existe ainda na idade dos nomes puros, repetido à pele. O Mário Cesariny será sempre o meu poeta de Pena Capital ou Cidade Queimada livros que descobri no final da década de 80, numa livraria do Centro Comercial Fonte Nova, entre o meu estágio de Jornalismo, na Agencia Lusa, e melancolia de muitas tardes junto ao Tejo, em Belém: “Em todas as ruas te encontro/ Em todas as ruas te perco”.
E nesta manhã fria de Dezembro sei que todos nós paramos para sentir essa noite que nos espera às escuras, na luz assombrada que dorme devagar quando o vento chega à cidade num movimento eterno. E eu só consigo escrever que dói ser espectador desta proximidade, como se uma porta abrisse outra porta, como uma fuga de informação e tantos lugares comuns. Desculpa, Mário. Feliz Ano Novo.