
Impasse, de Icchokas Meras, Quetzal, 183 páginas.
À primeira vista, Impasse, de Icchokas Meras, um romancista lituano judeu que vive em Israel desde 1972 (até agora desconhecido por cá), parece enquadrar-se numa longa genealogia de ficções em que o xadrez ocupa lugar central – caso, por exemplo, dos livros de Lewis Carroll (Alice no Outro Lado do Espelho), Stefan Zweig (O Jogador de Xadrez), Vladimir Nabokov (The Luzhin Defense), Fernando Arrabal (A Torre Ferida pelo Raio), Arturo Pérez-Reverte (A Tábua de Flandres), Paolo Maurensig (O Jogo de Morte – A Variante de Lüneburg) ou Alexandre Andrade (Benoni).
Na verdade, e embora se possam encontrar alguns pontos de contacto com o romance de Maurensig (em ambos o tabuleiro é o lugar do ajuste de contas entre um judeu e o seu torcionário nazi), aos leitores que procurem em Impasse uma leitura escaquística concreta – isto é, não apenas simbólica ou alusiva – espera-os uma desilusão. Sobre o jogo de xadrez que serve de fio condutor da sua obra, Meras diz-nos muito pouco. E ninguém conseguirá reconstruir jogadas ou a partida inteira, como nos livros de Pérez-Reverte e Carroll.
A situação-limite a que é sujeito o protagonista, um rapaz judeu chamado Isaac Lipman, fica definida logo nas primeiras páginas, embora as circunstâncias exactas do “contrato” só sejam explicadas no fim do relato. Xadrezista talentoso, recai sobre ele o peso do desafio retorcido que Adolf Schoger, o oficial nazi que controla com mão de ferro o gueto de Vilnius, engendrou. Na véspera de enviar todas as crianças judias para um campo de extermínio, Schoger decide jogar o destino dos inocentes no tabuleiro de xadrez, em confronto directo com Isaac, um prodígio de 16 anos que o vencera sempre até àquele momento.
Desta vez, porém, o jovem xadrezista terá que resolver um terrível dilema moral. Se vencer o jogo, as crianças serão libertadas mas ele será condenado à morte. Se perder, Schoger poupa-o mas envia as crianças para um fim atroz. A única solução é então a procura do empate a todo o custo, com os riscos que uma estratégia desse tipo geralmente acarretam.
Se Meras explora com subtileza este tremendo duelo psicológico, o certo é que nunca o coloca, como seria de esperar, no primeiro plano da narrativa. Embora acompanhemos sempre, em apontamentos curtos e elípticos, a evolução do jogo decisivo, o foco principal da nossa atenção é desviado para uma série de episódios em que nos confrontamos ora com o sofrimento e resistência dos habitantes do gueto (narrados na terceira pessoa) ora com a história (na primeira pessoa) do idílio de Isaac e Esther: uma amizade próxima do amor, pura e cheia de reminiscências do Cântico dos Cânticos.
A sombra da Bíblia paira, aliás, sobre todo o livro. Tal como no Velho Testamento, há um pai dilacerado, Abraham Lipman, que imita o outro Abraão, ao dispor-se ao sacrifício do único descendente que lhe resta – não por acaso chamado Isaac – depois de ter perdido seis filhos. O tom bíblico é notório sempre que Abraham introduz cada um desses seis mortos: “– Gerei uma filha, Ina”, “– Gerei um filho, Kasriel”. E gerou também Rachel, Basia, Riva, Taibalé. À vez, um atrás do outro, cada um destes irmãos de Isaac chega-se à frente e domina-nos durante algumas páginas. Uns são artistas, outros resistentes. Uns morrem de forma heróica, a lutar até à morte de espingarda-metralhadora em punho. Outros revelam-se traidores incapazes de lidar com a culpa. E há o caso de Taibalé, a mais nova, nem sequer dez anos de vida, pendurada num poste com a família que a acolhera ainda bebé, só por viver numa zona interdita a judeus. Todos eles, mais as figuras com que se cruzam (por exemplo, Janek, amigo de Isaac e “irmão” de Esther), são personagens de uma extraordinária densidade humana. Através das suas histórias, é a vida do gueto, esse inferno que se materializa atrás dos portões, do controlo militar dos nazis e da prepotência cruel de Schoger, que se desenha com uma nitidez que chega a ser pungente.
Como o surpreendente desfecho sugere, o verdadeiro xadrez não se joga nas 64 casas brancas e negras da praxe. O tabuleiro, se existe, é do tamanho do gueto (ou do mundo). E os irmãos mortos deste romance são algumas das peças sacrificadas num jogo brutal cujo sentido ainda hoje, de certo modo, nos escapa.
[Publicado no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]