" /> A Invenção de Morel: janeiro 2007 Archives

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janeiro 31, 2007

LINKS

O link para o blogue SIM no Referendo vai ficar sob o ícone desenhado pelo Pedro Vieira, aqui mesmo à mão, para facilitar os acessos até 11 de Fevereiro (e dias seguintes).
Agora só me falta cumprir, espero que amanhã, uma tarefa que ando a adiar há um ror de tempo: varrer as folhas mortas da lista de "enlaces" (como lhes chama o Alexandre) e juntar-lhe uma série de endereços que entretanto se tornaram, para mim, de visita regular.

ABERTURAS PERIGOSAS

Certos livros começam de forma tão forte, tão bela ou tão enigmática que nos atiram logo para o abismo da leitura compulsiva. É preciso ter cuidado, quando se manuseiam tais obras. Muito cuidado. Por exemplo, Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas (acabadinho de chegar às minhas mãos, dentro do envelope pardo das edições Teorema). Arranca assim:

«Passávamos pela chamada alameda do fim do mundo, um melancólico trilho junto do castelo de Montaigne, quando me perguntaram:
– Donde vem essa tua paixão por desapareceres?»

O resto são mais de quatrocentas páginas de Vila-Matas vintage (parece-me, em breve confirmarei), sempre atrás do fantasma fugidio de Robert Walser. Deixo-vos ainda o título da quarta e última parte – «Escrever para se ausentar» – que mais parece uma sinopse.

ESTREIA DE UMA REVISTA

O primeiro número da revista OBSCENA, um projecto editorial independente dedicado às artes performativas, é lançado hoje. Com periodicidade mensal, estará apenas disponível para download em pdf no respectivo site.
Segundo o press-release a que tive acesso, a ideia é publicar notícias, reportagens, entrevistas, críticas, artigos de opinião, ensaio e fotografia, equilibrando temas da actualidade nacional e internacional. «A revista quer contribuir para a promoção do diálogo e da discussão sobre as várias disciplinas artísticas nas suas diferentes fases de trabalho, através de textos assinados por críticos, investigadores, jornalistas, programadores e criadores portugueses e estrangeiros que também reflictam acerca do contexto onde estas se inserem.»
A OBSCENA será editada por Tiago Bartolomeu Costa, tendo como «editores associados» Jorge Louraço Figueira, Miguel-Pedro Quadrio e Mónica Guerreiro.

janeiro 30, 2007

SÃO OS PARTIDOS, ESTÚPIDO!

Esta tarde, pelas 18h30, o ciclo de debates É a Cultura, Estúpido! contará com a presença de Mário Soares. O ex-Presidente da República falará sobre "O futuro dos partidos políticos e as novas formas de organização partidária". A conversa será moderada por Anabela Mota Ribeiro, com Pedro Mexia e Daniel Oliveira no papel de "agentes provocadores". Nuno Artur Silva e José Mário Silva dirão o que andam a ler, ver e ouvir.

janeiro 29, 2007

VARIAÇÕES SOBRE UMA ESCULTURA LUMINOSA (2)

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Fotografias de JMS, a partir de Néctar (dois enormes candelabros feitos com garrafas de vinho, em vidro verde; obra da artista Joana Vasconcelos, que os instalou junto às entradas Sul e Norte do Centro de Exposições do Centro Cultural de Belém)

FIQUEM LÁ DE BOCA ABERTA

Há uma revolução em curso mesmo por baixo do nosso nariz.

[Dica do Tiago Barbosa Ribeiro]

janeiro 28, 2007

INDETERMINAÇÕES

Relembremos a primeira frase do Quijote, de Cervantes:

«En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivia um hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antigua, rocin flaco y galgo corredor.»

Relembremos as duas primeiras frases de Moby Dick, de Hermann Melville:

«Call me Ishmael. Some years ago - never mind how long precisely - having little or no money in my purse, and nothing particular to interest me on shore, I thought I would sail about a little and see the watery part of the world.»

Hipótese de trabalho: comparar a indeterminação geográfica do Quijote (que começa num lugar de cujo nome o narrador não quer recordar-se) com a indeterminação cronológica da história de Moby Dick (que tem o seu início num tempo que Ismael, o único sobrevivente da tragédia do Pequod, se recusa a precisar).

NEVE

Foram apenas alguns flocos, no meio da chuva, mas chegaram para acender a memória do que se passou há um ano (menos um dia).

janeiro 27, 2007

O POEMA É UMA ARMA

Revólver, de Rui Lage, Quasi, 82 páginas.

Rui Lage (n. 1975) foi co-fundador da aguasfurtadas – revista de literatura, música e artes visuais –, pertence à direcção da Fundação Eugénio de Andrade e traduziu os Selected Poems de Paul Auster, para além de obras de Neruda e Beckett. Antes deste Revólver, editou dois livros de poesia: Antigo e Primeiro (2002) e Berçário (2004) – sempre na Quasi.
Tendo lido apenas o opus 2, recordo um autor com assinalável domínio do ritmo e da prosódia, estilo cuidado, capaz de belas imagens e formas subtis de articular raciocínios, mas que se perdia amiúde num lirismo vago, quase abstracto e excessivamente elíptico. Em Revólver, embora Lage conserve o tom dos versos, alguns núcleos temáticos e uma certa filiação (repetem-se as dedicatórias a Eduarda Chiote, Manuel António Pina, Arnaldo Saraiva e João Aguardela), o salto qualitativo é por demais evidente.
O título do livro e das suas quatro partes (Licença de porte de arma; Carreira de tiro; Caça furtiva e O revólver vazio) nasce da metáfora do texto de abertura: o poema visto como arma de fogo, máquina pessimista e talvez inútil, porque cheia de ferrugem, com o gatilho «empenado» e balas de calibre duvidoso.
No entanto, mais do que imagens bélicas ou impulsos suicidas, o que a primeira parte do livro nos oferece é uma desassombrada reflexão sobre o vazio espiritual em que vivemos, hoje, neste Ocidente afundado no «tédio sem cura» de um tempo em que os deuses deixaram de ser necessários, prevalecendo no seu lugar o «fantasma de Nietzsche». Mesmo se a metafísica for entregue «de uma vez por todas» aos físicos, para ser «testada em aceleradores de partículas», Lage não ignora que «quanto maior a pergunta / mais rarefeita a resposta». E é por isso que ensaia uma «poética da ciência», disposto a fundar sobre ela «uma crença / que contemple o mais possível o amor», enfim «liberto do tempo e do espaço». Há nestes poemas uma apropriação muito interessante da linguagem científica (com referências, por exemplo, à cintura de Kuiper ou à nuvem de Oort) – coisa rara na poesia portuguesa, pelo menos desde os últimos livros de Vitorino Nemésio. Pena é que o corolário destas explorações seja uma ingénua manifestação de fé na chegada de uma Teoria do Todo que tudo reconciliaria («ficção e ciência, / tropo e teorema, / metáfora, equação // coeficiente // poema») num apogeu de harmonia infantil: «criança alguma ousará / não dirigir a palavra / a outra criança / ou desconvidá-la para a sua festa / de aniversário».
Mais consistente me parece a segunda parte, com a sua crónica urbana de desencanto, atravessada por uma tristeza fugidia, insónias, vida de café e súbitas visões, nítidas como fotogramas («Um ecrã em cada lar / emite luz amarela / como vela acesa / em cela de convento»). Na terceira parte impera a nostalgia de um mundo natural que nós, urbanas «flores de estufa», já só entrevemos à distância. As feras, agora, se rugem é nas «magnéticas selvas» projectadas pelos televisores de plasma. E a luz verdadeira, a «edição princeps da manhã», perde-se por adormecermos «cercados de latas de cerveja / e prata de chocolate».
O melhor do livro, porém, está na sequência final: sete poemas em que pousa a sombra da morte, mas sem alarde ou pavor, antes com uma delicadeza comovente, bem expressa na última estrofe da belíssima Ode a uma urna portuguesa: «Se deixarmos de pensar em ti como saberemos / se algum dia exististe, se tomaste café, / se compraste o jornal, / e se passeaste na praia / naquele dia em que eu estava lá / mas não me viste?»

[Publicado no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]

janeiro 26, 2007

LIÇÕES DE FOTOGRAFIA (3)

Vê todos os filmes de Andrei Tarkovski.
Lê todos os poemas de Arsenii Tarkovski.

A ZONA

Um fotograma de Stalker (1979)

COISAS QUE SE OUVEM NO METRO

«Os realistas, 'tás a ver, pintavam os trabalhadores e assim. Os impressionistas era mais uma questão de técnica.»

«'Tadinho, ainda na semana passada o vi e parecia mesmo bem, ninguém diria que lhe estava para acontecer uma coisa destas.»

«Olha lá, conheces alguém interessado em alugar uma casa em Massamá?»

TRÊS VERSOS DE JUAN ANTONIO BERNIER

Nuestro mirar insiste
en una sola línea:
la que un pájaro traza.

[in Así procede el pájaro, Pre-Textos, Valencia, 2004]

MALES QUE SE PROLONGAM

Os comentários continuam indisponíveis. So sorry.

janeiro 25, 2007

UM POEMA DE RUI LAGE


Wong Kar-Wai


Como se perguntasse o teu
nome, e um eco de mim
respondesse
que não existes


e me apetecesse morrer
mesmo assim à tua porta.


Como se no banco de trás de um táxi
não seguisses comigo para a morte,
nem tivesses no meu colo pousada
a tua cabeça,
no teu rosto branco o batom aceso,
e o azul dos olhos como um espelho
debruçado sobre a noite
ou luz de navio perguntando por terra
mas passando ao largo.

[in Revólver, Quasi, 2006]

BAETA

Há uns três meses que andava para cortar o cabelo, a trunfa, o exagero capilar que já me escondia as orelhas e caía para os olhos. Ontem, depois de n adiamentos, aproveitei a folga e deixei vir a mim as tesourinhas. Pois bem. Sabem que livro decidi começar a ler enquanto esperava? O Mel do Leão, de David Grossman. Subtítulo: O mito de Sansão. Juro que a ironia foi involuntária.

VARIAÇÕES SOBRE UMA ESCULTURA LUMINOSA (1)

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Fotografias de JMS, a partir de Néctar (dois enormes candelabros feitos com garrafas de vinho, em vidro verde; obra da artista Joana Vasconcelos, que os instalou junto às entradas Sul e Norte do Centro de Exposições do Centro Cultural de Belém)

janeiro 24, 2007

SIM, SIM, SIM

A partir de hoje (e até dia 11 de Fevereiro) também andarei por aqui.

DOIS POEMAS (INÉDITOS) DE ANDRÉ SOUSA MARTINS

Nas conferências de imprensa
falas em fé ilimitada,
de herói internacional;
falas, num inglês fluído,
em jogadas inteligentes,
que os jornais e as televisões
reproduzem.

Os milhares de fracassados
e de desempregados,
gostariam de ser como tu.
No íntimo,
mandam-te todos
àquele sítio.


***

O escarcéu das sirenes
da polícia e
dez automóveis negros.
Aviões de guerra
fazem estremecer os telhados.

A mão,
por detrás do vidro,
resgata do tédio
os que se aproximam
para ver.
Todos juram
que era
a mão do presidente.

UMA BOA NOTÍCIA

Do leitor Ricardo F. Diogo recebi o seguinte e-mail (que divulgo com todo o gosto):

«O Projecto Gutenberg, a mais antiga biblioteca electrónica do Mundo, já está disponível em Português, na Internet. Os milhares de livros-e [electrónicos] disponibilizados gratuitamente no PG são produzidos por voluntários de todo o Globo, sozinhos ou no sítio de revisão colectiva Distributed Proofreaders.
A nova versão pretende aumentar as taxas de literacia e a produção de livros electrónicos gratuitos no Mundo de Expressão Portuguesa.
Espera-se, dentro de uma década, ocupar a terceira posição no número de obras em línguas europeias. Um objectivo ousado, que depende da capacidade de mobilização de toda a Comunidade Lusófona.
Qualquer pessoa pode ser um voluntário. Apenas precisa de um livro velho. E de amor pelas Letras em Língua Portuguesa. Mais pormenores nesta página

janeiro 23, 2007

LIÇÕES DE FOTOGRAFIA (2)

Evita a ênfase.
Faz com que tudo seja nu,
menos o teu olhar.

DA PAISAGEM COMO ABSTRACÇÃO

Dunes, Oceano – Edward Weston (1936)

COISAS QUE (NÃO) SE ENCONTRAM NO YOUTUBE

Nem uma entrevista, nem uma opinião de leitor fascinado, nem sequer uma montagem de fotografias a preto e branco (com pouca definição). Nada.

MAIS DO W. G.

Caros sebaldianos: certo "passarinho do mundo editorial" disse-me que está para breve a edição de mais um opus do nosso homem. Desta vez é Vertigo: deambulações pelo norte de Itália e Áustria, sob o signo de Stendhal e Kafka. Título português: Vertigens.

janeiro 22, 2007

DETALHES

Na tradução de Moby Dick que está em cena no Teatro S. Luiz, Ismael, no discurso de abertura, diz que uma das razões que o levam a embarcar é a fuga ao desespero e ao «Novembro húmido» que se instala, junto com outros pensamentos mórbidos, na sua atormentada alma. «Eis o meu substituto para o suicídio», afirma o actor Graciano Dias. Mas não é bem isso que está no original. Melville escreveu: «This is my substitute for pistol and ball.» Não um suicídio qualquer, mas um tiro na cabeça. Detalhes destes nunca são de menosprezar, sobretudo num frasista magnífico como era o autor de Bartleby. Veja-se, a título de exemplo, a frase que surge logo após o desabafo do pistol and ball: «With a philosophical flourish Cato throws himself upon his sword; I quietly take to the ship.»

ARTE POÉTICA

Cada verso, um alçapão reincidente.

JOGAR NO FIO DA NAVALHA

Impasse, de Icchokas Meras, Quetzal, 183 páginas.

À primeira vista, Impasse, de Icchokas Meras, um romancista lituano judeu que vive em Israel desde 1972 (até agora desconhecido por cá), parece enquadrar-se numa longa genealogia de ficções em que o xadrez ocupa lugar central – caso, por exemplo, dos livros de Lewis Carroll (Alice no Outro Lado do Espelho), Stefan Zweig (O Jogador de Xadrez), Vladimir Nabokov (The Luzhin Defense), Fernando Arrabal (A Torre Ferida pelo Raio), Arturo Pérez-Reverte (A Tábua de Flandres), Paolo Maurensig (O Jogo de Morte – A Variante de Lüneburg) ou Alexandre Andrade (Benoni).
Na verdade, e embora se possam encontrar alguns pontos de contacto com o romance de Maurensig (em ambos o tabuleiro é o lugar do ajuste de contas entre um judeu e o seu torcionário nazi), aos leitores que procurem em Impasse uma leitura escaquística concreta – isto é, não apenas simbólica ou alusiva – espera-os uma desilusão. Sobre o jogo de xadrez que serve de fio condutor da sua obra, Meras diz-nos muito pouco. E ninguém conseguirá reconstruir jogadas ou a partida inteira, como nos livros de Pérez-Reverte e Carroll.
A situação-limite a que é sujeito o protagonista, um rapaz judeu chamado Isaac Lipman, fica definida logo nas primeiras páginas, embora as circunstâncias exactas do “contrato” só sejam explicadas no fim do relato. Xadrezista talentoso, recai sobre ele o peso do desafio retorcido que Adolf Schoger, o oficial nazi que controla com mão de ferro o gueto de Vilnius, engendrou. Na véspera de enviar todas as crianças judias para um campo de extermínio, Schoger decide jogar o destino dos inocentes no tabuleiro de xadrez, em confronto directo com Isaac, um prodígio de 16 anos que o vencera sempre até àquele momento.
Desta vez, porém, o jovem xadrezista terá que resolver um terrível dilema moral. Se vencer o jogo, as crianças serão libertadas mas ele será condenado à morte. Se perder, Schoger poupa-o mas envia as crianças para um fim atroz. A única solução é então a procura do empate a todo o custo, com os riscos que uma estratégia desse tipo geralmente acarretam.
Se Meras explora com subtileza este tremendo duelo psicológico, o certo é que nunca o coloca, como seria de esperar, no primeiro plano da narrativa. Embora acompanhemos sempre, em apontamentos curtos e elípticos, a evolução do jogo decisivo, o foco principal da nossa atenção é desviado para uma série de episódios em que nos confrontamos ora com o sofrimento e resistência dos habitantes do gueto (narrados na terceira pessoa) ora com a história (na primeira pessoa) do idílio de Isaac e Esther: uma amizade próxima do amor, pura e cheia de reminiscências do Cântico dos Cânticos.
A sombra da Bíblia paira, aliás, sobre todo o livro. Tal como no Velho Testamento, há um pai dilacerado, Abraham Lipman, que imita o outro Abraão, ao dispor-se ao sacrifício do único descendente que lhe resta – não por acaso chamado Isaac – depois de ter perdido seis filhos. O tom bíblico é notório sempre que Abraham introduz cada um desses seis mortos: “– Gerei uma filha, Ina”, “– Gerei um filho, Kasriel”. E gerou também Rachel, Basia, Riva, Taibalé. À vez, um atrás do outro, cada um destes irmãos de Isaac chega-se à frente e domina-nos durante algumas páginas. Uns são artistas, outros resistentes. Uns morrem de forma heróica, a lutar até à morte de espingarda-metralhadora em punho. Outros revelam-se traidores incapazes de lidar com a culpa. E há o caso de Taibalé, a mais nova, nem sequer dez anos de vida, pendurada num poste com a família que a acolhera ainda bebé, só por viver numa zona interdita a judeus. Todos eles, mais as figuras com que se cruzam (por exemplo, Janek, amigo de Isaac e “irmão” de Esther), são personagens de uma extraordinária densidade humana. Através das suas histórias, é a vida do gueto, esse inferno que se materializa atrás dos portões, do controlo militar dos nazis e da prepotência cruel de Schoger, que se desenha com uma nitidez que chega a ser pungente.
Como o surpreendente desfecho sugere, o verdadeiro xadrez não se joga nas 64 casas brancas e negras da praxe. O tabuleiro, se existe, é do tamanho do gueto (ou do mundo). E os irmãos mortos deste romance são algumas das peças sacrificadas num jogo brutal cujo sentido ainda hoje, de certo modo, nos escapa.

[Publicado no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]

janeiro 21, 2007

DESPEDIDA (PALÁCIO GALVEIAS)

Quatro velas, um ramo de rosas brancas, a voz do Luís Miguel Cintra partindo-se entre os versos, comovida. E no fim o silêncio enorme, onde coubemos todos.

janeiro 20, 2007

UM CANTO DE FIAMA

CANTO DOS EPITÁFIOS (Dia de Finados de 1993)

Todos os dias são dias de finados,
dias dos epitáfios e rosas e crisântemos.
Cada dia as palavras votivas
são apenas uma asserção sobre o vivo.
Contemplo a minha laje talhada inscrita
levada pelo amor da epigrafia
e vejo que sob o nome que fora antes
deixaram linhas de uma mensagem vã.
Todas as palavras são dos mortos
que, avaros, no-las guardam há séculos,
falamos porque os mortos nos falavam
e os livros fizeram-se à imagem do Livro.
É belo ler o que não é, na pedra,
as datas que alongam a cadeia
que nos amarra fugazmente ao Tempo.
Não ser e não estar é o que dizem
as palavras nas línguas de Babel
deixadas escritas em todas as campas.
Também os mortos nos legam a onomástica
e a todos o grande Nome dá o Verbo
para denominar segundo a tribo.
Louvemos o Canteiro que tem a arte
de escavar as palavras no vazio
através dos séculos até mim,
que aceito o nome que me for gravado.
Ao meio-dia do dia de finados
a pedra arde como se fosse estio
e o clarão que aflora as lajes
lembra-nos a matéria e as erupções solares.
Quantos já ascenderam ao Sol,
dos povoadores, peregrinos, filhos terrestres,
e quantas rosas os seguiram no espaço,
destas que o amor humano colocou
e que o amor entre os astros nos retira.
E quantas vezes o Sol por compaixão
nos devolve a nós mesmos os seus protões.

[in Cantos do Canto, Relógio d'Água, 1995]

NO ENTANTO ALGURES, NUM POEMA, OUVI / RODAREM AS ROLDANAS DO CENÁRIO

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

Fotografia: Luísa Ferreira

SMS DAS TRÊS DA MANHÃ

morreu a fiama.

janeiro 19, 2007

O AFFAIRE RUTE MONTEIRO

Enquanto o país se indigna com a condenação de um pai adoptivo (e respectivo folhetim mediático, animado hoje por confissões da mãe biológica que entregou, em desespero de causa, a filha de três meses); enquanto o país se distrai com os ataques fúteis de Paulo Portas a Maria José Morgado; há uma notícia bombástica que está a ser completamente ignorada por televisões e jornais. Segundo o blogue de "jornalismo independente" Freelance, surgido há pouco tempo e da responsabilidade de um tal Olavo Aragão, uma jornalista portuguesa, Rute Monteiro, terá sido raptada no Líbano em Outubro de 2006 por um grupo auto-intitulado Brigadas da "Jihâd Santa".
A ser verdade, este é daqueles casos que merecem cobertura exaustiva dos meios de comunicação social, não só em Portugal mas em todo o mundo. No entanto, a notícia foi colocada esta madrugada, pouco depois da meia-noite, e o silêncio ainda impera (excepção feita a uns quantos blogues). O que é que se passa? Os media portugueses estão a dormir? Ninguém faz nada? Não há uma alminha que se ponha a investigar isto, para tirar a limpo se se trata de informação credível ou de uma brincadeira de mau gosto? Por muito menos, o célebre blogue que acusava Miguel Sousa Tavares de plágio conseguiu chegar às páginas dos jornais.
É certo que há aqui coisas que não batem lá muito certo. Quem é Olavo Aragão? Alguém já tinha ouvido falar dele? Aparentemente, Luís Carmelo conheceu-o pessoalmente e garante tratar-se de um jornalista que esteve radicado 20 anos no Brasil. Talvez o autor do Miniscente possa esclarecer-nos melhor sobre esta figura, sobre o seu percurso e a sua idoneidade profissional. Mas o maior mistério tem a ver com a repórter desaparecida. De onde surge afinal Rute Monteiro? Eu, que leio todos os dias a imprensa, nunca vi o nome dela em lado nenhum. Alguém me sabe dizer para que publicação, rádio ou canal televisivo é que trabalha? E desde quando é que alguém pouco experiente (como ela fatalmente deve ser) parte assim para um dos locais mais perigosos do mundo?
Há aqui qualquer coisa que cheira a esturro e que merece uma investigação com pés e cabeça. Ou não?

Adenda - Ao pesquisar no Google, encontrei uma Rute Monteiro «hospitaleira» a receber turistas enófilos na Quinta do Noval, uma Rute Monteiro professora na Escola Superior de Educação da Universidade do Algarve (além de Responsável do Projecto Educativo do Parque Aquashow, em Quarteira), várias Rutes Monteiros brasileiras mas nem uma que seja jornalista. Estranho, muito estranho.

MALDIÇÃO DA BALEIA BRANCA SOBE AO PALCO DO SÃO LUIZ

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Gregory Peck preso ao cachalote, com as linhas de vários arpões a tolherem-lhe o corpo, enquanto espera a morte no dorso do inimigo. À volta, o mar vermelho de sangue. Era esta imagem cinematográfica do Capitão Ahab, fixada numa película de John Huston (1956) “vista há muitos, muitos anos, na televisão”, que pairava ainda na memória do encenador António Pires, quando Alexandre Oliveira (seu sócio na produtora Ar de Filmes) lhe passou para as mãos o romance de Herman Melville, dizendo: “E se pegasses nisto?”
Habituado a levar ao palco clássicos da literatura (como A Paixão do Jovem Werther, de Goethe; o Dom Quixote, de Cervantes, a partir da tradução de Aquilino; ou Os Lusíadas), Pires entusiasmou-se e pôs imediatamente mãos à obra. Com Maria João Cruz, guionista das Produções Fictícias que já conhecia de outras andanças (por exemplo, A Morte de Romeu e Julieta, 2005), lançou-se num longo processo de “investigação dramatúrgica” e adaptação literária que culminou no espectáculo Moby Dick, estreado ontem à noite no Teatro São Luiz, em Lisboa, onde permanecerá até 3 de Março (quintas e sextas-feiras, às 21h00; sábados, às 16h00 e às 21h00).
“Foram uns seis meses a partir pedra”, diz António Pires, “incluindo o mês que passámos nos Açores, com os senhores da Universidade, do Instituto do Mar e do Museu do Pico”. Transformar a prosa densa de Melville numa peça acabou por ser menos problemático do que se poderia supor: “Aquilo é muito teatral. Alguns diálogos chegam a parecer Shakespeare e a forma como eles articulam os pensamentos, como se questionam, tem uma força extraordinária. Existe ali conflito, tensão, matéria dramática.”
Apesar dos inevitáveis cortes [o livro tem cerca de 600 páginas], o encenador quis manter o fio condutor da história, centrando-a na figura de Ahab (Miguel Guilherme), o capitão obstinado que vagueia pelos oceanos em busca da baleia branca que lhe arrancou uma perna, homem consumido pelas circunstâncias e que arrasta uma tripulação inteira para a espiral da sua loucura. “Ahab é o ódio e a vingança, é a obsessão cega contra a Natureza, contra a baleia que personifica um Mal que está, no fim de contas, dentro dele.” O mais extraordinário de tudo é que Ahab, no seu desvario suicida, consegue ser persuasivo. “Porque será que as outras personagens todas, mesmo as mais racionais (Starbuck), seguem o discurso do capitão? Foi esse fascínio perigoso que quis pôr em cena.”
Além de ter aglutinado várias personagens em cada um dos sete marinheiros que se cruzam no esboço minimalista do Pequod (navio de Ahab) criado pelo cenógrafo João Mendes Ribeiro, a adaptação de Maria João Cruz criou ainda o Piloto da História (Maria Rueff), narrador que olha de fora para os acontecimentos e que não existe no texto original. “Em todos os meus espectáculos há figuras deste tipo, que dialogam com o público e acabam por resgatar passagens ou ideias interessantes que estão nos livros mas que a linguagem dramatúrgica geralmente sacrifica”, lembra Pires.


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Rueff, que surge em Moby Dick num registo contido, muito distante da exuberância histriónica das suas personagens televisivas, assume o carácter profético da personagem: “Eu sou uma espécie de oráculo da tragédia grega. Sou a mulher que fica em terra: a mãe, a amante, a namorada, a filha. No fundo, aquela que sobrevive e fica para contar.” As vestes de quaker permitem situar historicamente a tragédia e sublinhar a rigidez moral de um mundo dominado pela Bíblia (cuja sombra se prolonga da evocação inicial do castigo de Jonas ao simbolismo do nome de personagens e navios).
Outra das funções do Piloto consiste em fazer a ponte com a escrita de Melville, com a sua música. “Quisemos resgatar a poética do texto, nomeadamente as belíssimas descrições do mar, dos céus, das tempestades e dos vários fenómenos naturais.” Como o Fogo-de-Santelmo que em dado momento ilumina, a um canto do palco, o mastro do Pequod, mais alto do que o segundo balcão.
Desde o início, a equipa foi acompanhada, a par e passo (excepto na viagem aos Açores), pelo realizador João Botelho. “Ele esteve sempre presente, das leituras até à estreia, passando pelos ensaios num armazém de Benfica, enorme (para caber o cachalote) e gélido, mas com uma luz belíssima”, diz Pires. O documentário será exibido na RTP ainda este ano, em data a definir.

[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]

Fotografias: JMS

DISTINGUIR

«A meio de um noticiário ocorre-me que, se os actores gregos usavam máscaras distintas para a tragédia e para a comédia, era porque o público nem sempre conseguia distinguir uma da outra.»

[José Bandeira]

SLOGAN

Um dos mais geniais slogans de sempre é, para mim, «O Inferno em papel-bíblia», que a Gallimard usou para publicitar a edição das obras completas de Sade na colecção Pléiade.

MAGNÍFICA BARCA

A de J. Rentes de Carvalho, com o tempo contado e a prosa mais elegante das redondezas.

janeiro 18, 2007

AHAB E A BALEIA

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Coragem! Coragem, marinheiro! Endurece o teu coração, semi-deus! Da espuma da tua morte no mar ergue-se verticalmente a tua apoteose.

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Moby Dick, de Herman Melville, encenado por António Pires a partir de uma adaptação de Maria João Cruz, com Maria Rueff (Piloto da História), Miguel Guilherme (Capitão Ahab), Graciano Dias (Ismael), Ricardo Aibéo (Starbuck), José Airosa (Stubb), Miguel Borges (Queequeg), Milton Lopes (Pip), João Barbosa e Rui Morisson. Estreia hoje, às 21h00, no Teatro São Luiz, em Lisboa.

Fotografias: JMS

MEG

Impressionantes, as ondas de choque na blogosfera produzidas pela morte de MEG (Maria Elisa Guimarães), autora do Sub Rosa desde Setembro de 2001 e uma das bloggers mais activas e respeitadas do Brasil. De ambos os lados do Atlântico, o desaparecimento súbito deixou um vazio esquisito em muita gente, uma tristeza de poucas palavras típica dos estados de choque, como se pode conferir nos muitos links compilados pelo Henrique Fialho. Custa-me sobretudo assistir à devastação da dor, tão próxima, que atingiu o Paulo José Miranda.

APROXIMAÇÕES À VERTIGEM DA ESCRITA

Na última década, a área de Literatura do concurso Jovens Criadores – co-organizado pelo Instituto Português da Juventude e pelo Clube Português de Artes e Ideias – tem sido uma espécie de montra por onde foram passando muitos talentos literários, alguns dos quais conseguiram afirmar-se rapidamente (casos de José Luís Peixoto, Ondjaki, André Murraças), enquanto outros aguardam ainda a oportunidade, ou a sorte, de voos mais altos (por exemplo, Rui Manuel Amaral, Fernando Bilé, Valério Romão, Margarida Vale de Gato).
A antologia relativa à colheita de 2006, mais uma vez dada à estampa pela 101 Noites (depois de alguns volumes publicados na extinta editora Íman), volta a oferecer-nos boas surpresas, por entre textos que sofrem de concursite aguda; isto é, trabalhos que esbanjam a energia dos seus autores na busca de uma originalidade a todo o transe, capaz de impressionar o júri de selecção e encher o olho ao leitor, mas que se limita, quase sempre, à réplica de experimentalismos serôdios e sem rasgo.
No capítulo das boas surpresas, destacam-se claramente dois nomes: Alexandra Pereira (Estapafúrdiocontostropicotransculturais) e Miguel Marques (As minhas lágrimas são apóstrofos que caem), repetentes que já constavam da recolha de 2005. Por trás dos títulos duvidosos (para não dizer catastróficos), encontramos brilhantes exercícios de estilo só ao alcance de quem domina os princípios essenciais da linguagem literária. Alexandra Pereira oferece-nos quatro contos divertidíssimos, exuberantes, bem medidos (com alusões a Hemingway, que aparece sob a forma de fantasma, e ao universo mágico de García Márquez), mais um pequeno ensaio dispensável (A Alegoria da Gaiola). Miguel Marques assina o retrato, em tons de polaróide, da relação entre uma avó fechada na sua doença terminal e o neto aspirante a escritor, rapaz inseguro às voltas com uma prosa que se desdobra em vários tempos, se distende, absorve a “verdade” comezinha da vida real e depois explode em todas as direcções (deliciosa, a paródia aos “jovens escritores” que se põem em bicos de pés, imitam Lobo Antunes e tentam entrar em antologias como esta).
Exemplos de concursite: a “saga infantil” de Jorge Vaz Nande (tão bem escrita e surreal como exibicionista e gratuita) ou as quase ilegíveis manchas de texto compactas de Tiago Videira, com vénias explícitas ao concretismo brasileiro (Haroldo de Campos). Sobra um conto sólido embora algo esquemático, de estilo clássico e final decepcionante (A Casa, Inês Vinagre); um devaneio romântico pop sem espessura (14 de Fevereiro, Sofia Afonso Ferreira); e os poemas – muito frágeis, os de Nuno Marques (As Faces de Orlando); interessantes e instáveis na sua auto-reflexividade, os de Vanessa Musculino (Poesia Útil).

[Publicado no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]

TÍTULOS

No livro Ficções Científicas & Fantásticas, publicado pela novíssima editora Chimpanzé Intelectual, o impagável Manuel João Vieira assina uma prosa amalucada com título a condizer: As Fantásticas Aventuras de Luís Mendonça. Lá dentro, há uma história dentro da história (melhor dizendo, um filme dentro do conto) com um título igualmente sugestivo: Luís Mendonça e as Mulheres Canibais. Mas o melhor de todos os títulos está guardado para o futuro segundo episódio da saga de L. M.: Os emissários de Tokalon. Quem será capaz de resistir ao genial cruzamento entre António de Macedo e o fabuloso mundo dos cosméticos?

janeiro 17, 2007

QUANDO A FICÇÃO INVADE A VIDA DO FICCIONISTA

Uma grande, grande história (colhida aqui):

The novellist Ian McEwan has discovered that a bricklayer is the older brother he never knew he had, following the man's quest to uncover his roots.
The revelation emerged that Rose McEwan, the novelist's mother, had given away Ian's older brother, Dave, at a railway station. He was conceived by Ian's father, David, and Rose while she was still married to her first husband. She had fallen pregnant from her wartime affair with David and wanted to give her baby away before her husband returned home on leave. An advert she placed in a local paper read: "Wanted, home for baby boy, aged one month: complete surrender." Rose and Percy Sharp were given the baby at Reading railway station, in Berkshire.
Rose married McEwan, the child's father, then an army officer, after her husband was killed in the Normandy landings.
The couple had their second son, Ian, six years after Dave Sharp had been born. (...)
The lives of the two men have taken very different paths. Mr Sharp, 64, worked in the building industry in south-east England during the post-war years. His undiscovered brother went from private school to university before finding international acclaim with such novels as
Atonement, and Enduring Love. For 20 years the brothers lived just 15 miles apart, Mr McEwan in Oxford's exclusive Park Town, and Mr Sharp in the Wallingford.
Mr Sharp told the Oxford Mail: "I had never heard of him. Of course, I've read all of his books now, but whether he's a road-sweeper or an author is immaterial. He's just my brother to me."

ESCADAS ROLANTES

Subir. Subir. Subir. Até ao abismo.

ESTE PEJO EM CONFESSAR A FALTA QUE ME FAZEM CERTAS PESSOAS

«(...) Não faço birras. Não encontro sossego. Despendo grande parte do dia sozinho. Dos dias. Sozinho. Esqueço-me de coisas supérfluas. Das outras nem tanto. Fumo em excesso. Escarro em demasia. Relativizo a tristeza. Descubro versos numa turquês. Inalo esferas de naftalina. Não sou feliz mas ocupo-me doutros assuntos. De quando em quando alguém telefona. Um apito inusitado, tal qual o da chaleira da minha avó. A minha avó munia-se de uma braseira no inverno. Atiçava as brasas com uma tenaz. Não teço considerações filosóficas. Temo ser inoportuno. Este pejo em confessar a falta que me fazem certas pessoas. (...)»

[in As minhas lágrimas são apóstrofos que caem, de Miguel Marques, texto incluído na antologia Jovens Escritores 2006, 101 Noites]

LIÇÕES DE FOTOGRAFIA

Aprende a arte de ignorar o foco.
Repara nos reflexos menos óbvios.
Enquadra a imagem como se ela estivesse a arder.
Capta a sombra (real ou imaginária) do que ficou fora de campo.

janeiro 16, 2007

LACRAUS

Andava sempre com lacraus no bolso, mesmo quando não tinha lacraus no bolso.

ESTA MANHÃ

A bruma presa por fios.

OUTRO QUE REGRESSA APÓS BREVE POUSIO

Luís M. Jorge, ex-sniper que não perdeu a pontaria.

janeiro 15, 2007

RETRATO (TALVEZ INVOLUNTÁRIO) DO COMPOSITOR JOHN CAGE, POR QUINO

A cara do homem faz-me lembrar, hélas, o James Joyce.

janeiro 14, 2007

UMA QUESTÃO DE SEQUÊNCIA

Antes de ler os dois posts seguintes, comece por ler este, s.f.f.

QUATRO PERGUNTAS

1. Qual é, para ti, o lugar que Cesariny ocupa na literatura portuguesa do século XX?

2. Como é que se deu a tua aproximação à obra poética de Cesariny?

3. Que aspectos da sua escrita é que te parecem mais importantes?

4. Existem ecos, ou influências (mesmo se remotas), da poesia dele na poesia que escreves? E na dos outros poetas da tua geração?


Respostas de Luís Quintais:

1. Lugar maior, evidentemente. Inventiva verbal, beleza convulsiva, sentido do risco, jogo e ironia q.b. A poesia no limite, nessa indomesticada e indomesticável fronteira entre a realidade e a imaginação.

2. Idos anos oitenta do século passado. Primeiro veio António Maria Lisboa, depois Cesariny.

3. Para lá do que assinalei atrás, destacaria outros aspectos menos formais ou oficinais.
Em tempos de vontade de poder, a vontade de liberdade, sem concessões, sem barganha. Coisa para poucos, como se sabe.

4. Sim. Explícitas, mesmo. Leia-se o meu O dia claro (ou Mário Cesariny vai a banhos) em Duelo (p. 42). Nos da minha geração, destacaria o Pedro Mexia.


Respostas de Rui Lage (que subverteu a ordem):

2. A minha introdução à poesia portuguesa posterior a Orpheu foi tardia e não se fez pelos canais “normais”. Excluídos os clássicos medievais e quinhentistas, excluídos alguns românticos e oásis como Gomes Leal, Pessanha ou Cesário, excluído, sobretudo, o Colosso de Rodes da nossa cultura, oitava maravilha do mundo, Fernando Pessoa (e os outros de si), o que eu lia era a poesia e a ficção inglesa, francesa, espanhola, italiana, e, em traduções, alemã e russa. Só mais tarde é que entrei na poesia portuguesa contemporânea, e fi-lo pela porta dos anos setenta (através dos poetas que o meu pai lia e me passava). Lembro-me bem do meu primeiro livro “pós-moderno”: “Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde” de Manuel António Pina (2.ª ed., 1982). E que apropriados são, agora que Cesariny nos trocou por Elsinore, os primeiros versos desse livro: “os tempos não são bons para nós, os mortos./ Fala-se demais nestes tempos (inclusive cala-se)”. Quer isto dizer que só “descobri” Nemésio, Eugénio, Sophia, Sena, Herberto, Fiama, Carlos de Oliveira ou O’Neill há relativamente pouco tempo. Quanto a Cesariny, não foi há muito anos que dei por mim a perguntar quem era, afinal, este poeta de apelido Vasconcelos, cuja incatalogável poesia de desconcerto, desengano e estranheza falava num tal de Epaminondas, que escrevia “a um rato morto encontrado num parque” ou mostrava “ter lavados e muitos dentes brancos à mostra”.

1. Como é sabido, Cesariny nutria por Pessoa um misto de veneração e repulsa, antinomia sine qua non para se operar, na altura, qualquer ruptura com o passado. Tanto assim é que Cesariny, tendo escolhido o corajoso caminho da orfandade, sentiu mais tarde a necessidade de inventar um pai: Teixeira de Pascoaes. Mas o verdadeiro pai de Cesariny foi Cesário. Se dúvidas houverem leiam-se os primeiros versos de “Corpo Visível”, saído a lume em 1950, numa edição de autor custeada por Eugénio de Andrade (que foi por isso, como informa Maria de Fátima Marinho em “O Surrealismo em Portugal”, de 1987, o seu primeiro editor): “A esta hora entre os blocos de prédios enevoados a bela mancha/ diurna dos calceteiros na praça”. O grande prestidigitador é pois o legítimo herdeiro do poeta do “gás” e do “bairro onde miam gatas”, inventor da moderna poesia portuguesa. Em Cesariny dá-se, acima de tudo, o triunfo da imaginação (nada havendo de mais livre que a imaginação). Nele acontece uma admirável e penso que irrepetível sincronia entre o “id” e o “real quotidiano”. Se as obras de um Eugénio ou de um Herberto, por exemplo, impressionam pela coerência estética, a de Cesariny impressiona pela incoerência (que é sempre mais difícil de parafrasear ou imitar…). Ora eu sempre preferi, à politicamente correcta e inflexível coerência, a bem mais humana e maleável incoerência. Um escritor incoerente não teme pregar rasteiras a si mesmo, voltar atrás, contradizer-se, ou até desistir, como foi o caso, quando acha que é chegada a hora certa. O país devia sentir neste momento uma “pena capital” pelo desaparecimento de uma das mais singulares figuras da sua cultura – mas isso era se não estivéssemos todos, como no poema de M. A. Pina, mortos.

4. Se ecos existem, não sou capaz de os ouvir. Quem sabe se através de um exame dentário ou recorrendo ao teste do carbono 14. De qualquer forma Cesariny operava em frequências invulgares, conseguindo picos de subsónicos e de agudos impossíveis de reproduzir. Às vezes penso que só os cães no cimo dos povoados (ou os lobos do Primeiro dos “Cantos de Maldoror”) é que atingiam uma total compreensão do que ele estava a dizer. No meu último livro, “Revólver”, termino o segundo poema com os versos: “uma vez, eu pecador me confesso/ lavei as mãos nas santas águas/ de uma pia baptismal”. Admito que tenho um fraquinho pela dessacralização, essa arte tão difícil e cruel - para o Joyce, I.N.R.I. significava “Iron Nails Ran In” (“pregos de ferro entraram”). Será por aí? Mas não lhe vejo sucessor, nem poetas que se tenham estreado nas últimas décadas com a sua vocação para a ruptura, à excepção, talvez, de Adília Lopes. Penso que só Fernando Assis Pacheco (esse outro inclassificável poeta maior do século XX) teve coragem para abrir o presente envenenado do “Virgem Negra”. Depois há uns pozinhos em Jorge Sousa Braga e, estou certo, um belo cadáver em Manuel Resende. Quanto à minha geração, não posso senão especular (ocorre-me um poema de Tiago Gomes chamado “Señoritas”)... Para vibrar nas mesmas frequências de Cesariny seriam precisas grandes doses de imaginação, e, hoje em dia, cedemos, quase sem luta, à frustração e ao desencanto (excepção feita àqueles que “infundem o prodígio”, pairando, lá no alto, sobre o lixo do mundo, sacerdotes do absoluto). Temos talvez a dolorosa consciência (falo dos poetas que leio, que me interessam) de que a verdade começa quando as asas de Ícaro derretem e este se precipita sobre o mar, e não antes, quando parte, confiante, rumo ao sol.

Respostas de Pedro Sena-Lino:

1. Muitas vezes me ocorreu esta ideia: a Literatura Portuguesa do século XX tem três príncipes renascentistas, artistas completos e múltiplos na sua voz de várias artes, da pintura à literatura, do ensaio à poesia, à ficção; cada um deles está ligado às três vanguardas literárias do século XX Português: o da geração de “Orpheu”, com Almada Negreiros; o do Surrealismo, com Cesariny; o do Experimentalismo, com Ana Hatherly.
Cesariny é, para além disso, o príncipe renascentista de múltiplos talentos (a revelação próxima de um espólio musical contará dos seus dons pianísticos) que vive longe do seu reino: o gostosamente desterrado de tantos sítios onde era esperado, para vir no inesperado; Cesariny é um príncipe por dentro e um clown por fora, quando tantos outros são príncipes por fora e verdadeiros palhaços por dentro.
Além disso, penso que ninguém como Cesariny (e alguns dos seus próximos surrealistas, como O’Neill e Natália Correia) trouxe o riso e a sátira para a Literatura Portuguesa; repare-se como a sua obra poética termina mais do que numa sátira (O Virgem Negra). Esse reinar desreinando é uma das mais sãs atitudes literárias em Portugal, um país anão que teima em coroar gigantes.

2. Através do amor. Com Cesariny aconteceu-me um mistério, absolutamente carne até na alma, de que ainda não me livrei: é que me a c o n t e c e r a m poemas seus. De cada palavra à pausa, à suspensão, ao silêncio murro do impossível no estômago. E vários: “Poema” (Em todas as ruas te encontro), “O Jovem Mágico” e sobretudo este (“De profundis amamus):
(…) Não faz mal abracem-me/ os teus olhos/ de extremo a extremo azuis/ vai ser assim durante muito tempo/ decorrerão muitos séculos antes de nós/ mas não te importes/ não te importes/ muito/ nós só temos a ver/ com o presente/ perfeito/ corsários de olhos de gato intransponível/ maravilhados maravilhosos únicos/ nem pretérito nem futuro tem/ o estranho verbo nosso»

3. A revolução pessoal e interior, o desconcerto procurante de si; a desinstalação; a beleza que nunca é, porque está a ser.

4. Creio que sim, mas isso está no sangue, e ninguém consegue ver a alma do sangue. Duas coisas, porém, entre a poesia e a acção, sem dúvida: o poema como um acto de explosão, de questionamento revoltoso, sentido por mim e assim ouvido e escrito aceso; e nunca pactuar com as importâncias instituídas: a literatura não tem tiranos, tronos nem propriedade horizontal.
E Cesariny continua a ser incómodo nesta espécie de capitalismo neo-realista de corte que parece ser (a maioria d)a literatura portuguesa de hoje.


Resposta de Joaquim Cardoso Dias:


Repetido à pele


Para o tio Mário Cesariny


eu devia chamar deus e ser eternamente miúdo
e tocar-te repetido à pele
pela mesma boca com a palavra amor
a envelhecer a barba pelas costas
e peço para ti um coração míope
para acolher o esquecimento de brincar no mundo


Os poetas não ocupam lugares. Os verdadeiros poetas entram devagar nas casas que crescem através da nossa vida e permanecem entre as páginas dos livros, numa pluralidade universal e intransmissível. Mas vivemos num mundo que se preocupa em dar nome a tantos rumores e a tantos sonhos e em rotular a sede de uma voz que nunca mais disse adeus. E os grandes cientistas que descobrem na via láctea a poeira de um rasto de estrelas que existiu há muitos milhões de anos são os mesmos que fazem desaparecer o nono planeta do nosso sistema solar. Mas esquecem que a única verdade é semelhante à travessia de todas as sílabas que delimitam a fronteira onde termina esta verdade e o prodígio transparente e inicial de um poeta não ocupar lugares. Um poeta como Mário Cesariny existiu para que gostassem dele. E mesmo injustiçado e incompreendido tentou mudar a sociedade com uma escrita do real quotidiano e pagou um preço injusto por não ser deste mundo. Mas hoje os homens todos têm tanto frio no coração. Mas hoje somos todos cegos que se olham através de passos sem ruído, como animais à espera de sangue alheio no meio dos campos de trigo.
E apetece-me cometer algumas inconfidências. Entrar em casa de Cesariny era passar umas horas liberto do peso das coisas reais. Lembro-me de numa tarde de verão em que sem ter telefonado a avisar da minha visita fui a casa do Mário. Seriam talvez 15h30. O Mário vestia apenas umas leves calças de pijama. Lembro-me sempre da sensação de abraçar o tronco nu daquele corpo magro e quase alto, salpicado de pingos de tinta azul, verde e branca e de olhar depois aquelas mãos infantis sujas de tinta e daquela forma visionária e mágica de demiurgo com que falava das coisas e da minha poesia. Lembro-me da colagem-pintura que estava a fazer ali à minha frente. Um trabalho sobre a fotografia retirada de um jornal de um condenado à morte nos EUA. Nos seus olhos enquanto falava recordarei para sempre a revolta que tudo isso lhe provocava. Então a irmã Henriette, entrando no atelier, chamou-o para almoçar. Surpreendido perguntei: “A esta hora ainda não almoçaram”? E em tom de peça de teatro cómico Henriette exclamou: “Ainda não! Sabe, esta casa é surrealista em tudo. Até no horário das refeições”. E o Mário com o seu grande à-vontade afável e mordaz diz: “Olha, que merda”. E como nós nos rimos. E como me fazia feliz saber que vivíamos ao mesmo tempo e que sempre que quisesse poderia visitá-lo na rua Basílio Teles. Mas o Mário existe ainda na idade dos nomes puros, repetido à pele. O Mário Cesariny será sempre o meu poeta de Pena Capital ou Cidade Queimada livros que descobri no final da década de 80, numa livraria do Centro Comercial Fonte Nova, entre o meu estágio de Jornalismo, na Agencia Lusa, e melancolia de muitas tardes junto ao Tejo, em Belém: “Em todas as ruas te encontro/ Em todas as ruas te perco”.
E nesta manhã fria de Dezembro sei que todos nós paramos para sentir essa noite que nos espera às escuras, na luz assombrada que dorme devagar quando o vento chega à cidade num movimento eterno. E eu só consigo escrever que dói ser espectador desta proximidade, como se uma porta abrisse outra porta, como uma fuga de informação e tantos lugares comuns. Desculpa, Mário. Feliz Ano Novo.

CESARINY VISTO PELOS QUE VIERAM DEPOIS

Em 1995, Mário Cesariny editou Uma Combinação Perfeita (Prates), álbum ilustrado com poemas-colagens que marca o fim da sua relação intensa e vertiginosa com as palavras. A partir desse momento, a poesia, que já se mostrava arredia há muitos anos, “pôs-lhe os cornos” de vez. Conformado, Mário enveredou então pela pintura e pela reedição obsessiva das suas obras mais antigas (sempre com cortes, ampliações ou fusões).
Nesse mesmo ano de 1995, estreava-se nas letras portuguesas um poeta, Luís Quintais, vencedor do prémio internacional Aula de Poesia de Barcelona com A Imprecisa Melancolia (Teorema). Onze anos e seis livros de poemas mais tarde, o também professor de Antropologia da Universidade de Coimbra recusa-se a falar de passagens de testemunho, ou quaisquer outras heranças concretas, mas não deixa de assumir influências da voz de Cesariny no que escreve. “Algumas dessas influências são explícitas, como se pode ver em O dia claro (ou Mário Cesariny vai a banhos)”, um poema incluído no livro Duelo (Cotovia, 2004) que termina com esta estrofe: “Há boas razões para estarmos aqui. / Eu neste arrazoado poético, / e tu no teu bom senso de banhista feliz. / Mas nenhuma forte o bastante para continuarmos aqui. / Do mar, é entrar e sair, / e à margem do Agosto e dos fins / permanecer”.
Sobre o lugar que Mário Cesariny ocupa na literatura portuguesa do século XX, Quintais não tem dúvidas: “É um lugar maior, evidentemente.” As razões são muitas: “Inventiva verbal, beleza convulsiva, sentido do risco, jogo e ironia q.b. A poesia no limite, nessa indomesticada e indomesticável fronteira entre a realidade e a imaginação.” Pelo mesmo diapasão afina Pedro Sena-Lino: “Cesariny foi o príncipe renascentista de múltiplos talentos (a revelação próxima de um espólio musical contará dos seus dons pianísticos) que vive longe do seu reino: o gostosamente desterrado de tantos sítios onde era esperado, para vir no inesperado; Cesariny era um príncipe por dentro e um clown por fora, quando tantos outros são príncipes por fora e verdadeiros palhaços por dentro.” Quintais completa o desenho de um perfil excepcional, ao dizer que Cesariny representa “em tempos de vontade de poder, a vontade de liberdade, sem concessões, sem barganha”, rematando que tal atitude é “coisa para poucos, como se sabe”.
Já Rui Lage prefere identificar uma linhagem: “O verdadeiro pai de Cesariny foi Cesário Verde. Se dúvidas houverem leiam-se os primeiros versos de Corpo Visível, saído a lume em 1950, numa edição de autor custeada por Eugénio de Andrade: ‘A esta hora entre os blocos de prédios enevoados a bela mancha / diurna dos calceteiros na praça’. O grande prestidigitador é pois o legítimo herdeiro do poeta do ‘gás’ e do ‘bairro onde miam gatas’, inventor da moderna poesia portuguesa.” E qual foi o grande feito de Cesariny? “O triunfo da imaginação (nada havendo de mais livre que a imaginação)”, responde Lage. “Nele acontece uma admirável e penso que irrepetível sincronia entre o ‘id’ e o ‘real quotidiano’. Se as obras de um Eugénio ou de um Herberto, por exemplo, impressionam pela coerência estética, a de Cesariny impressiona pela incoerência (que é sempre mais difícil de parafrasear ou imitar…). Ora eu sempre preferi, à politicamente correcta e inflexível coerência, a bem mais humana e maleável incoerência. Um escritor incoerente não teme pregar rasteiras a si mesmo, voltar atrás, contradizer-se, ou até desistir, como foi o caso, quando acha que é chegada a hora certa.”
Para Sena-Lino, “ninguém como Cesariny trouxe o riso e a sátira para a Literatura Portuguesa”. O poeta “reinava desreinando”, uma das “atitudes mais sãs” que se podia ter num “país anão que teima em coroar gigantes”. A aproximação aos seus versos, essa, deu-se “através do amor”. Assim: “Com Cesariny aconteceu-me um mistério, absolutamente carne até na alma, de que ainda não me livrei: é que me a c o n t e c e r a m poemas seus. De cada palavra à pausa, à suspensão, ao silêncio murro do impossível no estômago.” A influência reflecte-se numa espécie de ética da escrita: “O poema como um acto de explosão, de questionamento revoltoso, sentido por mim e assim ouvido e escrito aceso; e nunca pactuar com as importâncias instituídas: a literatura não tem tiranos, tronos nem propriedade horizontal.”
Menos perceptível é o rasto de Cesariny em Rui Lage: “Se ecos existem, não sou capaz de os ouvir. Quem sabe se através de um exame dentário ou recorrendo ao teste do carbono 14. De qualquer forma, Cesariny operava em frequências invulgares, conseguindo picos de subsónicos e de agudos impossíveis de reproduzir. Às vezes penso que só os cães no cimo dos povoados (ou os lobos do Primeiro dos Cantos de Maldoror) é que atingiam uma total compreensão do que ele estava a dizer.” Talvez por isso acrescenta: “Não lhe vejo sucessor, nem poetas que se tenham estreado nas últimas décadas com a sua vocação para a ruptura, à excepção, talvez, de Adília Lopes. Penso que só Fernando Assis Pacheco (esse outro inclassificável poeta maior do século XX) teve coragem para abrir o presente envenenado do Virgem Negra. Depois há uns pozinhos em Jorge Sousa Braga e, estou certo, um belo cadáver em Manuel Resende. Para vibrar nas mesmas frequências de Cesariny seriam precisas grandes doses de imaginação, e, hoje em dia, cedemos, quase sem luta, à frustração e ao desencanto. Temos talvez a dolorosa consciência (falo dos poetas que leio, que me interessam) de que a verdade começa quando as asas de Ícaro derretem e este se precipita sobre o mar, e não antes, quando parte, confiante, rumo ao sol.”
Joaquim Cardoso Dias, o último dos autores a estrear-se (2002), preferiu responder-nos com um texto muito pessoal e sem enquadramentos teóricos, que a seguir transcrevemos quase na íntegra:
“Os poetas não ocupam lugares. Os verdadeiros poetas entram devagar nas casas que crescem através da nossa vida e permanecem entre as páginas dos livros, numa pluralidade universal e intransmissível. (...) Um poeta como Mário Cesariny existiu para que gostassem dele. E mesmo injustiçado e incompreendido tentou mudar a sociedade com uma escrita do real quotidiano e pagou um preço injusto por não ser deste mundo. Mas hoje os homens todos têm tanto frio no coração. Mas hoje somos todos cegos que se olham através de passos sem ruído, como animais à espera de sangue alheio no meio dos campos de trigo.
E apetece-me cometer algumas inconfidências. Entrar em casa de Cesariny era passar umas horas liberto do peso das coisas reais. Lembro-me de numa tarde de verão em que sem ter telefonado a avisar da minha visita fui a casa do Mário. Seriam talvez 15h30. O Mário vestia apenas umas leves calças de pijama. Lembro-me sempre da sensação de abraçar o tronco nu daquele corpo magro e quase alto, salpicado de pingos de tinta azul, verde e branca e de olhar depois aquelas mãos infantis sujas de tinta e daquela forma visionária e mágica de demiurgo com que falava das coisas e da minha poesia. Lembro-me da colagem-pintura que estava a fazer ali à minha frente. Um trabalho sobre a fotografia de um condenado à morte nos EUA, retirada de um jornal. Nos seus olhos enquanto falava recordarei para sempre a revolta que tudo isso lhe provocava. Então a irmã Henriette, entrando no atelier, chamou-o para almoçar. Surpreendido perguntei: ‘A esta hora ainda não almoçaram?’ E em tom de peça de teatro cómico Henriette exclamou: ‘Ainda não! Sabe, esta casa é surrealista em tudo. Até no horário das refeições.’ E o Mário com o seu grande à-vontade afável e mordaz diz: ‘Olha, que merda.’ E como nós nos rimos. E como me fazia feliz saber que vivíamos ao mesmo e que sempre que quisesse poderia visitá-lo na rua Basílio Teles.
Mas o Mário existe ainda na idade dos nomes puros, repetido à pele. O Mário Cesariny será sempre o meu poeta de Pena Capital ou Cidade Queimada, livros que descobri no final da década de 80, numa livraria do Centro Comercial Fonte Nova, entre o meu estágio de Jornalismo, na Agência Lusa, e melancolia de muitas tardes junto ao Tejo, em Belém: ‘Em todas as ruas te encontro/ Em todas as ruas te perco’.
E nesta manhã fria de Dezembro sei que todos nós paramos para sentir essa noite que nos espera às escuras, na luz assombrada que dorme devagar quando o vento chega à cidade num movimento eterno. E eu só consigo escrever que dói ser espectador desta proximidade, como se uma porta abrisse outra porta, como uma fuga de informação e tantos lugares comuns. Desculpa, Mário. Feliz Ano Novo.”

OS BASTIDORES DE UM TEXTO

Na edição que o suplemento 6.ª dedicou a Mário Cesariny (29/12), publiquei um texto que tentava reflectir o modo como alguns poetas mais novos olham para a obra e para a importância, na História da Literatura portuguesa, do autor de Pena Capital. Os quatro poetas que aceitaram o repto – Luís Quintais, Rui Lage, Pedro Sena-Lino e Joaquim Cardoso Dias – responderam ao mesmo conjunto de perguntas, a que eu tive que aplicar o bisturi. Fazendo uso da principal virtude da blogosfera (o espaço ilimitado), recupero agora essas respostas na íntegra, salvas do retalhar ingrato a que a edição jornalística obriga.
Mas, primeiro, recupero a prosa como ela viu a luz do dia, em página.

UMA VISÃO FRACTAL DAS FAVELAS DO RIO


Os Anjos do Rio

Dona Irene tem 75 anos. É baixinha, de cor escura, rosto de índia e um olhar “ao mesmo tempo duro, recto e doce”. Analfabeta, ainda vende rosas vermelhas e pastilha elástica em Copacabana, ocupação de toda a vida. Na fotografia, de corpo inteiro, vemo-la de fato branco (sapatos da mesma cor), mãos ao longo do corpo testemunhando o embaraço da pose. Logo por baixo, o mapa das praias que ela calcorreia diariamente, com linhas negras a marcar o itinerário dos seus passos.
A obra, uma criação híbrida de Françoise Schein, intitula-se Vovó e pode ser vista na Galeria Ratton, até 18 de Fevereiro, numa das três exposições que a artista belga apresenta neste momento em Lisboa – as outras duas, documentais, estão montadas no Instituto Franco-Português. E porquê Vovó? “Porque Dona Irene é mãe da mãe da minha filha adoptiva.”
Um dos aspectos mais curiosos do trabalho de Schein tem justamente a ver com o modo como a vida privada intervém nos seus processos de criação – tanto ou mais do que as concepções estéticas, filosóficas ou políticas. O “namoro” com o Brasil começou em 1999, quando a artista chegou ao Rio de Janeiro com o objectivo de adoptar uma criança. “Encontrei-a em Duque de Caxias e acabei por ficar ligada ao resto da família.” Além de Dona Irene, há outros elementos da “tribo” que aparecem, de forma mais ou menos explícita, nas imagens e histórias que Schein captou entre o morro, onde os meninos tomam banho em baldes de plástico, e a cidade “oficial”.
Essa fronteira que separa o bem-estar da miséria é particularmente nítida em Les rues des uns, les rues des autres, engenhosa colagem que cria a ilusão de que a favela (simbolizada por um rapazinho descalço) invade de forma literal os bairros modernos e asfaltados, com automóveis saindo de túneis – em cujas trevas Schein escreveu a primeira frase da Declaração dos Direitos do Homem. “Foi nesses túneis que um dia descobri a Fernanda, mãe da minha filha, a pedir.” Já Spoke, o pai, aparece em Estórias, descrito como alguém que “dorme todos os dias da semana num cartão em Botafogo, onde guarda automóveis por um real”, regressando só no fim da semana à favela, para entregar à mulher o que juntou.
Na origem de tudo esteve outra figura fascinante: Wanyr, um carnavaleiro de vida dupla (católico devoto e gay), que Françoise conheceu em Lisboa, “na Sé, a cantar música gregoriana, como se fosse um anjo”. Foi Wanyr, de quem se tornou amiga, quem lhe apresentou o Rio, experiência registada em fragmentos de diário que preenchem – como se escritos com giz sobre ardósia – as superfícies negras de Os Anjos do Rio, O Sonho ou Da Minha Janela.
“Todos os meus trabalhos são cruzamentos entre a ideia de mapa, essa forma abstracta de organizar o mundo, e a realidade concreta das coisas”, diz Schein, arquitecta e urbanista de formação. No caso do Rio, em que os mapas enganam (ao inscrever zonas verdes, florestas e parques nos lugares onde de facto se acumulam as favelas, como se estas não existissem), a estratégia foi clara: ver a cidade como se ela fosse um fractal. “É preciso passar da vista aérea para a rua; depois, da rua para a casa; depois, da casa para a janela; depois, da janela para cada uma das pessoas. Se fizermos isto, acabamos por entrar dentro da cabeça dessas pessoas, onde estão as suas histórias e a memória das suas vidas.”
Após ter espalhado o texto integral da Declaração dos Direitos do Homem por diversas estações de metro europeias (a da Concorde, em Paris e a do Parque, em Lisboa; além de Bruxelas, Estocolmo, Berlim), Schein continua a procurar uma síntese entre a expressão estética e a intervenção social, em obras complexas que remetem, desde o início do seu percurso, para a proliferação em forma de “rizoma” – teorizada por Deleuze e Guattari. “Isto está tudo ligado e a minha obra procura esses nós, essas ligações que para muitos são invisíveis”, resume a artista.

[Publicado ontem na secção Artes do Diário de Notícias]

janeiro 13, 2007

ENTÃO ELA PERGUNTOU-LHE:

para onde foi o teu olhar?

HISTÓRIAS REAIS CONTADAS NO QUADRO ESTÓRIAS, DE FRANÇOISE SCHEIN

«Leny, 84 anos, filha de um espanhol e de uma alemã, vive no topo da favela, no meio de cães, galinhas, patos e rolas.
Chico Chorão vive debaixo de uma pedra da montanha, onde há muita humidade. O seu forno é feito de bidões de gasolina. É ali que ele estende a tábua que lhe serve de cama. Quando lhe perguntam onde é que ele encontra água, diz: “Ela cai do céu, é Deus que ma dá.”
Luisão é professor de musculação de dia e segurança de um grande hotel do Rio à noite. O seu olhar esvazia-se quando pensa na família, morta no ano anterior num deslizamento de terras no cimo da favela.
Manuel vive numa ilha em frente do bairro do Vidigal. Vende o seu peixe duas vezes por semana. Um dia encontrou um pombo-correio, do qual tratou dia e noite. Quando o pombo morreu, enterrou-o debaixo de pedras e guarda ainda a mensagem que ele tinha presa à pata, como se fosse um tesouro.
Spoke dorme todos os dias da semana num cartão em Botafogo. Guarda automóveis por um real, no fim da semana volta à favela para entregar o pouco lhe resta à mulher, Fernanda, que tem cinco filhos.»

Entre os cinco filhos de Fernanda está a menina que Françoise Schein adoptou.

EUROMILHÕES

Cabia aos deuses da fortuna sussurrar-lhe, ontem ao fim da tarde, as estrelas (3, 5) e os números (8, 11, 14, 19, 25) certos. Não sussurraram, os ingratos. E ele merecia.

RAÍZES AFRICANAS


Ninho (Françoise Schein)

Em cima, o tronco de um rapaz chamado Ninho, capoeirista do bairro do Vidigal (Rio de Janeiro). Em baixo, como se fosse a raiz do seu corpo, o mapa de África. Mapa onde Schein sobrepôs nomes de cidades americanas, fixando em palimpsesto a origem e destino dos escravos durante cinco séculos.

LINKS ARGENTINOS

A culpa é de Bioy Casares e do título do blogue, claro. Mas descobrir que há quem me linque na pátria de Borges (por exemplo, aqui e aqui) não deixa de ser consolador.

janeiro 12, 2007

OS BAIRROS INVISÍVEIS (RIO DE JANEIRO)

«Travelling enquanto o táxi atravessa a cidade. As favelas desfilam pelas janelas. Acumulações de barracas em tijolo vermelho, que se amontoam nos baldios da cidade formal. F. olha para o mapa mas só vê zonas verdes, florestas e parques, inscritos nos lugares onde se acumulam as favelas.»

Excerto de um diário de Françoise Schein, transcrito numa das suas obras mais recentes – a ver na Galeria Ratton até 18 de Fevereiro.

GRAVITAS

Um blogger de excepção avisa-me que tem um blogue clandestino. Posso visitá-lo, não posso divulgá-lo. Há nisto uma certa crueldade (ter acesso a coisas importantes e estar impedido de partilhá-las), mas uma crueldade que compreendo e respeito.

O PROBLEMA DOS COMENTÁRIOS (ONCE AGAIN)

Como é notório, o serviço de comentários deste blogue tem estado inacessível 99 vezes em cada 100 tentativas. Pelo facto voltamos a pedir desculpas, lembrando que o feedback pode ser enviado por e-mail para cartasmorel@gmail.com.

OUVIDO NO METRO

«Se soubesses o que custa fazer seja o que for, suicidavas-te.»

janeiro 11, 2007

POEMA DE VANESSA MUSCULINO

Um poema transparente

Se me colocar à frente do poema, a olhá-lo, vejo só o meu
reflexo.
Um leve brilho no cabelo.
Uma silhueta de ombro.
Dir-me-ão que isto é inevitável.
Mas eu circundo o poema.
Duas, três vezes, com paciência.
Vou andando e numa determinada posição deixo de me
ver.


Um poema que às vezes parece verde, mas só de certos
precisos ângulos, burilado nas pontas de três faces,
para não magoar.


Este poema custa, requer tempo e perícia.
Um poema que às vezes está e depois não está.


Este poema não diz nada, aliás, diz o que a gente quiser
que ele diga.


Às vezes diz:
Através.
Círculo.
Por entre.
Rectângulo e sólido.


Outras vezes:
Reflexo.
Quadrado.
Aparente.
Assimétrico e líquido.


Decido-me por pendurar o poema na parede esquerda da
casa de banho e torná-lo útil talvez como espelho,
quando precisar de me pintar.

[in Poesia Útil, incluída na antologia Jovens Escritores 2006, 101 Noites]

FRANÇOISE SCHEIN NA GALERIA RATTON


Glissement

Belíssima, a exposição de Françoise Schein que abre esta noite (22h00), na Galeria Ratton em Lisboa (R. da Academia das Ciências, 2A a 2C). Viagem pelo labirinto das favelas do Rio de Janeiro, cruzamento do diário da artista com os mapas, geográficos e afectivos, que se sobrepõem numa paisagem de morros, miséria e esquecimento.

PING PONG

Quer saber tudo sobre o ténis de mesa «nas suas múltiplas vertentes»? Então procure no blogue de «divulgação altruísta e exibicionismo vão de um praticante do INATEL que também é jornalista»: o impagável Luís Graça, aka Dick Hard, conceituado pornófilo e frequentador contumaz de eventos culturais na área da Grande Lisboa.

PEQUENO CONTO DIGITAL

Na escola, pediram ao Joãozinho para desenhar uma casa. E ele desenhou. Tinha Windows com excelente Vista, portas USB e no topo, em vez de telhado, um funcional heliporto onde o sr. Steve Jobs aterra todas as manhãs com a ideia fixa de inventar coisas bonitas e úteis para a Humanidade, coisas assim como o iPhone.

janeiro 10, 2007

EXPECTATIVA

jp.jpg

O primeiro projecto a solo de J. P. Simões, depois das magníficas aventuras dos Belle Chase Hotel e do Quinteto Tati, vai ser posto à venda dia 15. É um «luso-samba», disse ele em conversa com João Lisboa, «coisa muito artesanal, sem máquinas, com coros naturalistas como nos anos 70» e «construções muito Chico Buarque, Tom Jobim...», mais uma cover daquela que é talvez a mais extraordinária canção de José Mário Branco (Inquietação).
Promete, não promete?

CADERNO I

O esquivo companheiro Vasco, mestre da dispersão, também anda por aqui.

POST À LA PEDRO MEXIA

Estava tão em baixo, tão em baixo, mas tão em baixo que até os blogues lhe davam tampa.

O REGRESSO DOS PROBLEMAS

Foi isto a tarde inteira.

janeiro 09, 2007

POST ALHEIO

– Já foste ver o Babel?
– Qual Babel?
– O Babel.
– Qual Babel?
– O Babel.
– Ah! Qual Babel?

[Francisco Frazão]

COISAS QUE SE ENCONTRAM NO YOUTUBE

Os canadianos Arcade Fire, tocando a canção Tunnels «somewhere in France».

UM POEMA DE RUI PIRES CABRAL

Descer a rua numa noite de Agosto
e por momentos nada ouvir senão
uma voz na cabeça que faz e repete
o poema mais desnecessário;


ver por toda a parte os sinais
perdidos e as cicatrizes dum fortuito
trânsito: alguém insiste em abrir
ao perigo a porta do número 133,
enquanto os rapazes do café vizinho
fumam sob o toldo à hora do fecho
e invadem o verso com uma frase
avulsa: coitado,
morreu-lhe a filha;


tomar à esquina o táxi onde espera
um homem sem rosto, seguir
essa estrada – para um recomeço
ou uma despedida? – e entender
de súbito que tudo é por acaso,
não ter a ilusão doutra certeza.

[in Capitais da Solidão, Edições Teatro de Vila Real, 2006]

TRENTO NA LÍNGUA

Um blogue com um título genial em que escrevem católicos e protestantes, filhos da Reforma e da Contra-Reforma mas sem espadas ou fogueiras pelo meio, onde se polemiza sobre a morte de Saddam e as ideias de Slavoj Žižek. Pode lá haver coisa mais ecuménica do que isto?

janeiro 08, 2007

YOUTUBE.PT

Será que um dia destes faço um post com o título COISAS QUE SE ENCONTRAM NO VÍDEOS SAPO?

A ESCOLHA DE ALBERTO PIMENTA

«É a melhor obra de ficção do ano. O resto é uma porcaria.»

[Cf. o excelente perfil do autor de Discurso sobre o filho-da-puta, publicado no último número da revista NS' (Diário de Notícias) por Torcato Sepúlveda]

MADRUGADA

Só quando sentiu a cacimba é que se apercebeu: o nevoeiro não estava dentro da sua cabeça.

janeiro 07, 2007

DUAS LAGARTIXAS

Totémico

Um animal totémico,
a lagartixa, pois:


desenha círculos à minha volta,
move-se sem significação.


A não ser que me escape
a música, o seu desígnio simples.


A não ser que me escape
o invisível,


a expressão fusiforme
das improvisações sem centro,


serenidade térmica
com que me alheio


dos retratos esquálidos
e porém rigorosos.

[Luís Quintais, in Canto Onde, Cotovia, 2006]



LAGARTIXA

Corro colada ao chão
um discurso sem pernas
e em busca do calor
ligo o solo e o sol.


Depois de morta mexo.
Mas sei que logo após
a ponta do meu corpo
também se queda morta.


Ergo a cabeça azul
ao azul e ao brilho
e rojo pelo pó
o pó que vou andando.


No frio do meu sangue
tenho a premonição
do lixo que na terra
em terra se fará.


Meneio, pois: meneio
qual se tivesse rins.
Mas de nada me escapo,
nem mesmo do buraco.

[Pedro Tamen, Analogia e Dedos, Oceanos, 2006]

O PROBLEMA DAS AGENDAS (3)

Um dia, vão pensar que vivi muito em Janeiro e Fevereiro, mas que hibernei sempre a partir de Março ou Abril.

O PROBLEMA DAS AGENDAS (2)

Não sou eu que estou contra o calendário. É a minha indisciplina.

O PROBLEMA DAS AGENDAS

Aqueles intimidantes 365 novos dias para preencher, quando a maioria dos 365 anteriores ficaram vazios.

O MAIS ORIGINAL ÍCONE DA CAMPANHA PELO 'SIM' NO REFERENDO PARA A DESPENALIZAÇÃO DA IVG

É a versão HerbaLife do Pedro Vieira:

Vou já colocá-lo na coluna da direita, até 11 de Fevereiro. Dia da vitória, espero.

janeiro 06, 2007

IPSIS VERBIS

Sobre o enforcamento de Saddam, escreve hoje João Miguel Tavares, no DN, o seguinte:

«Nada fez mais pela humanização de Saddam Hussein do que o seu enforcamento. A morte do ditador iraquiano, e as imagens repugnantes captadas por telemóvel, são uma vergonha para os Estados Unidos e para todos os países ocidentais que, de uma forma ou de outra, se envolveram no conflito. Ao ver aquelas imagens eu tive pena de Saddam – e esse é um sentimento que nunca perdoarei a George W. Bush. Dizer que o seu enforcamento – aquele enforcamento – é um passo no caminho para a democracia, como fez o Presidente dos Estados Unidos, é uma infâmia. À barbaridade da pena de morte juntou-se o achincalhamento de um homem derrotado. Nenhum país digno desse nome se pode congratular com aquele espectáculo miserável.»

Eu assino por baixo.

GRANDES BLOGGERS QUE NUNCA TIVERAM PASSWORD

Sócrates (470 a. C. - 399 a. C)

PS- Como é evidente, os posts deste blogger nunca seriam escritos, mas sim ouvidos em podcast.

RE:

Caríssimo Tiago Galvão: certo amigo esquerdista que está mesmo aqui ao lado diz que tu és um «direitoso pós-laboral» e um «fascistóide do camandro». Os insultos são fraquitos, eu sei, mas foi o melhor que se pôde arranjar.

janeiro 05, 2007

MOREL E A GLOBALIZAÇÃO

Recent visitors by location: Alcochete, Enschede (Holanda), Poiares, Maranhão (Brasil), São Domingos de Rana, Huddersfield (Reino Unido), Lisboa, Saragoça (Espanha), Portimão, Nova Iorque (EUA), Carcavelos, Amsterdão (Holanda), Porto, Brasília (Brasil).

BLOGUES IMAGINÁRIOS #15

Título: Os Ids de Março

Descritivo: O império do dr. Freud é maior que o de Júlio César

Imagem do cabeçalho:

AND YET SPEND ALL OUR LIFE ON IMPRECISIONS

Recordo melancólico os dias em que esta rapariga era mais do que uma citação de Larkin.

janeiro 04, 2007

COISAS QUE SE ENCONTRAM NO YOUTUBE

Mais gavetas, uma delas com propriedades mágicas.

UM POEMA DE PEDRO MEXIA QUE FAZ RACCORD COM O POST ANTERIOR

As gavetas

Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.


[in Duplo Império, edição de autor, 1999]

610 GAVETAS

Não há nada mais íntimo do que uma gaveta. As gavetas são lugares onde as nossas coisas ficam ao abrigo da curiosidade alheia. Redutos contra o pó e a cobiça. É lá que guardamos cartas, papéis, peças de roupa, memórias, coisas sem préstimo, segredos. E por isso muitas delas se trancam com fechos, chaves, mecanismos de protecção. Nada que resista, porém, à fúria do tempo ou dos elementos.
Durante os dois meses que se seguiram à passagem catastrófica do furacão Katrina, Jana Napoli, uma artista de Nova Orleães, calcorreou todas as manhãs os bairros mais atingidos, recolhendo gavetas no meio do caos de detritos e lixo, numerando-as e anotando, na parte de trás, o local exacto em que foram encontradas. As mais de 600 gavetas vazias que reuniu, de direntes tipos e formas, correspondendo a um arco temporal de três séculos, estão agora expostas em Nova Iorque, numa ponte pedestre de Lower Manhattan. Alinhadas de modo a simularem um dique, compõem a instalação Floodwall e funcionam como registo daquilo a que a autora chamou «a view of intimacy and loss».





Fotografias de Fred R. Conrad (New York Times)

Mais imagens e informações no site oficial do projecto.

ANTI-MATÉRIA

Do outro lado da rua, N. viu um homem exactamente igual à sua imagem no espelho. Não apenas parecido, mas igual em todos os detalhes. Os mesmos gestos, os mesmos traços fisionómicos, a mesma roupa, a mesma sombra, a mesma estrutura óssea. Única diferença: o doppelganger tem os olhos fechados. Quando os abre, N. apercebe-se de que são completamente brancos, sem pupilas, sem íris. O outro é cego, o outro não o vê – pensa N., cedo demais. Porque o duplo atravessa a rua de repente, num salto brusco, direito a ele, rapidíssimo, o rosto desfigurado pela vertigem da destruição.

janeiro 03, 2007

MAIS UMA FOTOGRAFIA DE ROSEMARY LAING

Flight research #5 (1999)

UMA ÓPERA DANTESCA

Monsenhor Marco Frisina, um compositor que se move nos corredores da Santa Sé, está a preparar uma ópera inspirada na Divina Comédia, de Dante, com estreia prevista para 2007, tudo indica que no Vaticano. A história, deliciosa, pode ser lida aqui. O aspecto mais curioso (e previsível) do projecto tem a ver com o tipo de música escolhida por Frisina para cada uma das três partes em que se divide a obra-prima literária da Renascença italiana. A saber: para o Paraíso, harmonias clássicas; para o Purgatório, canto gregoriano; enquanto para os círculos do Inferno fica reservada a música rock, punk e techno (como se os mafarricos vivessem numa rave perpétua). Tendo em conta o que afirmou quando ainda respondia como cardeal Ratzinger, o papa Bento XVI vai vibrar, aplaudir de pé e gritar Bravo!, se acaso ninguém lhe explicar que o espectáculo se apresenta como ópera, género a que também torceu o nariz na qualidade de Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, acusando-a mesmo de ter «corroído o sagrado» durante o século XIX.

LIGAÇÃO DIRECTA (2)

No novo blogue do maradona, onde este evidencia uma arte da sinopse em quatro linhas que ombreia com a de certo professor universitário neo-zelandês chamado Denis Dutton, encontrei este interessante artigo em que se fala da relutância de Charles Darwin em publicar a sua teoria da evolução das espécies (relutância que se esfumou mal sentiu a ameaça de Alfred Russel Wallace, um investigador muito mais novo que intuiu os fundamentos da selecção natural).

UM POEMA (OU FRAGMENTO DE POEMA, NÃO SEI BEM, FIQUEI NA DÚVIDA) DE PAULO DA COSTA DOMINGOS

Na imperfeita aresta do edifício
encontrei, no seu pilar de silêncio,
um fóssil, que me intriga. Unhas,
ou ausência delas, no cimento
agónico do deslize. Queda estelar
de Ícaro, ou apenas do andaime?
Mas tudo distrai-me, o colarinho
aperta, nos vasos o cheiro a terra.
Depois, há frases incompletas
para pensamentos nem por isso
menos penetrantes, um vestido
que perde volume junto aos pés,
«pedra que se abriu em trans-
parências e transfigurações, como
se quisesse ser no espaço a morada
suspensa dos espíritos». Suave
curva cardíaca das colinas lisboetas.

[in Nas Alturas, frenesi, 2006]

UM CASAL NA PENUMBRA

[Bernardo Sassetti e Beatriz Batarda, fotografados por Joana Linda, no Teatro S. Luiz, a 23 de Dezembro de 2006]

APOLOGIA DAS ESCADAS

Em Inglaterra, os arquitectos começam a pensar em edifícios que sejam saudáveis, para além de inteligentes. Os elevadores que se cuidem.

LIGAÇÃO DIRECTA

No momento em que escrevo este post, verifico uma espécie de milagre: o amador transformou-se na coisa amada. Faz sentido. Depois do niilismo (ou a arte de apagar o seu próprio blogue), o maradona experimenta os encantos da metamorfose e da transubstanciação.

AVES ATINGIDAS EM PLENO VOO

[Fotografia assombrosa de Rosemary Laing, roubada ao blogue do valter hugo mãe]

ESBOÇO DE POEMA ESCRITO LITERALMENTE EM CIMA DO JOELHO (ENTRE OS ANJOS E A BAIXA-CHIADO)

Se não puderes fazer mais nada,
inventa no horizonte o fim da estrada.
Desenha a modorra no asfalto e pisa-a.
Inverte o ciclo da água, fecha as tempestades
no sótão, abandona o fogo no deserto.
Ignora as cidades alheias à primavera,
mais as suas longas cadeias humanas
e a repetição automática dos gestos.
Aqui onde estás, evapora-te. Lavra
a terra onde semearás o desalento.
Cospe as palavras que te puseram
na boca, per secula seculorum.
E se não puderes fazer mais nada,
corta os pulsos à madrugada.

INVEJA

Agora, a C. e o Rui Manuel Amaral, como se não lhes bastasse terem um blogue perfeito, ainda se dão ao luxo de contar, parfois, com a colaboração de JLG. O próprio. Em palavras, imagens, ideias & etc. Os sacanas.

janeiro 02, 2007

O ESBOÇAR DALGUMA FLOR NEGRA ACORDANDO

Da revista Telhados de Vidro, «publicação não periódica» de literatura que cumpre à risca a sua periodicidade (sai quando calha, sempre com a chancela Averno), chegou-me agora o n.º 7. Capa elegante, a partir de uma «sombra projectada» de Lourdes Castro. Conteúdo superlativo, a merecer análise mais detalhada num post futuro. Assim de repente, quero apenas salientar três regressos de escritoras mais ou menos arredias: Teresa Veiga (ficção), Fátima Maldonado e Ana Paula Inácio (poesia). Mas também temos Marcial traduzido por Alberto Pimenta sem filtros moralistas e João Miguel Fernandes Jorge em dose dupla. Um festim.
Para já, deixo-vos apenas um excerto do editorial (chamemos-lhe assim), roubado a Carlos de Oliveira:

«(...) adensam-se os elementos, os vendavais, a aspereza do ferro, do cálcio, da lava, a fereza biológica dum fundo que não tem outro destino senão explodir.
Estou a sentir na sombra: um rumor de larvas e sementes, o amor de que sou capaz pela vida e pelos outros; o esboçar dalguma flor negra acordando, um ritmo de versos; caprichos de botânica ou desvios da alma; o vento da harmonia submerso entre caules sanguíneos e rugosos; a breve tempestade das conchas e dos peixes, a grande solidariedade que vos devo.
O que me espanta é a aceitação de cada dia. E desta angústia vou tecendo as palavras, desta água salgada e doce como as lágrimas e o sangue. Tecendo escuramente as palavras.»

Eis uma arte poética à medida do novo ano que começa.

INSULTOS

Se bem se recordam, há uns meses certo comentador anónimo viu no Invenção de Morel um exemplo de "neo-realismo trotskista". Agora, outro anónimo (ou será o mesmo?) apelida-me de "esquizo-esquerdóide" e "gongórico marçano". Estou obviamente orgulhoso. Que seríamos nós sem os nossos diligentes inimigos?

GRANDES BLOGGERS QUE NUNCA TIVERAM PASSWORD

Fernão Lopes (circa 1380 - circa 1460)

LARGO DA GRAÇA

As árvores, as pessoas, os eléctricos, a banca dos jornais, o pedinte sentado junto à porta da agência bancária, os pombos, o brilho do rio ao longe, as furgonetas em segunda fila, o barulho das conversas no café, a alegria de uma criança a caminho da creche.
Tudo na mesma.

janeiro 01, 2007

EFEMÉRIDE

Sete anos de pastor servia Jacob, segundo Camões. Eu servi apenas quatro, mas de blogger (que é outra forma de pastorícia). No momento em que começo de servir outros quatro anos – apesar de curta a vida para tão longo amor – lembro aqui o entusiasmo puro daquele primeiro dia.

CARREIRA DA ÍNDIA

Além de ter alterado o domicílio do seu blogue de referência (Memória Virtual), o incansável Leonel Vicente, pioneiro dos tempos heróicos da blogosfera lusa, back in 2003, lançou-se agora numa gesta digna de panegíricos camonianos: a escrita diária do Carreira da Índia, integralmente dedicado à literatura de viagens no tempo dos Descobrimentos, com excertos de textos sobre aquela "epopeia", «escritos, na generalidade, por "testemunhas oculares", procurando também fazer o enquadramento e referenciar os protagonistas da História».
Bons ventos o empurrem, Leonel.

COISAS QUE SE ENCONTRAM NO YOUTUBE

Os primeiros fogos de artifício do ano: euforia luminosa e pixelizada.