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AUTOBIOGRAFIA DE UM PIRATA

Long John Silver, de Björn Larsson, tradução de Liliete Martins, Cavalo de Ferro, 392 páginas.

Na espantosa galeria de personagens que o escritor escocês Robert Louis Stevenson reuniu em A Ilha do Tesouro (1883), há uma que se destaca no imaginário popular: Long John Silver, também conhecido como Barbecue, cozinheiro do navio Hispaniola, que logo se transformou numa espécie de arquétipo do pirata setecentista. Sinistro, violento e moralmente ambíguo, capaz das maiores crueldades e das maiores astúcias, Silver – perna a menos e papagaio pousado no ombro, a gritar impropérios – aterroriza tudo e todos. A voz cavernosa põe em sentido quer o grumete Jim Hawkins, narrador da história, quer o despótico capitão Flint. Mais do que das armas mortais, vulgares a bordo, ele vale-se do medo que tanto a tripulação como os amotinados lhe têm. Mas nem isso chega para se apropriar do tesouro tão cobiçado. Quando os seus estratagemas falham, deixando atrás de si alguns mortos pelo caminho, desaparece subitamente com o magro pecúlio a que ainda consegue deitar mão, para nunca mais ser visto. No fim do romance de Stevenson, Hawkins imagina-o a viver “uma vida tranquila e regalada”, com uma amante negra, o papagaio e a certeza de acabar no Inferno.
Long John Silver, o notável romance de Björn Larsson que a Cavalo de Ferro acaba de disponibilizar em português (numa tradução magnífica de Liliete Martins), parte precisamente da incógnita deixada pelo final de A Ilha do Tesouro: o que aconteceu a Long John Silver? Vive realmente no tal exílio dourado em ilha remota? Arrependeu-se dos seus crimes? A resposta a estas perguntas é: aconteceu-lhe tudo; sim, vive de facto na abundância, lá muito longe (Madagáscar); e não, não se arrependeu de nada.
Sentindo aproximar-se o fim da vida, Silver decide escrever uma autobiografia, a sua versão dos factos, tão completa e minuciosa quanto caótica. E fá-lo não para desmentir a fama de sanguinário que lhe atribuem, mas antes para mostrar que atrás do suposto monstro se esconde um ser humano, alguém que conquistou a liberdade total – mesmo pagando o respectivo preço: uma fuga permanente, com a ameaça da forca a pairar sobre a sua deriva.
Após uma descrição bastante gráfica do episódio em que perdeu a perna e ganhou a alcunha (Barbecue), Silver vai narrando, numa ordem mais ou menos cronológica, o seu percurso de marinheiro que nunca quis ser mais do que contramestre, respeitando um conselho ouvido numa taberna de Glasgow, aos 15 anos, ainda antes de se fazer ao mar e aos seus sortilégios: o vento soprando nas velas, naufrágios, motins, contrabandos (entre a Irlanda e a Bretanha), tormentos no porão de um navio negreiro, abordagens, massacres, bebedeiras, ziguezagues entre as ilhotas das Índias Ocidentais (com o pavilhão vermelho içado em sinal de ataque), amores por uma escrava insubmissa, ilusões de grandeza e sinais de um destino que só podia ser funesto.
Entre estes episódios picarescos, com os acontecimentos a sucederem-se a um ritmo vertiginoso, surgem capítulos mais curtos, de pendor reflexivo e quase meta-literário, em que Larsson consegue explorar algumas ideias que dão outra espessura ao seu romance. É o caso do encontro entre Silver (a personagem) e Daniel Defoe (o escritor), em Londres. Sob o pseudónimo de Capitão Johnson, o autor de Robinson Crusoe está a escrever uma História Geral dos Piratas [editada em 2005 pela Cavalo de Ferro] e recolhe o depoimento circunstancial de Silver, que privou de muito perto com os grandes “cavaleiros da Fortuna”. A contrapartida é simples: não ser incluído na obra. O que explica, no interior da lógica ficcional do romance, o porquê da sua imaterialidade histórica e do estatuto meramente lendário.
Larsson volta a revelar inteligência e subtileza quando introduz na narrativa, sob a forma de um livro escrito por Jim Hawkins (a que Silver tem acesso), o relato original de A Ilha do Tesouro, não chegando a repetir, nem sequer de forma resumida, os factos que constam da obra de Stevenson. Ou seja, a sombra da história original está lá, implícita, irradiante. Mas o escritor soube superá-la, criando uma história autónoma, muitíssimo bem escrita e original.

[Publicado no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]

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HI, YOU ARE REALLY DUST.

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