O PROBLEMA DA TERCEIRA IDADE

Diário da Guerra aos Porcos, de Adolfo Bioy Casares, Cavalo de Ferro, 236 págs.
Em A Invenção de Morel (1940), obra-prima da literatura fantástica do século XX, Adolfo Bioy Casares conseguiu o prodígio de sobrepor no mesmo espaço físico – uma ilha – dois tempos distintos: o presente do náufrago narrador e o passado que certo mecanismo, fruto do génio de um cientista louco, preserva e faz coincidir, em melancólicos loops, com a realidade.
Essa coincidência de tempos antagónicos volta a ser central em Diário da Guerra aos Porcos, um romance que Casares publicou em 1969, no auge das suas capacidades criativas. Em vez de uma ilha deserta, perdida nos Mares do Sul, temos Buenos Aires: as suas ruas, as suas praças, a sua aura decadente. E mais uma cisão fortíssima entre o presente (representado pelos Jovens Turcos, rapazes musculados que Farrell, um demagogo fascistóide, empurra para uma espécie de limpeza étnica) e o passado que se materializa na população idosa, nos velhos que de repente são vistos como um estorvo, uma ameaça e um alvo a abater.
Sob a forma de um diário escrito na terceira pessoa, em que todos os movimentos das personagens são anotados com a minúcia de um escrivão, Casares narra a misteriosa e absurda “guerra aos porcos”. Porcos (ou corujas) é a designação que os jovens da cidade encontraram para humilhar esses homens carecas ou mulheres enrugadas, frágeis, lentos, ociosos, que lhes provocam um asco e uma animosidade rapidamente exteriorizados em surtos de violência mortal. De forma aleatória, pela calada da noite, em grupo, vão fazendo as suas vítimas. Espancam, matam, espalham o pânico. E aceleram o fim da vida humana que a natureza (ou a ciência) vinham prolongando.
Para escaparem ao martírio, os velhos têm que engendrar estratégias típicas da vida em clandestinidade. E não só os velhos stricto sensu, a cair da tripeça. Também os que estão quase lá, os que estão na fronteira, os que até pintam o cabelo e se queixam do lumbago, mas ainda se sentem longe da decrepitude física ou psicológica. Homens como Isidoro Vidal, o protagonista da história, e o seu grupo de amigos: Néstor, Jimi, Dante, Rey, Arévalo, argentinos de boa cepa, cada um com as suas idiossincrasias, obsessões e defeitos, um círculo que se reúne todas as noites num café da praça Las Heras, para jogar truco e beber fernet.
Mais do que sobre a cidade meio abstracta, com as suas fachadas lúgubres e fogueiras acesas na noite demasiado negra, é sobre este grupo que Casares concentra a sua atenção. A inexplicável guerra, cujas verdadeiras motivações nunca chegamos a compreender, é sempre vista através do impacto que produz neste núcleo aparentemente unido, mas à mercê dos terríveis danos que a incerteza e o medo produzem. Não faltam, diga-se, muitos outros personagens secundários bem desenhados, sobretudo na labiríntica casa em que Vidal habita, num apartamento minúsculo partilhado com o filho arredio, e em que acabará por descobrir a paixão absoluta, tão tardia quanto exaltante.
Como sempre nos livros de Bioy Casares, a construção narrativa é de uma solidez à prova de bala. Nada falha na articulação dos vários planos narrativos, no brilhantismo discreto do estilo, na fluidez dos diálogos ou na alternância entre a acção propriamente dita e a subtil descrição do estado anímico das personagens.
Escusado será dizer que a guerra acaba devido à sua própria contradição interna, porque os jovens irados de hoje transformar-se-ão, com o tempo, nas suas vítimas. E talvez por isso o romance culmina numa inesperada atmosfera de happy end, com o progressivo regresso à normalidade e o triunfo do amor.
A tradução, da dupla Sofia Castro Rodrigues/Virgílio Tenreiro Viseu, recomenda-se.
[Publicado no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]
Comments
...inteligentemente bem pensado e escrito, este comment!
Posted by: manuel cardoso | agosto 12, 2008 08:32 AM