ERRATA
Já não me lembro exactamente quando escrevi este poema. Sei apenas qual foi a origem remota destes versos: a manhã em que coloquei a tocar no meu quarto, pela primeira vez, em meados da década de 90, o CD verde da EMI Références. Lembro-me do arrepio na espinha. Lembro-me do rosto do meu irmão, comovido com tanta beleza. Lembro-me da forma como nos olhámos, enquanto o oboé se ia enrolando e desenrolando, enchendo o quarto e saindo pela janela aberta, perdendo-se entre os ramos abertos do limoeiro no quintal das traseiras. A cantata de Bach passou a ser uma espécie de segredo nosso, um pacto de sangue musical.
Por muito que me esforce, não consigo mesmo recordar-me das circunstâncias em que escrevi o poema. Mas sei que surgiu de um jacto. Talvez por isso, nunca aferi com a devida atenção o seu rigor, já não digo musicológico, mas literário. Baixada a guarda, uma imprecisão grosseira veio infiltrar-se no texto. Explico-me: talvez pelo tom melancólico da cantata, pela sua tristeza e resignação, associei-a sempre à genealogia dos Lamentos de Jeremías, inspiradora de algumas das mais belas páginas da música barroca europeia. Daí a referência ao Velho Testamento nos dois últimos versos.
Acontece que as ligações de 'Ich Habe Genug' ao Velho Testamento são mais do que débeis. A cantata foi escrita por Johann Sebastian Bach, em Leipzig, especificamente para o ofício de Purificação da Abençoada Virgem Maria, e ouvida pela primeira vez a 2 de Fevereiro de 1727, na versão em que a parte vocal cabe a um baixo (há também uma versão para soprano, com o oboé a ser substituído por uma flauta). O texto é de um anónimo coevo, vagamente inspirado numa passagem do evangelho de Lucas (2: 22-32) em que se narram as profecias de Simeão sobre Cristo, ecoando as de Malaquias sobre a vinda do Messias. É certo que há por ali, na prosa quase banal em que se deseja a morte para estar mais perto de Deus, uma ténue sombra do último dos profetas menores do Antigo Testamento. Mas os versos finais do poema continuam, ainda assim, a parecer-me exagerados.
Faço por isso a emenda tardia que a minha negligência não soube precaver, com mais um ou outro ajuste. E a partir de agora o poema goes like this:
«ich habe genug» (bwv 82)
Para o Manel
Não é uma questão de lógica.
O milagre está muito para além
da pauta, a lenta melodia do oboé
desenhando uma arquitectura aérea.
Agora vejo a poeira suspensa na luz,
o apogeu do outono numa cidade
que se recusou a ser minha, as
armas serenas da tristeza. A voz
de Hans Hotter – tão escura, tão
funda, tão resignada – traz-me
ainda uma capitulação feliz.
Comments
Um poema é para mudar sempre que nos regresse.
Posted by: jcb | novembro 9, 2006 11:52 PM