A CIDADE-PALIMPSESTO

O título deste romance multiforme e afiado como uma navalha mortal, foi Luiz Ruffato buscá-lo a um verso de Cecília Meireles que abre a única epígrafe do livro: “Eles eram muitos cavalos, / mas ninguém mais sabe os seus nomes, / sua pelagem, sua origem...” Diga-se desde já que é certeira esta ideia do abandono e do anonimato, peste do nosso tempo de que padecem quase todas as personagens que surgem por momentos neste livro, para logo desaparecerem, engolidas por outra história que se chega à frente, que se sobrepõe, por outros cavalos sem nome e sem origem, à desfilada no caos urbano da maior cidade brasileira (São Paulo, 11 milhões de habitantes). Mas a epígrafe escolhida podia muito bem ser outra. Por exemplo, a célebre lamentação de Baudelaire – “La forme d’une ville change plus vite, hélas, que le coeur des humains” (“A forma de uma cidade muda mais depressa, infelizmente, do que o coração dos humanos”). Porque é isso que se vê acontecer neste livro belo, complexo, terrível: uma cidade em metamorfose permanente, uma cidade que se agiganta e devora os seus filhos, uma cidade monstruosa que se expande quase à velocidade da luz, velocidade a que os paulistanos (pequenos Jonas no interior da baleia) não resistem. Não podem resistir.
No princípio, há uma data: 9 de Maio de 2000, terça-feira. Um dia normal, semelhante a muitos outros. Nenhuma catástrofe, nenhuma cerimónia pública de relevo, nada que mereça mais do que umas quantas linhas no Folha de São Paulo ou no Estadão da manhã seguinte. Luiz Ruffato tem diante de si a megalópole imensa e, dentro dela, um manancial infinito de histórias. Depois, é só começar a puxar esses fios narrativos, um a um, como quem cola os cacos de uma jarra estilhaçada, sabendo que o objecto inicial é irrecuperável.

Ao longo dos setenta breves capítulos que compõem este romance assumidamente pós-moderno (com as suas abruptas variações de registo literário e a sua fúria de experimentação formal), não chega a existir aquela entidade a que habitualmente chamamos narrador. O narrador, por muito discreto ou inábil que seja, conduz-nos enquanto leitores através de uma narrativa. Mas em Eles eram muitos cavalos não há narrador nem narrativa, apenas um continuum de histórias paralelas, sem ordem ou hierarquia.
Aviso aos incautos: este livro é um labirinto. E um tour de force. E um jogo de espelhos. E um caleidoscópio partido. E um trompe l’oeil. Pode entrar-se nele no início, a meio ou no fim. É indiferente. O resultado será sempre o mesmo porque deste inferno não há saída. O romance imita a cidade: é megalómano, triturador, ávido, gargantuesco. É um buraco negro que devora a paisagem, cada vez mais depressa. Um palimpsesto interminável.
Ruffato desdobra com engenho e precisão a sua escrita visual, escolhendo dezenas de ângulos diferentes: a escrita ora contida ora torrencial, registos meteorológicos, hagiologias, anúncios de jornal, soberbas invenções vocabulares (como o advérbio “busterkeatonianamente”), preces a Santo Expedito, quase poemas, cartas, diálogos, prosas cuidadas, prosas esfareladas, estantes de biblioteca, ementas, horóscopos, cenas cinematográficas (às vezes em traveling, outras em slow motion), elipses, divagações, alicerces à mostra, poeira no ar.
E depois, as pessoas. Essas personagens que apanhamos a vol d’ oiseau, quase sempre no momento do desespero e da perdição, quase sempre no instante em que o último fio que as prendia a qualquer coisa de sólido se parte de vez. São pobres enganando a miséria ou as balas (até ao dia em que o sangue jorra), mas também os ricos que se fecham em condomínios, Mercedes blindados e helicópteros; as crianças sem futuro; os revolucionários exaustos, órfãos da revolução que nunca se fez.
Ruffato cruza esta gente toda no seu mosaico mas não une as pontas, não faz desta matéria narrativa um fresco histórico, uma afirmação política ou uma tese sociológica. Eles eram muitos cavalos é um choque frontal com a verdade – incómoda, fragmentária, incompleta – da cidade de São Paulo no estertor do séc. XX. Saímos do livro mais desamparados do que entrámos? Sim. Mas é também para isso que serve a literatura. A grande literatura.
[Texto publicado na edição de ontem do suplemento 6.ª, do Diário de Notícias]
Comments
Um artigo tão bem escrito como este (e como tantos outros), não me espantaria nada, que o leve a despertar atenção de quem ainda não conhece o livro de Ruffato.
Posted by: Lídia | abril 1, 2006 08:54 PM
Confesso que fiquei em pulgas para o ler :)
Posted by: busy | abril 3, 2006 12:44 AM
Sampa, o Avesso do Avesso... :)
Posted by: Filipe Moura | abril 4, 2006 07:25 PM