BICICLETAS DE NÉON

Berlim, Fevereiro de 2006
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Berlim, Fevereiro de 2006
Esboço do esboço é um risco.
Os bons diseurs não recitam, não solenizam, não gritam.
Os bons diseurs dizem. Só isso: mecânica de lábios, glote, cordas vocais, língua, dentes, a boca toda.
Os bons diseurs atiram-nos os poemas à cara. Só isso: palavras pelo ar, certeza na pontaria.
Os bons diseurs são o diabo. Só eles conseguem transformar maus poemas em poemas razoáveis e poemas razoáveis em poemas empolgantes, assim como quem não quer a coisa.
Poesia portuguesa contemporânea em debate, hoje à tarde (18h30), no Jardim de Inverno do São Luiz. Participantes: Pedro Mexia, António Guerreiro, este que se assina. Modera a conversa Nuno Artur Silva. Poemas lidos por Diogo Dória.

Berlim, Fevereiro de 2006
No filme Capote, de Bennett Miller, o escritor afectado, brilhante e sacaninha (que Philip Seymour Hoffman encarna em versão "fotocópia-sem-problemas-de-toner") vangloria-se várias vezes de conseguir reproduzir, sem falhas, 94% do que lê ou ouve. Pelo contrário, eu, como o comum dos mortais, não retenho mais do que uns míseros 49%. E nesta diferença está toda a diferença. Mesmo para depoimentos anódinos sobre a importância da chuva na actividade literária de um ficcionista, eu tenho de recorrer a notas manuscritas (falíveis) ou a cassetes áudio (penosas). Enquanto isso, ele, o Truman afectado, brilhante e sacaninha, escreveu In Cold Blood.
Morreu a Periférica, ficam os canhões do Rui Ângelo Araújo. Abençoados.

Berlim, Fevereiro de 2006
Amanhã, pelas 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz, o “É a Cultura, Estúpido!” vai discutir O Futuro da Política.
Estarão presentes na mesa os historiadores Luciano Amaral e Medeiros Ferreira. A conversa será moderada por Daniel Oliveira e Pedro Mexia desempenhará a função de "agente provocador".

À procura de Billy the Kid
em nova cópia de Peckinpah
A edição especial inédita de um western de Sam Peckinpah que os executivos da MGM “assassinaram” em 1972, restaurada digitalmente e remontada de forma a respeitar as ideias do cineasta (director’s cut), foi o filme escolhido para fechar a selecção oficial do Festival de Berlim, no sábado, poucas horas antes do surpreendente anúncio dos grandes vencedores da 56.ª Berlinale.
Pat Garrett & Billy the Kid decorre em 1881, perto da fronteira com o México, numa altura em que os grandes proprietários de terras e de gado começavam a impor a sua força, limitando a liberdade que os pistoleiros fora-da-lei tinham como adquirida. Antigos companheiros, Pat Garrett (James Coburn) e William H. Bonney (Kris Kristofferson), mais conhecido como Billy the Kid, estão agora em campos opostos. Garrett foi promovido a xerife e a sua primeira missão é afastar Billy dos territórios de Chisum, o latifundiário com quem mantém relações privilegiadas. Depois de um primeiro aviso, Billy é preso mas consegue fugir. O resto do filme é a história da perseguição de Garrett a Kid, até ao duelo final no Forte Sumner.
Numa narrativa muito dispersa, em que se explora a dimensão humana das personagens de forma raramente vista nos westerns (além de beber whisky e jogar póquer, estes homens também comem e fazem sexo), o foco de Peckinpah está sempre na relação ambígua entre os dois amigos que se tornaram inimigos quase por acaso. Na verdade, ambos já estiveram no lugar do outro, ambos conhecem o adversário tão bem como se conhecem a si mesmos, pelo que há neles uma simetria inquebrável (espantosamente recriada na sequência de abertura). Também por isso, matar Billy acaba sendo, para Garrett, uma espécie de suicídio – simbolizado no facto de o xerife disparar contra a sua imagem num espelho, logo depois de atingir Kid com a bala fatal.
Com 117 minutos em vez dos 90 a que os responsáveis da MGM o reduziram, na ânsia de o rentabilizar, este Pat Garrett & Billy the Kid continua a ser desequilibrado, excessivo, belo e melancólico. Uma melancolia que as canções de Bob Dylan (também responsável por um dos papéis secundários) acentuam com a sua imensa carga de lirismo desesperado.
Outras fitas
Perante tanta oferta (345 filmes), quem visita a Berlinale sente-se forçosamente perdido. Solução: deixar os planos de lado, seguir o instinto e confiar no acaso. Das poucas vezes em que tive tempo para me aventurar fora da absorvente selecção oficial, foi isso mesmo que fiz.
No Forum, por exemplo, descobri um curioso documentário do inglês Ben Hopkins: 37 Uses for a Dead Sheep (Prémio Caligari). Ao mesmo tempo que narra a odisseia de um pequeno grupo étnico, deslocado durante o século XX das montanhas do Pamir para uma aldeia no leste da Turquia, Hopkins questiona os princípios básicos do documentarismo etnográfico, mostrando as alegrias e equívocos da relação próxima entre a sua equipa e os “objectos de estudo”. Artisticamente menos feliz é Leonard Cohen I’m Your Man, de Lian Lunson (apresentado na secção Panorama), aproximação ultra-convencional à figura do bardo canadiano. Cruzando imagens de um concerto de homenagem em Sidney com depoimentos chapa 4 de figuras como Bono ou Nick Cave, chega a parecer um programa do Biography Channel. O que o salva, apesar de tudo, são as evocações da vida de Cohen – a poesia, as mulheres, o budismo, o envelhecimento – feitas pelo próprio e uma versão magnífica de Chelsea Hotel, cantada por Rufus Wainwright.
Apesar de o anunciarem como o filme-choque do festival, Big Bang Love, Juvenile A, de Takashi Miike, revelou-se apenas mais um objecto não identificável do bizarro realizador japonês, conhecido por não estabelecer quaisquer pontos de contacto entre as suas obras. Desta vez, Miike entrou definitivamente em órbita, ao misturar vários géneros – thriller, filme de prisão, FC, artes marciais e erotismo gay – numa narrativa tão cheia de elipses e repetições que o espectador fica perdido ao fim de poucos minutos. Enfim, só aconselhável a fãs incondicionais.
Muito mais terra-a-terra, 1:1 (One To One), de Annette K. Olesen, tem como palco uma urbanização de Copenhaga pensada arquitectonicamente para ser a solução perfeita – um lugar onde se juntariam famílias dinamarquesas e imigrantes, em sã convivência – mas que a realidade social do nosso tempo transformou num espaço ameaçado pelo espectro do ódio e da intolerância racista. O espancamento de um rapaz branco lança suspeitas sobre a comunidade árabe do bairro e Olesen manobra bem as suas personagens num terreno minado, à partida, pela retórica demagógica. Feito antes da polémica dos cartoons e das imagens de bandeiras dinamarquesas a serem queimadas por muçulmanos, 1:1 (referência à escala a que devemos olhar para as coisas reais, fora do papel) é um filme em que os problemas actuais já se pressentem, prestes a explodir. Também para isso serve o cinema e um festival como o de Berlim: para sentir, ainda ténues, os sismos futuros.
[Publicado, em versão reduzida, na edição de hoje do Diário de Notícias]
Sempre quis escrever um post em Alexanderplatz.
Depois de enviados para Lisboa os últimos textos sobre o festival e antes de dar finalmente uma volta por Berlim, fui ver uma exposição intitulada Melancholie.

Filme bósnio arrebata Urso de Ouro
e deixa para trás os favoritos
No momento em que Charlotte Rampling, visivelmente emocionada, anunciou que o Urso de Ouro ia para Grbavica, filme bósnio de uma realizadora estreante, um murmúrio de incredulidade percorreu a plateia e os vários balcões do Berlinale Palast. Contra todas as expectativas, foi Jasmila Zbanic a receber o mais alto troféu, deixando para trás nomes consagrados (Robert Altman, Claude Chabrol) e aquele que era o principal favorito: Michael Winterbottom. "Isto não pode ser verdade", disse Zbanic, ao receber o Urso. "Eu sei que estou a sonhar e que daqui a nada acordo em Sarajevo." Ainda incrédula, mas bem desperta, a realizadora aproveitou depois para lembrar o facto de alguns criminosos de guerra, como Radovan Karadzic e Ratko Mladic, ainda não terem sido condenados pelos massacres e violações em massa que ordenaram durante o conflito dos Balcãs.
Partindo justamente das feridas da guerra, Grbavica (nome de um bairro em Sarajevo, onde funcionou um campo de concentração) é uma obra meticulosa e eficaz que aborda o sofrimento recalcado das mulheres bósnias vítimas de abusos sexuais. Esma (Mirjana Karanovic) vive com esse segredo até ao dia em que a filha força a revelação, numa cena fortíssima que o resto da narrativa preparara com enorme rigor e delicadeza. Não sendo a melhor das 19 obras a concurso, a vitória de Grbavica aceita-se porque premeia tanto o talento indiscutível de Zbanic como a inteligência da sua aproximação a um trauma colectivo complexo (e muito dentro, diga-se, do "espírito da Berlinale").
Conduzida pelo actor Heino Ferch, a cerimónia abriu com uma decadente Nina Hagen – de cabelos azuis, fato de couro preto e cartola – a cantar uma canção de cabaret com os "erres" ostensivamente rolados. Se noutros anos os prémios eram anunciados a meio da tarde, em conferência de imprensa, desta vez os jornalistas tiveram que esperar pela cerimónia. Talvez por isso, os organizadores quiseram transformar a entrega dos Ursos numa espécie de mini-Óscares, mas o resultado deixou muito a desejar, com problemas de tradução, nervosismo em excesso e alguns engasgos.
A aposta na juventude confirmou-se com o duplo galardão atribuído a En Soap, de Pernille Fisher Christensen: Melhor Primeiro Filme e Grande Prémio do Júri, ex aequo com Offside, a parábola futebolística de Jafar Panahi. A autora da "pequena pérola de humor, melancolia e invenção cinematográfica" (como a descrevemos na edição de 11 de Fevereiro) ficou em estado choque – a boca aberta de espanto durante uns bons dois minutos – e chorou abraçada a Kossling, antes de agradecer o empurrão dado a uma película de baixo orçamento (menos de um milhão de euros). Quanto ao realizador iraniano, o Grande Prémio saberá decerto a pouco mas pode ser que ajude a resolver um impasse. É que o filme ainda não está autorizado no Irão, embora Panahi tenha esperança de o ver nos ecrãs do seu país antes de Junho, quando a selecção iraniana começa a participar no Mundial da Alemanha – no grupo do México, Angola e Portugal.
Para consolar os favoritos apeados, o Urso de Prata de Melhor Realizador coube a Michael Winterbottom e Mat Whitecross, que fizeram questão de levar ao palco os três paquistaneses sobreviventes do Campo Raio-X e do Campo Delta, inspiradores e protagonistas do docudrama político The Road to Guantanamo. Mesmo sem levar o prémio principal, o filme encontrará decerto o seu público, numa altura em que a ONU pediu aos EUA o encerramento imediato da sua prisão em Cuba.
Do restante palmarés, vale a pena destacar o Urso de Prata para a Melhor Actriz, fazendo justiça à interpretação fenomenal (no duplo sentido da palavra) de Sandra Hüller em Requiem, de Hans-Christian Schmid, para mim a grande revelação do certame. Menos consensual parece-me o Urso para o actor Moritz Bleibtreu, até porque premeia o pior dos quatro filmes alemães (Elementarteilchen). A quota nacional cumpriu-se com o galardão de "desempenho artístico excepcional" a ir, não se percebe bem porquê, para Jürgen Vogel (actor e produtor de Der Freie Wille). Já o Prémio Alfred Bauer, entregue por Matthew Barney a El Custodio, do argentino Rodrigo Moreno (outro estreante), pela sua capacidade de inovação em termos de linguagem visual, fica muito bem entregue.
O equívoco da noite foi o Urso de Prata de Melhor Banda Sonora para Isabella, lamentável sucessão de guitarradas pseudo-latinas que só conseguem assassinar um filme estimável. Conclusão: o júri da Berlinale desta vez até teve cabeça, mas esqueceu-se dos ouvidos.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]

Competição da Berlinale
fecha com chave de ouro
À entrada do nono e último dia da secção competitiva, o balanço da Berlinale deixava um pouco a desejar. Essencialmente por duas razões. Uma, o facto do melhor filme exibido (The New World, de Terrence Malick) não ter aspirações aos Ursos, por estar fora de concurso. Outra, a ausência de películas capazes de suscitar verdadeiras paixões e consensos. Houve realizadores desconhecidos que surpreenderam (Pernille Fischer Christensen, Jasmila Zbanic, Rodrigo Moreno ou Rafi Pitts), veteranos em forma (Robert Altman, Claude Chabrol) e Michael Winterbottom a fazer olhinhos ao "espírito de Berlim", com uma obra inteligentemente não-panfletária sobre o lado mais vergonhoso da luta americana contra o terrorismo. Mas não houve, entre esses 17 filmes, um único com aquele golpe de asa que transforma um cinéfilo num devoto.
Felizmente, mesmo ao lavar dos cestos, apareceram duas obras-primas que compensam várias desilusões inesperadas (Chen Kaige, Sidney Lumet) e elevam muitíssimo a fasquia de qualidade do festival. Em ano de Campeonato do Mundo de Futebol, Jafar Panahi filmou uma parábola a partir do que acontece à margem de um jogo decisivo, enquanto Hans-Christian Schmid trouxe a Berlim uma visão arrebatadora e perturbante do exorcismo católico, inspirada numa história verídica ocorrida no sul da Alemanha, há 30 anos.
Como sempre acontece nas obras de Jafar Panahi – de O Círculo a Sangue e Ouro, ambos distribuídos em Portugal pela Atalanta –, Offside parte de uma situação simples, narrada de forma ainda mais simples, mas que permite, a posteriori, todo o tipo de leituras e extrapolações. Desta vez, tudo se passa em torno do último jogo de apuramento da selecção iraniana, disputado em Teerão contra o Bahrain, a caminho da Alemanha (onde vai defrontar, em Junho, o México, Angola e Portugal). Mesmo sabendo que o acesso ao estádio está proibido às mulheres, algumas raparigas fazem questão de assistir à partida e mascaram-se de rapazes, numa tentativa infrutífera de iludir os militares que guardam as portas.
Quando o esquema é descoberto, ficam detidas num espaço pequeno, entre grades, junto a uma das bancadas, adivinhando as incidências do jogo pelos sons e pelos relatos de um guarda que espreita por uma fresta, enquanto lá dentro cem mil homens agitam bandeiras, apoiam os seus jogadores e insultam os adversários – precisamente uma das razões apontadas pelos soldados para justificar a proibição. Partindo deste huis clos sociológico, propício a todo o tipo de insubordinações e conflitos, Panahi leva a cabo um feito técnico espantoso (ao filmar minuto a minuto o que se passa à volta do estádio durante o jogo, quase em tempo real) e aproveita a euforia do apuramento, depois de uma vitória por 1-0, com as raparigas em êxtase dentro de um mini-bus em que as ordens rígidas deixaram de ter efeito, para evidenciar de forma original os paradoxos da condição feminina no Irão contemporâneo.

Partindo de pressupostos estéticos radicalmente distintos, Requiem funciona como uma espécie de reverso da alegria pura de Offside. O filme de Hans-Christian Schmid (ao qual foi atribuído, ontem, o prémio FIPRESCI, da associação internacional de críticos de cinema) é uma viagem sem regresso ao mundo fechado de uma família católica, incapaz de lidar com a doença de Michaela (Sandra Hüller). À medida que abre os seus horizontes na Universidade de Tübingen, a jovem estudante, epiléptica desde pequena, afunda-se gradualmente numa patologia psiquiátrica confundida com possessão demoníaca. Devota de Santa Catarina, a mártir, Michaela torna-se então vítima da sua crença e de uma espécie de fundamentalismo moral que a leva a aceitar, resignada, uma série de exorcismos fatais.
Algures entre Dreyer e os irmãos Dardenne, Requiem assombra-nos com a sua beleza difícil, subterrânea, dolorosa. Há nele uma luz negra, fortíssima, que emana de Hüller, actriz magnética, capaz de se transfigurar de um modo, digamos assim, metafísico. Eu não acredito em milagres, mas a interpretação de Hüller é um milagre.

O trabalho dos actores é também essencial em Capote, de Bennett Miller (fora de competição), um filme sobre os anos em que Truman Capote viveu obcecado com a história do quádruplo homicídio que inspirou o seu livro In Cold Blood. Se de início os gestos e a voz de Philip Seymour Hoffman provocam uma certa estranheza – parece um cruzamento de Herman José (loiro) com Miguel Esteves Cardoso, em pose queer –, aos poucos há uma verdade da personagem que emerge de uma história contada na medida certa. Também nomeada para um Óscar, Catherine Keener é convincente no papel de Harper Lee.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]

Os muitos rostos da Justiça
nos dois lados do Atlântico
Vagamente inspirado no escândalo Elf, L’Ivresse du Pouvoir confirma Claude Chabrol como um dos mais interessantes realizadores franceses do nosso tempo. Fotografado pelo português Eduardo Serra, o filme tem como principal trunfo a composição sem mácula (mais uma) de Isabelle Huppert, desta vez dando corpo a Jeanne, uma juíza obstinada em apanhar os peixes graúdos que costumam escapar, obscenamente impunes, por entre as malhas da lei, quando se investigam grandes esquemas de crime financeiro.
Mas esta espécie de Maria José Morgado parisiense também tem fragilidades. Impiedosa no gabinete onde faz os interrogatórios, Jeanne é vulnerável na esfera privada. Aos poucos, tornou-se “invisível” para Philippe, o marido deixado para segundo plano, e as tensões acumuladas acabam por provocar danos severos no seu equilíbrio existencial. Articulando muito bem os dois planos da narrativa – de um lado as certezas públicas de Jeanne, do outro as dúvidas da intimidade –, Chabrol não se limita a criticar a avidez corrupta das grandes empresas, estendendo o seu olhar analítico à ideia de poder enquanto forma de vertigem e ilusão.
O realizador explicou-me o porquê de alguns apelidos das personagens serem irónicos jogos de palavras: Charmant-Killman (“assassino charmoso”) para Jeanne; Sibaud (“tão belo”) para um executivo com ares de playboy; Parlebas (“fala baixo”) para o advogado de defesa. “Quis explorar a força ‘mítica’ dos nomes, fazendo com que enunciem, de forma ostensiva, a natureza daqueles que nomeiam. Na verdade, começou por ser uma brincadeira da Odile Barski [argumentista] e depois tomámos-lhe o gosto”, disse Chabrol, sorrindo enquanto acendia mais um charuto.

Onde o francês consegue ser subtil, Sidney Lumet revela mão pesada. Find Me Guilty é um filme de tribunal falhado: sem ritmo, sem rasgo, sem espessura e incapaz de lidar com a complexidade do mais longo julgamento criminal de que há memória nos EUA. Durante quase dois anos (1987-88), 20 membros da família Lucchese confrontaram-se com 76 acusações que envolviam todo o tipo de crimes “mafiosos”: subornos, extorsões, tráfico de droga, homicídios, etc. O golpe de teatro deu-se quando um dos acusados, Jack DiNorscio, decidiu defender-se sozinho, apesar de não ter qualquer preparação jurídica. Com sentido de humor (“I’m no gangster, I’m a gagster”) e quebras sistemáticas do protocolo, conseguiu enervar os advogados de acusação, exasperar o juiz, seduzir o júri e contribuir, à sua maneira, para uma sentença que ficou nos anais da justiça americana.
Sendo DiNorscio o eixo do filme, não havia margem para erros de casting. Mas Lumet, incompreensivelmente, decidiu entregar o papel a Vin Diesel, um actor de filmes de acção, com resultados desastrosos. Da voz à presença física, nada bate certo. Aliás, Diesel é tão cabotino que a própria palavra “cabotino” se torna um eufemismo. Moral da história: se um mau filme não mata um actor, um mau actor pode matar um filme. Dos vários culpados pela morte de Find Me Guilty, o maior é o próprio Lumet, que escolheu de livre vontade o veneno e o tomou em doses generosas.

Para compensar a maior desilusão desta Berlinale, uma razoável surpresa: Isabella, de Pang Ho-cheung (Hong Kong), “balada dos bons velhos tempos” que o realizador situa em Macau no ano de 1999, imediatamente antes da entrega do território, então ainda português, à China. Depois de uma noite de copos, Shing (Chapman To), um polícia suspenso por suspeita de corrupção e contrabando, seduz Yan (Isabella Leong). A adolescente seria apenas mais uma entre muitas mulheres, se não se tratasse da sua filha, fruto de uma relação antiga, com quem estabelecerá laços de paternidade precários mas intensos. Visualmente muito forte, o filme de Ho-cheung peca apenas por uma certa preguiça narrativa e pela abominável banda-sonora (à base de guitarradas, intrusiva, delicodoce) que nem o fado final de Mariza consegue resgatar.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]

Imitação de Romeu e Julieta
algures na Alemanha
Dos três filmes apresentados ontem – claramente o pior dia da Berlinale até agora – o menos mau foi Sehnsucht, de Valeska Grisebach, aproximação minimalista, lacónica e neutra ao quotidiano de pessoas comuns, numa pequena cidade alemã.
Logo na primeira cena, Markus (Andreas Mülller), serralheiro mecânico e bombeiro nas horas vagas, salva a vida de um homem envolvido num acidente de viação, do qual resulta a morte da mulher que o acompanhava. Mais tarde, Markus fica perturbado ao compreender que arruinou um plano suicida e comenta o romantismo daquele gesto com a namorada, Ella (Ilka Welz), que se apressa a recordar o destino trágico de Romeu e Julieta.
É uma espécie de sinal. A história dos dois amantes absolutos pairará sobre o resto do filme, mas de uma forma nada shakespeareana. Zühlen não é Verona. Por isso esqueçam os Montescos e Capuletos, a complexidade dramática ou a retórica amorosa. As personagens de Grisebach estão no extremo oposto: são feias, banais, incapazes de comunicar. O mais que fazem é calarem-se, quando não se embebedam ou dançam, olhos fechados, ao som de Robbie Williams.
Depois de acompanharmos as rotinas do casal e a sua dificuldade em lidar com o desejo, a acção só desperta da letargia quando Markus se apaixona por outra mulher, durante uma visita do seu quartel aos bombeiros de uma cidade próxima. A infidelidade torna-se então um fardo, mais psicológico do que moral. E depois de uma sequência que inverte ironicamente a famosa cena da varanda na tragédia de Shakespeare, a realizadora consegue, nos últimos minutos, in extremis, fazer uma pirueta que salva o filme. Quando Sehnsucht parecia encaminhar-se para mais um final desesperado e fatalista, Grisebach dá a volta ao desenlace óbvio com um diálogo sobre o caso, entre crianças sem grandes ilusões, que deixa tudo em aberto.
Apesar de lhe faltar qualquer coisa, Sehnsucht alcança em certos momentos um fortíssimo efeito de realidade (talvez porque recorre a não-actores em estado bruto) e contém vários achados visuais, além de algumas boas soluções narrativas. O mesmo não se pode dizer do único representante italiano a competir este ano pelo Urso de Ouro.

Assinado por Michele Placido, um cineasta mais conhecido do grande público como actor (foi o Comissário Cattani nas várias temporadas da série O Polvo), Romanzo Criminale não traz nada de novo a um género sugado até ao tutano: o filme sobre criminosos mafiosos que começam do zero e erguem um império de actividades fora-da-lei, só para o verem ruir devido a traições, mortes a eito e vendettas de uma crueldade sempre crescente.
Centrado em três amigos – Fredo (Kim Rossi Stuart), Lebanese (Pierfrancesco Favino) e Dandy (Riccardo Scamarcio) – que começam por roubar um carro e depois fazem a escalada completa até ao topo do mundo do crime, Romanzo Criminale é tecnicamente perfeito mas tão previsível como uma série de TV. Além das duas mulheres estereotipadas que desestabilizam o gang – a inevitável prostituta (Anna Mouglalis) e a não menos inevitável "santa" (Jasmine Trinca) –, temos também o polícia obstinado (Scialoja/Stefano Accorsi) e uma série de acontecimentos marcantes da História italiana, do rapto de Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas ao atentado na estação de comboios de Bolonha (perpetrado pela extrema-direita), para compor um épico que nem por uma vez nos comove ou surpreende.

Pior ainda, em termos de previsibilidade, só mesmo Candy, do australiano Neil Armfield, a enésima descrição pormenorizada dos abismos da toxicodependência, com um patético Heath Ledger e um desaproveitadíssimo Geoffrey Rush. Como diria um jornalista brasileiro com quem me cruzo todos os dias no centro de imprensa, "esse filme é uma droga". Literalmente.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]
Na cave do Berlinale Palast, junto a uma imitação da romana Fonte de Trevi (em que Anita Ekberg mergulha no filme La Dolce Vita, de Fellini), ficam os cacifos. São mais de mil e todos os jornalistas acreditados podem requisitar um. O meu é o 921. Todas as manhãs, depois da primeira sessão, pelas 11 horas, desço as escadas, pego na chave e abro a portinhola. Lá dentro estão folhas A4 com notícias e convites, dossiers de imprensa, pastas com documentação variada. Mais de metade vai logo para o lixo, o resto fica na mala, à espera de um intervalo qualquer na apertada agenda diária.
A verdade é que gosto do ritual de abrir o cacifo 921. Vou lá abaixo como quem desce as escadas do prédio depois de passar o carteiro. E fico sempre à espera de encontrar, no meio da papelada, uma carta de Lisboa.

Anti-terrorismo no Afeganistão
e Guantanamo, modo de abusar
Se a Berlinale é conhecida por ser um dos festivais de cinema mais abertamente políticos, a edição de 2006 está a confirmar de forma evidente essa “linha programática”. Depois da desmontagem, em Syriana, dos mecanismos políticos, económicos e militares a que os EUA recorrem para controlar o petróleo do Médio Oriente e da exibição de Grbavica, um retrato pungente das feridas não saradas da guerra na Bósnia, ontem foi a vez de Michael Winterbottom e Mat Whitecross revelarem a face negra da luta anti-terrorista levada a cabo pela Administração Bush, com a cumplicidade de Blair e de outros líderes europeus, naquele que é o filme-sensação do festival: The Road to Guantanamo, um docudrama poderoso em estreia mundial – a montagem definitiva terminou apenas há três dias – e que vai ser lançado ao mesmo tempo em vários suportes, dentro de um mês.
Para denunciar a desumanidade dos métodos usados pelo exército americano na sua base de Cuba, Winterbottom escolheu contar uma história verdadeira. A história de quatro amigos, muçulmanos britânicos de Tipton (Birmingham), que em Setembro de 2001 visitaram o Paquistão, para assistir ao casamento de um deles. Encorajados pelo imã de uma mesquita de Karachi, eles atravessaram a fronteira, com vista a ajudar alguns afegãos mais necessitados. E foi então que as coisas começaram a correr mal.
De Cabul, onde chegaram ao som das primeiras bombas, eles quiseram regressar ao Paquistão mas o autocarro levou-os para Kunduz, um dos últimos redutos dos talibãs. Quando a cidade se rendeu, Ruhel, Asif e Shafiq fugiram (o quarto, Monir, ficara para trás). Capturados pouco depois pela Aliança do Norte, foram entregues aos americanos em Kandahar e enviados, sem culpa formada, para a Baía de Guantanamo, onde conheceram os tormentos do Campo Raio-X e do Campo Delta, até ao dia, dois anos mais tarde, em que os serviços secretos britânicos conseguiram provar a sua inocência.
“Eu quis dar um rosto aos prisioneiros anónimos de Guantanamo”, disse Winterbottom na conferência de imprensa, “narrando apenas factos concretos”. É essa, de resto, a principal força deste filme notável. Ao cruzarem depoimentos de Ruhel, Asif e Shafiq com reconstituições e excertos de reportagens, num ritmo vivo, próximo do cinéma verité, os realizadores não precisam de apontar o dedo a ninguém. Na sua lógica absurda, são os tais “factos concretos” que falam por si mesmos, revelando os vários graus de paranóia e perfídia a que chegou a desesperada luta anti-terrorista de Bush e Rumsfeld.
Em 2003, Winterbottom ganhou o Urso de Ouro com In This World, um road-movie político sobre refugiados afegãos a caminho da Europa. Num momento em que mais de metade das obras a concurso este ano já foram exibidas – sem despertar, diga-se, um entusiasmo por aí além –, as reacções a The Road to Guantanamo, globalmente laudatórias, indiciam que o autor de 9 Songs é bem capaz de levar novamente para casa o prémio mais alto do festival.
Paisagens asiáticas em competição
Se todas as atenções se viraram ontem, em Berlim, para a denúncia do pesadelo de Guantanamo, a verdade é que houve outras duas películas exibidas na secção competitiva do festival: Zemestan, do iraniano Rafi Pitts; e Invisible Waves, do tailandês Pen-ek Ratanaruang. São obras certamente mais discretas que o filme de Winterbottom, mas que merecem, ainda assim, algum atenção. Até porque evidenciam, cada uma à sua maneira, a extraordinária vitalidade do cinema asiático contemporâneo.
Tal como o seu compatriota Abbas Kiarostami, Rafi Pitts recorre em Zemestan (It’s Winter, na tradução inglesa) a actores não profissionais, o que confere uma carga de genuína intensidade emocional a esta história simples, mas cheia de subtilezas, sobre as agruras da vida numa terra em que o desemprego empurra os homens para a emigração. Vagamente inspirado num romance de Mahmoud Dowlatabadi, o argumento explora de forma propositadamente elíptica as relações entre as personagens e recorre a um belíssimo poema de Mehdi Akhavan Saless sobre o inverno, cantado como se fosse uma prece, para enquadrar a narrativa, iniciada e concluída com um comboio a abrir caminho numa paisagem coberta de neve.

Deambulando entre Macau, Hong Kong e a ilha de Phuket (Tailândia), Invisible Waves é um thriller estilizado e bastante cool, em que um cozinheiro japonês se vê obrigado pelo patrão a assassinar a mulher deste, com quem esteve envolvido sexualmente. Como compensação, o dono do restaurante oferece-lhe uma viagem de cruzeiro que depressa se transforma num pesadelo cheio de alucinações fantasmagóricas. Ratanaruang filma com rigor geométrico e elegância, a que não será alheio o trabalho de Christopher Doyle, um cameraman experiente que já trabalhou com realizadores de gabarito, como Zhang Yimou e Wong Kar-Wei (2046).
[Textos publicados na edição de hoje do Diário de Notícias]
Schreibzimmer, diz em alemão o papel à entrada da sala onde se reúnem todas as tardes uns 50 jornalistas. Schreibzimmer: a sala de escrever. Schreibzimmer: o quarto da escrita. Schreibzimmer: câmara de tortura. Schreibzimmer: cordão umbilical. Schreibzimmer: o melhor blogging spot de Berlim.
Hoje trago vestida, por baixo da camisola de malha, uma t-shirt do Festival de Cannes.
Zemestan, de Rafi Pitts, é um filme iraniano de uma rara beleza. Às tantas, quase no fim, ouvimos um poema, um extraordinário poema, sobre o inverno. Recordo sobretudo a passagem em que se diz que o vermelho da aurora nasce de uma bofetada que o frio deu na face do céu.
Já a ouvi num filme dinamarquês falado em dinamarquês, num filme bósnio falado em bósnio e em dois filmes alemães falados em alemão. As personagens entalam um dedo e dizem fuck. As personagens levam um tiro e dizem fuck. As personagens fazem asneira e dizem fuck.
Fuck: a mais babélica de todas as palavras.
O violador contumaz
e o guarda-costas assassino
Ambos os filmes apresentados ontem em competição no Festival de Berlim – Der Freie Wille (O Livre-Arbítrio), de Matthias Glasner, e El Custodio (O Guarda-Costas), do argentino Rodrigo Moreno – têm como protagonistas homens sem saída, encurralados numa espécie de determinismo solipsista.

O filme alemão é de uma frieza quase clínica. Recorrendo a uma paleta de tons cinzentos, Glasner acompanha o percurso de Theo (Jürgen Vogel), um homem que esteve internado nove anos, depois de violar três mulheres. A primeira cena, arrepiante de tão crua, mostra uma dessas violações em toda a sua brutalidade e afasta-se de imediato do tom púdico de Elementarteilchein (As Partículas Elementares), a caricatura do romance de Houellebecq que Oskar Roehler trouxe à Berlinale.
Fugindo dos moralismos fáceis, Der Freie Wille é a história de um homem que luta sem sucesso contra uma libido compulsiva, violenta, malsã. Ao sair em liberdade e ao conseguir emprego numa gráfica, orientado por um funcionário da segurança social, acende-se uma esperança. Theo envolve-se com a filha do patrão e parece descobrir na sexualidade "normal" o meio de fugir ao seu inferno interior. Puro engano. No momento exacto em que parece redimido, Theo volta atrás, reincide e Glasner acompanha-o, com uma lentidão por vezes exasperante (o filme dura perto de três horas), até ao fundo do abismo.

Igualmente exasperante é o ritmo de El Custodio, que segue a par e passo o quotidiano de Ruben, guarda-costas de um ministro em Buenos Aires. Ruben conduz o ministro de carro para os seus compromissos, tanto oficiais como particulares (fins-de-semana em família ou visitas à amante), ouve os segredos do ministro, está por dentro das mentiras do ministro e sobretudo deixa-se humilhar, sem queixumes, pelo ministro. Pelo meio, espera, espera, espera. Dentro do automóvel, nos corredores, à porta das salas de conferência.
Moreno faz-nos sentir essas esperas até ao limite, tornando-as quase dolorosas. Neste filme que praticamente não tem acção, o pouco que acontece serve para sublinhar a platitude da vida pessoal do protagonista. Ruben almoça com a irmã e restante família disfuncional num restaurante chinês; recorre a uma prostituta que recebe clientes na casa da mãe; compra um colete à prova de bala; limpa com esmero a sua arma. E é tudo. Impassível, ele anula-se na função que lhe destinaram. Até ao dia em que o ressentimento, acumulado em doses microscópicas, transborda de uma vez só.
Ao assassinar o ministro que era suposto proteger, e que na prática ninguém ameaçava, Ruben aniquila-se. Porque ele só existe enquanto sombra do ministro. E nenhuma sombra resiste ao desaparecimento do seu objecto. É aqui que os dois filmes se voltam a tocar e a afastar, porque tanto Ruben como Theo se suicidam na praia. Mas, enquanto Glasner nos atira aos olhos a lâmina que corta as veias, Moreno opta por nos deixar mais uma vez à espera, enquanto o dilema do guarda-costas se resolve fora de campo e sem a detonação que tornaria tudo demasiado óbvio.
V de Vazio
Assinado por James McTeigue, V for Vendetta (fora de competição) é uma espécie de sucedâneo de Matrix, com uma Inglaterra futura – governada por um chanceler fascista – substituindo a realidade virtual da trilogia e, no lugar do libertador Neo, um émulo de Guy Fawkes – interpretado (ironia das ironias) por Hugo Weaving, actor que nos filmes de Andy e Larry Wachovski desempenhava o papel do pérfido agente Smith.
Para quem não conhece os detalhes da História britânica, recorde-se que Fawkes, um católico radical, foi o cérebro da "Conspiração da Pólvora", que pretendia fazer explodir o Parlamento inglês no dia 5 de Novembro de 1605, com o rei James I lá dentro, aproveitando a situação de caos para criar um novo regime em que o catolicismo deixasse de ser perseguido. O golpe falhou e o terrorista avant la lettre foi enforcado e esquartejado, junto com os seus cúmplices.
Quase quatro séculos mais tarde, o projecto anarquista de Fawkes acabou por ser o molde para a personagem V, herói da novela gráfica V for Vendetta, que Alan Moore e David Lloyd começaram a publicar no início dos anos 80 e que os irmãos Wachovski acabam de adaptar ao cinema, deixando para McTeigue a realização.
Mestre no manejo das facas e sempre com uma máscara sorridente a esconder o rosto desfigurado, V é metade Conde de Monte Cristo, metade Fantasma da Ópera: generoso e implacável, delicado e vingativo, culto e brutal. Com a ajuda de Evey (Natalie Portman), não só elimina um a um os inimigos que o transformaram num monstro como consegue cumprir o sonho de Fawkes. O Parlamento junto ao Tamisa vai mesmo pelos ares e com ele um regime ditatorial nascido da histeria securitária deste princípio de milénio.
Acontece que o eventual sub-texto político do filme é completamente esmagado por uma cornucópia de volte-faces do argumento e por cenas de acção infindáveis e enfadonhas. Ao querer ser muitas coisas, V for Vendetta acaba por não ser nada. Além de que rebentar um edifício por ser um "símbolo", depois do 11 de Setembro, só pode ser uma boutade de mau gosto.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]
Nas duas revistas oferecidas todas as manhãs à porta do Palast – Variety e International Screen – a palavra "filme" (picture) é sempre substituída por uma abreviatura: pic. Ao princípio estranha-se mas depois, quando percebemos que a maior parte dos textos têm um ponto de vista comercial, a coisa começa a fazer sentido. Afinal de contas, uma parte considerável das pessoas que circulam por aqui não vieram propriamente ver cinema. They came to pick pics, so to speack.
O filme era sobre um violador reincidente. Às tantas, ele está a fazer compras no supermercado e o telemóvel toca. Com um calafrio, reconheço aqueles sons. Usei o toque durante bastante tempo, há uns anos. Agora, a associação enche-me de asco.
Maldita Nokia.

Comédia de Altman celebra rádio ao vivo
Num festival em que abundam as obras trágicas e sorumbáticas, o novo opus de Robert Altman, A Prairie Home Companion, constitui uma espécie de refrigério. Prestes a chegar aos 81 anos, Altman ainda não perdeu a mão para os filmes com elencos gigantescos e assina (com a ajuda de Paul Thomas Anderson) uma comédia exemplar sobre um programa de culto da rádio americana, emitido ao vivo, numa sala de teatro, há mais de três décadas.
No ar desde 1974, A Prairie Home Companion é escutado todas as semanas por 4,5 milhões de ouvintes e gira em torno das histórias, piadas e escolhas musicais de Garrison Keillor, uma espécie de faz-tudo que apresenta o show, canta, dialoga com o público e narra episódios da vida em Lake Wobegon (uma imaginária cidade do MidWest), onde as pessoas são tristes e acham que “quando as coisas estão mal, podem sempre ficar piores”. Entre as actuações de cantores folk, o programa apresenta ainda jingles para anúncios fictícios (à tarte de ruibarbo caseiro ou aos Powdermilk Biscuits), adornados com efeitos sonoros à moda antiga.
Keillor, autor do guião, além de intérprete, conseguiu replicar o espírito do programa no filme. Com uma diferença: se na vida real o programa está de boa saúde, na ficção nem por isso. Rodada in loco, no Fitzgerald Theater em St. Paul (Minnesota), a película acompanha a última emissão ao vivo de A Prairie Home... e tudo o que se passa nos bastidores: gritarias, intrigas, bisbilhotices, uma morte e as misteriosas deambulações de um anjo branco.
Como sempre em Altman, o lote de actores é fortíssimo. Só no palco, dando voz a diversas canções, temos, além de Keillor, a veterana Meryl Streep, Lily Tomlin e Lindsay Lohan (família Johnson), mais Woody Harrelson e John C. Riley num par de impagáveis cowboys cantores: Lefty e Dusty. Fora do palco, Tommy Lee Jones faz de mau (o executivo encarregado de despedir pessoas) mas o destaque vai para Kevin Kline, perfeito na paródia aos policiais dos anos 50 que é o detective Guy Noir – um papel que esteve para ser entregue a George Clooney.
Há uns tempos, numa das suas rábulas, Keillor imaginou Altman a dirigir um filme chamado People Standing Around Talking and Using Hand Gestures (Pessoas que Falam Muito e Gesticulam). Digamos que A Prairie Home Companion também é isso, mas é muito mais do que isso.


Bósnia-1, China-0
Também em competição, merece realce Grbavica, notável primeira obra de Jasmila Zbanic (Bósnia) sobre as cicatrizes da guerra e um segredo que envenena a relação entre uma mulher traumatizada e a sua filha. Surpreendentemente mau é Wuji, de Chen Kaige (fora de competição), uma fantasia disparatada que narra uma antiga lenda chinesa sobre promessas não cumpridas e vinganças, recorrendo a efeitos digitais da loja dos trezentos. Será este o mesmo Kaige que realizou A Vida Por Uma Corda? Custa a acreditar.
Mais: enquanto Wuji traz a fama de ser o filme chinês mais caro de sempre (35 milhões de dólares), Grbavica nasceu de uma co-produção com a Áustria e a Alemanha, porque na Bósnia Herzegovina não existe uma única câmara de 35 mm. Este nosso mundo é mesmo um lugar injusto.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]
No metro, acotovelam-se dezenas de críticos olheirentos, com pastas a tiracolo, iguais, cor creme com o urso vermelho.
Quem nos veja de fora talvez julgue que somos trabalhadores de uma fábrica (e não somos?).
A verdade é que não temos relógio de ponto mas entramos todos os dias às nove, incluindo sábados e domingos.
Os que não têm cartão invejam aqueles que andam com o rectângulo de plástico ao pescoço. Os que têm cartões azuis invejam os que têm cartões vermelhos, com o respectivo acesso prioritário às salas. Os que têm cartões vermelhos (jornalistas em geral) invejam os que têm cartões vermelhos com a letra T (imprensa diária), com o respectivo acesso prioritário às sessões nocturnas. E eu, eu não tenho inveja de ninguém.

O deslumbrante Novo Mundo de Terrence Malick
No princípio é a água. A câmara deslizando à flor do mar e dentro dele. Esse mar que separa a Europa da América, o mítico novo mundo que os ingleses, como antes os portugueses e os espanhóis, começaram a desbravar no início do séc. XVII. The New World, de Terrence Malick, apresentado ontem em Berlim fora de competição, narra precisamente a chegada à Virginia, em 1607, de três navios britânicos e a forma como exploraram uma terra virgem, contactaram com as populações indígenas e construiram um forte numa das margens do rio James, embrião do que viria a ser Jamestown.
Condenado à morte por tentativa de motim durante a viagem, o capitão John Smith (Colin Farrell) é encarregado de fazer as primeiras explorações num território previsivelmente hostil. Depois de perder todos os seus homens numa batalha com os índios Powhatan, a princesa Pocahontas (Q’Orianka Kilcher), filha do chefe da tribo, salva-o da morte certa e inicia um processo de enamoramento que há-de resistir aos sobressaltos de uma história de ocupação, resistência e várias chacinas, mas não ao regresso de Smith a Inglaterra e ao rumor da sua morte. Pocahontas, que entretanto passou a viver com os colonos, vestindo-se à moda inglesa, casa então com John Rolfe (Christian Bale), tem um filho e chega a ser apresentada aos reis, em Londres, antes de morrer aos vinte e poucos anos.
À parte um ou outro erro factual, Malick conseguiu ser bastante rigoroso na abordagem histórica deste seu épico, apenas o quarto filme em 33 anos – visto em Berlim numa versão 15 minutos mais curta do que a estreada, em Dezembro, nos EUA. Mas falar do enredo, neste caso concreto, é o que menos importa. Porque as narrativas de Malick, por muito que as suas personagens se façam ouvir em monólogos interiores de qualidade literária duvidosa, nunca são verbais. A história é um pretexto, a acção um caminho incerto. Na verdade, a sua linguagem é puramente visual: feita de respirações, detalhes e epifanias – o vento numa seara, um bando de aves migratórias, a chuva caindo no rio. Imagens perfeitas que nos devolvem, como numa alucinação, o esplendor da natureza em estado bruto.
Explorando ao máximo as potencialidades do Technicolor, em planos rigorosamente enquadrados e sem recurso a qualquer tipo de iluminação artificial (trabalho prodigioso de Emmanuel Lubezki, director de fotografia), Malick prolonga em The New World o sentido do olhar que fez de Badlands (1973), Days of Heaven (1978) e A Barreira Invisível (1998) filmes de uma beleza e intensidade poética únicas. Comum a todos eles, de resto, é a procura de um primordial jardim do Eden, agora tornada mais explícita do que nunca.

Também correndo “por fora”, The Science of Sleep, de Michel Gondry, vem provar que o realizador francês não depende da imaginação galopante de Charlie Kaufman (autor do argumento de O Despertar da Mente, o seu filme anterior), até porque a sua fantasia se revela ainda mais caótica e puxada pelos cabelos que a do americano. Filme divertido, sobre um rapaz (Stephane/Gael García Bernal) que confunde os sonhos com a realidade, desenha catástrofes para ilustrar calendários e inventa mundos paralelos feitos de celofane e algodão, The Science of Sleep tem mais ideias por minuto que um filme de Jean-Pierre Jeunet. E é isso que o mata: uma overdose de criatividade.

Único filme em competição ontem, The Elementary Particles – a adaptação do romance de Michel Houellebecq feita pelo alemão Oskar Roehler, que encheu o Palast em menos de um fósforo e ainda deixou centenas de pessoas à porta – revelou-se um flop. Onde muitos (isto é: os jornais berlinenses) vêem um forte candidato ao Urso de Ouro, eu vi apenas um melodrama de pacotilha e uma xaropada intragável, abaixo de telefilme.
[Texto publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]
Em Berlim ainda há cinemas em que o pano sobe devagar no princípio da sessão, enquanto se ouvem badaladas. É uma coisa antiga, cerimonial, um movimento com qualquer coisa de erótico. Nós todos ali, cinéfilos voyeurs, à espera da nudez tão branca do ecrã.
«Someone once said that transsexuals are closest to God. If God had a gender, he'd surely be transsexual, containing both sexes. So, is God a man or a woman? The greatest love may be the love that frees you from the idea of love.»
Pernille Fischer Christensen, realizadora de En Soap
[in revista Film, do Instituto Dinamarquês de Cinema, n.º 48, Fevereiro de 2006]

Do labirinto petrolífero
à pérola dinamarquesa
Embora exibido fora de competição, Syriana – com estreia marcada para as salas portuguesas, já no próximo dia 16 – era um dos filmes mais esperados desta Berlinale. Por causa das duas nomeações para os Óscares: melhor actor secundário e melhor argumento original. Por causa de George Clooney, estrela de primeira grandeza que trouxe algum glamour hollywoodiano a uma Berlim coberta de neve. E também por causa do tema escolhido pelo realizador Stephen Gaghan, mais actual do que nunca: o universo da indústria petrolífera no Médio Oriente, os negócios escuros das grandes empresas americanas, a corrupção, os jogos políticos à escala internacional, as manobras da CIA e o terrorismo islâmico.
Gaghan tornou-se conhecido como argumentista de Traffic (2000), o fresco de Steven Soderbergh sobre os vários níveis em que se decompõe o problemático mundo da droga. Em Syriana, mesmo sem o recurso a engenhosos códigos cromáticos, a matriz narrativa é a mesma. O filme estrutura-se como um mosaico complexo (e por vezes confuso) em que se cruzam quatro linhas narrativas paralelas. Tão depressa seguimos as investigações de um agente da CIA (Clooney) que fala demais, sabe demais e é usado por todos, como acompanhamos o entusiasmo de um analista económico (Matt Damon) por um príncipe árabe não-alinhado com os EUA; a resistência às pressões de um advogado negro (Jeffrey Wright) que investiga uma fusão suspeita entre duas empresas petrolíferas; e o percurso que leva um imigrante paquistanês (Mazhar Munir) do desemprego numa refinaria árabe ao fanatismo muçulmano das escolas corânicas, acabando no inevitável sacrifício em estrepitoso atentado suicida.
A forma como Gaghan consegue articular cenas e cenários tão díspares chega a ser notável, mas no fim acaba por perder-se (e a nós com ele) no interior do seu labirinto. Ao contrário de certos filmes que não têm história, Syriana tem histórias a mais. E a hipertrofia ficcional acaba por transformar um thriller audaz e anti-sistema num Rossio desproporcionado, impossível de encaixar nessa Rua da Betesga que são as duas horas e picos exigidas pelos circuitos de distribuição.
Na vertente competitiva do Festival, foram vistos ontem dois filmes no grande ecrã do Berlinale Palast: Slumming, de Michael Glawogger (marcando o regresso da Áustria, ao fim de 20 anos); e En Soap, da dinamarquesa Pernille Fischer Christensen.

Os primeiros minutos de Slumming são bastante prometedores. Recorrendo a uma montagem rápida, Glawogger acompanha dois jovens endinheirados, cínicos e amorais, que gostam de seduzir raparigas em chats e frequentam espeluncas nos bairros de imigrantes, à procura de pobres diabos a quem possam pregar partidas cruéis. Numa das suas deambulações pela noite de Viena, encontram um vagabundo alcoólico, poeta de rua, a dormir num banco. Sem o acordar, fecham-no no porta-bagagens do BMW e largam-no numa aldeia já do outro lado da fronteira, na República Checa. Infelizmente, a partir daqui todas as personagens são atacados por súbitos desejos de redenção (cada um mais estapafúrdio do que o outro) e o filme entra em parafuso até ao desastre final, com Sebastian, o pior dos dois rapazes, a descobrir in loco a “verdade” do Terceiro Mundo.

Muito superior a Slumming é En Soap (Uma Telenovela), pequena pérola de humor, melancolia e invenção cinematográfica, que conta a atribulada história da vizinhança entre Charlotte (Trine Dyrholm), a viver o caos afectivo de uma separação, e Veronica (David Dencik), um prostituto travesti à espera de luz verde para mudar de sexo. Partindo dos arquétipos mais básicos da ficção televisiva, Pernille Fischer Christensen construiu um filme de uma inteligência e espessura humana extraordinárias. A sinopse do argumento, com o seu continuum de dramas, reconciliações e vertigens sentimentais, faz realmente pensar na telenovela do título. Mas uma telenovela realizada por Bergman. Ou por John Cassavetes, que a cineasta nórdica invocou na conferência de imprensa.
Discreto mas brilhante, En Soap é, para já, o melhor filme do Festival.
[Publicado na edição de hoje do Diário de Notícias]
Press-release:
Geração após geração, a poesia portuguesa tem revelado grande qualidade e diversidade. Depois de um século que alguns consideram um "século de ouro" (o século de Pessanha, Pessoa, Nemésio, Sena, Ruy Belo, Sophia, Eugénio ou Herberto), a poesia dos novos autores deve ser vista à luz de uma exigência naturalmente alta. Este é um momento para reflectirmos sobre o estado presente da poesia portuguesa, tendo sobretudo em conta os poetas surgidos nos últimos 20 anos, e projectarmos o seu futuro imediato.
O que é a "nova poesia"? Os poetas novos escrevem necessariamente poesia "nova"? Como se distingue novidade e simples juventude? Que continuidades ou rupturas existem? Quais os poetas canónicos ou marginais que marcam a nova poesia? Que diálogos com outras artes detectamos? Que consciência política? Que afinidades há entre os novos poetas, no estilo ou nos temas? O que significam categorias como "novo realismo" ou "sublime"? Quais são as linhas de fractura? Que lógicas de grupo encontramos? Que sentimento do mundo? Que actividade crítica? Que revistas? Que antologias? Que manifestos? Que consistência tem a nova poesia?
Estes serão alguns dos temas de debate em POLAROIDS, que se pretende uma visão de conjunto sobre a nova poesia portuguesa. Um grupo de poetas e críticos, dos mais entusiastas aos mais cépticos, apresentarão as suas ideias e opiniões sobre a nova poesia.
Em cada sessão serão lidos poemas de sete poetas das últimas duas décadas.
Hoje, às 18 horas, no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz:
Gastão Cruz (autor de A Poesia Portuguesa Hoje)
Jorge Reis-Sá (organizador da antologia Anos 90 e Depois)
Luís Carmelo (autor de A Novíssima Poesia Portuguesa e a Experiência Estética Contemporânea)
Nuno Júdice (autor de Viagem por um Século de Literatura Portuguesa)
Moderador: Pedro Mexia
Leitura de poemas por: Rogério Samora
Nos momentos de maior felicidade, a personagem autista que Sigourney Weaver interpreta em Snow Cake repete vezes sem conta a palavra «Perfectamondo». Faz sentido. Só alguém que se afastou muito da realidade é que pode ver o mundo como um sítio perfeito.

Uma boca cheia de neve
e outra de coisa nenhuma
De há uns anos a esta parte, o primeiro filme exibido na Berlinale tem oscilado entre o mau, o muito mau e o péssimo. A malapata foi quebrada ontem à noite, na abertura da 56.a edição do certame, pelo realizador galês Marc Evans. Snow Cake pode não ser uma obra-prima, longe disso, mas não envergonha ninguém. E se é óbvio que lhe falta perfil para entrar na “caça” aos Ursos (mesmo os de prata), pelo menos escapa à indigência cinematográfica do “europudim” sobre pigmeus que abriu o Festival em 2005.
Filmado no Ontario (Canadá), Snow Cake é mais uma variação sobre o tema da culpa. Alex (Alan Rickman), um homem de poucas conversas, dá boleia a Vivienne, uma rapariga que fala pelos cotovelos. Ele revela-se discreto; ela esfuziante. Ele viaja para Winnipeg; ela volta para casa da mãe, em Wawa. Mas se o espectador chega a pensar num roadmovie intergeracional, com muitos segredos e alguma tensão erótica, depressa se desengana. Vindo do nada, um camião TIR abalroa o carro, mata a jovem e deixa Alex em estado de choque.
Após esta espécie de prólogo, Alex faz questão de bater à porta de Linda (Sigourney Weaver), mãe de Vivienne, para lhe entregar uns brinquedos que a filha comprara minutos antes do acidente. Só que a visita de circunstância depressa se transforma numa permanência de vários dias, até ao funeral, e Alex acaba por integrar-se na vida da pequena cidade.
Hóspede de Linda, autista hiperfuncional obcecada com a ordem meticulosa da casa mas incapaz de sentir a morte da filha, Alex apaixona-se por uma vizinha, a langorosa Maggie (Carrie-Anne Moss), acabando por confrontar, um por um, os demónios do seu passado. Entre a alegria puramente infantil de Linda, sempre pronta para comer neve ou saltar no trampolim, e a disponibilidade sentimental de Maggie, Alex desfaz o nó da angústia, feito de perdas, traumas e um crime. No fim, depois de descobrir o universo de Vivienne (da sua prosa incipiente aos discos dos Stereophonics ou dos Super Furry Animals), o funeral da rapariga funciona como a catarse definitiva e libertadora.
Os principais trunfos de Snow Cake são o modo como lida com a tristeza das personagens – suave, sem histerias melodramáticas –, o facto de mostrar uma face do autismo que vai para além dos estereótipos e o elenco, apesar de um ou outro exagero expressivo de Weaver. O principal defeito de Snow Cake é a realização frouxa de Marc Evans – incapaz de limar as rugosidades do argumento – e a forma como perde o pulso à história, acabando com soluções visuais de um kitsch risível.
Para Linda, encher a boca de neve e deixá-la derreter é uma experiência superior ao orgasmo. Infelizmente, Snow Cake, apesar das promessas, quando derrete sabe apenas a água fria.
[Texto publicado na edição de hoje do Diário de Notícias, sem linque]
À saída do aeroporto de Tegel, o frio como um murro na cara.
Sorridente, boné na cabeça, o taxista de bigode pega na minha mala e pergunta-me se também venho para o Festival de Cinema. "Só hoje, já transportei oito pessoas que chegaram para a Berlinale, sobretudo jornalistas."
Dentro do táxi, felpo azul a cobrir os bancos.
O taxista conta-me histórias de um irmäo que vive na Suécia, num lugar em que as temperaturas, no inverno, descem até aos 40 graus negativos.
Nas placas de sinalizaçäo, encolhem-se palavras demasiado compridas, impronunciáveis.
Uma estrela da Mercedes roda sobre si mesma.
O taxista recorda uma viagem a Lisboa, em Novembro, "ainda havia calor" e sorri.
Eu reconheço alguns edifícios, ao longe, no centro da cidade.
Chego ao hotel sem ter visto um único Trabant.
"Berlim mudou muito em 14 anos", diz o taxista, enquanto se despede.
"Eu também", respondo-lhe em português.
Daqui a nada, parto para Berlim, onde vou acompanhar durante 12 dias o Festival de Cinema (Berlinale). Paradoxalmente, talvez consiga actualizar mais A Invenção de Morel lá, no intervalo das sessões e da escrita para o jornal, do que tenho conseguido actualizá-lo cá, por entre torrentes de trabalho que não me deixam sequer respirar, quanto mais aceder ao weblog.com.pt.
– Nunca amaste?
– Sim, a ti.
– E amas-me como?
– Com isto.
– Isso é o fígado.
– Bom, enganei-me. Amo-te com o coração.
Silverio Lanza
[Epígrafe do romance O Inquilino, de Javier Cercas, ASA, 2005]
No Mil Folhas de hoje, seis páginas inteirinhas dedicadas à escrita e ao pensamento literário de Alexandre Andrade.
Temos uma entrevista longa, a análise dos quatro livros publicados até agora, mais um perfil.
Exagero, dirão alguns.
Um destaque de elementar justiça, digo eu.
Há coisas difíceis de explicar. A neve em Lisboa, por exemplo. Ou as proporções atingidas pela polémica em que me quiseram converter, à má fila, no bode expiatório de todos os insondáveis pecados da crítica literária portuguesa. Desde sexta-feira, o tema do "crítico que escreve sobre o livro do amigo" espalhou-se pelos quatro cantos da blogosfera, despertando toda a sorte de oportunismos, hipocrisias, ressentimentos, golpes baixos, demagogias e também, devo assinalar, igual número de reacções equilibradas, lúcidas, sensatas, por parte de bloggers que não se deixam cegar pela esquizofrenia conspirativa e maquiavelicamente moralista de João Pedro George.
Recuperar todos os links, agora, seria fastidioso (muitos deles estão elencados no fim deste post). Quem não acompanhou a história desde o início, acabará por a encontrar, mais ou menos distorcida, numa qualquer esquina deste mundo digital. Se escrevo uma última vez sobre o assunto, é apenas para esclarecer alguns equívocos e deixar bem clara a minha posição sobre esta matéria de tantos melindres.
1. Se descontarmos os insultos gratuitos e a bazófia pachequiana, o cerne das acusações de JPG é este: eu escrevi um texto sobre um amigo meu, Nuno Costa Santos, o que consubstancia gravíssimo crime de lesa-tudo-e-mais-alguma-coisa, além de ser uma prova de preguiça, falta de recursos críticos e de uma escrita "em função de favores" que o Nuno, obviamente, mais tarde reciprocará. Quanto à falta de recursos críticos, nada a opor. Trata-se de uma opinião pessoal respeitável, embora contraditória com esta, assinada pelo mesmo JPG há pouco mais de três meses. Já a insinuação de que concedo "benesses e mesuras a amigos" é, mais do que uma atoarda, um acto difamatório lançado para o ar, à toa, com a soberba e o desplante dos inimputáveis.
2. Na sua verborreia descontrolada, JPG insurge-se várias vezes contra o "bater palmas só porque é meu amigo" ou contra quem diz "bem passivamente, por reflexo de amizade". Que o meu texto seja tudo menos um panegírico, aliás com reservas explícitas que já sublinhei, foi-lhe completamente indiferente. Prova-se que eu afinal não bati palmas, mas ele recusa-se a voltar atrás. Salta aos olhos que eu estive muito longe de dizer apenas bem, passivamente, pelo tal reflexo de amizade e ele o que faz? Reincide na grosseria e nos insultos. "Repito: o texto que José Mário Silva escreveu é sintoma de medievalismo e de oportunismo. Mais, denuncia a estrutura mental de um crítico que ainda não atingiu a idade de pensar." Há muito tempo que não via tamanha desonestidade intelectual.
3. Levado pela verve, JPG não se limita a terraplanar tudo o que lhe aparece à frente. JPG também inventa, acrescenta, mente e omite. Mente, por exemplo, quando dá a entender que o Nuno Costa Santos trabalha na redacção do DN. Não trabalha. Nunca trabalhou. E omite, por exemplo, que o Nuno é apenas colaborador pontual do suplemento 6.ª (como foi em tempos do DNA) sem sequer fazer parte da ficha técnica.
4. Deixemos os detalhes e sigamos então para o fulcro do problema: pode-se ou não se pode falar sobre livros de amigos? Neste ponto, concordo com o que Eduardo Pitta escreveu aqui e aqui. Resumo das ideias principais: "Frequentes vezes levantei objecções a livros de amigos, circunstância que afastou dois ou três; enquanto, do mesmo passo, nunca regateei elogios a livros de autores acerca dos quais, enquanto pessoas, tenho as maiores reservas. Mas quando os livros valem por si, a pessoa do autor é irrelevante." (sublinhado meu); "É de um puritanismo inadmissível pretender que alguém não escreva sobre amigos ou conhecidos. Se as pessoas tivessem um pouco mais de mundo, sabiam que outra coisa não se faz desde Homero"; "O problema não está em escrever sobre amigos e conhecidos, mas na eventual troca de galhardetes, infelizmente comum em certas moradas. Se a recensão for isenta, ninguém pode acusar o crítico de favoritismo". A minha legitimidade para escrever sobre amigos (e já o fiz no passado, dizendo bem) passa pela consciência de que abordei esses livros como abordaria quaisquer outros: de forma honesta, sem benevolência nem piedade, no pleno uso das minhas faculdades críticas, por muito subjectivas e diminutas que elas sejam. Essa consciência está limpa e não há ataques maliciosos capazes de a conspurcar.
5. Corolário lógico do ponto anterior: mesmo que se possa falar sobre livros de amigos, deve-se falar sobre livros de amigos? Agora mais do que nunca, eu diria: manda a prudência que não. Justamente porque se abre campo a todo o tipo de suspeitas, conjecturas e especulações, esse caldo de que se alimentam os oportunistas da estirpe do JPG. Por muito seguros que estejamos da nossa honestidade, nunca faltará quem se disponha a duvidar dela e a tecer as mais estapafúrdias conspirações. Até porque o que há mais para aí são fretes verdadeiros e miseráveis conúbios, secretos ou às escâncaras. Não é pelo facto de JPG ter falhado o alvo que o alvo deixa de existir.
6. Concluamos. Foi legítimo escrever sobre o livro do Nuno Costa Santos? Tenho a certeza que sim. Era aconselhável escrever sobre o livro do Nuno Costa Santos? Admito que não. Porque raio escrevi eu então sobre o livro do Nuno Costa Santos? Para ser o mais sincero possível, foi uma contingência, mais do que uma opção. E o Nuno Costa Santos, vítima colateral deste processo todo, nada teve a ver com essa contingência.
7. Coda: há muitas pontas por onde pegar na problemática da crítica literária; pena é que o JPG tenha escolhido logo a mais fútil e insignificante.
Game Over.
Pela minha parte, o "banzé escusado" termina aqui.
[Cópia deste post no Aspirina B.]