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TOUPEIRICES & AMIGUISMOS

Na sexta-feira passada, o indómito e virginal João Pedro George, talvez à míngua de figuras para zurzir, pegou no suplemento do DN, viu-me a jeito nas páginas dedicadas aos livros, pensou "não é tarde nem é cedo" e vai de desancar-me à antiga portuguesa neste post, rapidamente comentado por Pacheco Pereira, que não perdeu tempo a ampliar a tese conspirativa («há hoje no mundo literato vários sistemas e subsistemas grupais competindo pelos mesmos "bens", influência, artigos, colunas, programas de televisão, entrevistas, promoções, editoras, colóquios») e a apontar o dedo a esse grupo semi-maçónico, presume-se, que «ia do defunto DNA, para o grupo do "É a Cultura, Estúpido", ou as Produções Fictícias». Com o Abrupto na liça, o que podia ser um mero post azedo do JPG transformou-se num verdadeiro caso que já se ramificou em várias direcções, numa trama de links que ainda não pude visitar na totalidade.
Se só respondo agora, é porque só agora voltei a ter alguns minutos (poucos) para dedicar aos blogues. A vida tem destas coisas: cai-te em cima uma polémica das boas precisamente numa fase em que o trabalho não dá tréguas e a internet desceu vertiginosamente na lista de prioridades. Mas isso pouco importa. Mesmo sem saber se conseguirei abordar as principais questões levantadas, queria voltar, se me permitem, ao princípio de tudo. Isto é, ao texto que motivou a indignação do JPG. Será que alguém o leu? Será que alguém foi ver o que havia ali de tão grave, de tão indecoroso, de tão amiguista? Não me parece.
Sendo assim, antes de focar outros aspectos deste «banzé escusado», como lhe chamou certeiramente um amigo, talvez seja melhor começar pela republicação dessa fatídica notinha que não chega, vejam bem, aos 2000 caracteres (nem sequer lhe consigo chamar recensão, quanto mais crítica):

Andar na rua com um pêlo na boca

Um homem cai para trás, fulminado por um raio. É este o símbolo da Livramento, uma editora recém-nascida que pretende marcar a diferença, no panorama sobrelotado das pequenas chancelas (quase sempre com dois sócios cheios de genica mas com pouco dinheiro), pelo arrojo do grafismo. Basta olhar para o rosa shock da capa do primeiro livro para perceber que é possível, afinal, encontrar volumes de poesia que prescindem, no frontispício, das cores neutras ou do inevitável quadro de Edward Hopper.
Estreia poética de Nuno Costa Santos, jornalista que já publicou uma colectânea de narrativas interligadas (Dez Regressos, Salamandra) e mantém um popular blogue de posts curtos (http://melancomico.blogspot.com), Os Dias Não Estão Para Isso diz ao que vem logo nas epígrafes: Fernando Assis Pacheco (“Peçam a grandiloquência a outros...”), Alexandre O’Neill (“...adoptemos o prosaico...”) e Raymond Carver (“Sentia-me esquisito, a andar pela rua com um pêlo dentro da boca”).
A partir destas três referências, NCS estrutura uma aproximação à poesia que é sempre uma forma de sabotagem da poesia (ou, pelo menos, sabotagem da sacralização do sublime que ainda é bastante notória em muita da produção contemporânea).
Nestes versos de um lirismo sempre irónico – e por vezes ingénuo – não há pose, não há verve, não há um rasto que seja de solenidade. Descrevendo aspectos da sua vida pessoal e da respiração do bairro onde vive, NCS assume como programa uma “tabela de ninharias”, onde o Fórum TSF, a fisioterapia das “veteranas senhoras”, a bica pingada e a sinusite coexistem com vislumbres da beleza escondida das coisas ou com a nostalgia da infância nas ilhas.
É uma escrita arriscada e desigual, no fio da navalha, por vezes excessivamente rasa. Quase poemas de um quase poeta capaz de versos completos. Como estes: “Lembra-te que na dúvida / as pessoas não amam.// Que antes da dúvida / há muitos territórios // e que nenhum deles é o amor”.

Os destaques a negrito dispensam, parece-me, mais comentários. Às outras questões da polémica regressarei logo que possa.

[Deste post será feita uma cópia, a papel-químico digital, para o blogue Aspirina B.]

Comments

Caro José Mário: João Pedro George é um rapaz com algum talento e que tenta (eu diria desesperadamente) por dar nas vistas. Vai conseguindo (e, atrevo-me a dizer, terá emprego nos jornais como crítico literário antes desta década acabar).

O historiador que edita o Abrupto é conhecido por usar de forma tão infantilmente exposta como exímia os links em benefício das suas estratégias pessoais ou outras, sem nenhum outro tipo de critério, código, respeito ou educação.

Logo, não te preocupes. Vozes de burro entretém a pacotilha, mas não chegam onde conta.

Zé Mário, ignora o assunto. O João Pedro George não parece dar-se bem com a discussão de ideias. Gosto imenso de o ler, sem dúvida nenhuma, mas não se pode dizer que tenha grande jogo de cintura no que respeita a opiniões.

O único problema dele é um que o José Manuel Fernandes aponta a eito aos políticos portugueses: o da mulher de César e sobre ser e parecer séria. Aliás, JPG também refere essa expressão. Infelizmente não percebe que entre literatura e política vai uma diferença que tem a ver com aquilo que escolhemos ou não ler e aquilo que não podemos (pelo menos por 4 anos) de maneira nenhuma votar.

Pessoalmente seria da opinião que não deverias escrever o tal texto, sendo o NCS teu amigo. Mas não me repugna que o tenhas feito. Certamente que o jornal, caso entendesse que existiria aí um problema, não publicaria a tua opinião. Se o JPG acha que nunca na vida se pode escrever sobre obras de amigos e se o Pedro Mexia acha que não é uma boa ideia, porque razão não hás-de tu ter uma opinião diferente e não ver problemas? É apenas uma visão diferente, o JPG é que não gosta que seja diferente da dele.

Além disso, creio que o probloema não é teres escrito uma crítica sobre um trabalho de um amigo. O grande problema surge de teres escrito uma crítica positiva sobre esse mesmo trabalho. E pelo que se vê pelas críticas do JPG, ele tem muito mais prazer com as críticas negativas que com as positivas. Reflexo da mentalidade ainda algo vitoriana que grassa na lógica dos críticos, creio.

Paulo, mas o José Mário Silva devia ou não ter escrito aquele texto sobre o livro do Nuno Costa Santos? Eu acho que não e uma das melhores coisas que os blogues nos trouxeram é que este tipo de coisas já não passam com facilidade e o JMS já devia ter percebido isso. E devia também, obviamente, admitir o erro, acho que lhe ficava bem.

No meu entender, por uma questão de princípio, um crítico não deve escrever um artigo num jornal sobre uma publicação de um amigo. Deste ponto de vista o JPG tem razão.

De um ponto de vista pragmático há uma questão que se impõe: Sendo o meio literário português tão pequeno, de acordo com o que eu disse anteriormente, quantos escritores portugueses pode o José Mário Silva criticar?

Luís Oliveira, certamente o JMS não é amigo de todos os escritores portugueses. Poderá, quando muito conhecer uma grande quantidade deles, mas "conhecer" é diferente de ser "amigo".

Penso que criticar um livro de alguém que se conhece não constitui um problema, o problema apenas se coloca quando se critica um livro de um amigo.

JT: acho que o José Mário tem legitimidade profissional para escrever aquele texto.

Há uns meses um poeta / escritor / jornalista / blogger / opinion maker da nossa pequena praça dizia-me a propósito do tema, ser uma questão a abordar por outro ângulo que não o do conhecimento pessoal -- com um argumento espantoso: se não escrevesse sobre autores que conhecia (vários graus), acabava por não escrever sobre nenhum.

Acontecerá inevitavelmente o mesmo a JPG, quando algum jornal recrutar o seu talento: passados uns meses / anos no meio, conhecerá o número suficiente de autores e editores para... ter de fazer opções pessoais e deontológicas. Portugal é um país pequeno e a fauna cultural reduzida.

Não são fáceis de fazer: o já referido poeta / escritor / etc (que conto entre amigos prezados, embora não próximos) já teve a sua dose de chatisse com autores que não gostaram da crítica dele. Ser inflexível quanto à deontologia e manter o sentido das proporções costuma dar resultados.

Claro que a JPG dá jeito apanhar umas situações destas para brilhar, claro que ao historiador que edita o Abrupto dá jeito amplificar a questão estando no palco uma pessoa de esquerda que também escreve em blogs. Claro que todos nós percebemos o que se passa. Claro que se deve discutir este assunto. E ver claramente o que está em jogo, não ficar apenas pela espuma das leituras apressadas.

Caro José Mário: a transparência de que deste mostra publicando o original é de louvar. Não calarás algumas vozes -- mas para muitos dos teus leitores é suficiente prova da tua integridade. Keep the good work.

Engraçado: quando li esse texto, pensei qualquer coisa como: "lá vai o gajo perder um amigo". Afinal, atacam-no é pelo outro lado...

JPG mete ainda os pés pelas mãos noutro post, acerca do "amiguismo" que, segundo ele e outros presumidos críticos da Imprensa, grassa nos jornais. Falando por mim e do que conheço, o que se passa é acabar por fazer algumas amizades a posteriori, isto é, conhecer alguem por razões profissionais e ao longo do tempo desenvolver com a pessoa laços pessoais. Aconteceu-me com o José Mário, a quem pedi declarações sobre a blogosfera, salvo erro duas vezes, para publicar no Expresso. Na altura era um conhecido, e se não posso dizer que somos amigos porque a palavra é forte demais para caracterizar o que nos úne, desde então já trocámos pontos de vista, sms, felicitações e essas coisas em número suficiente para eu considerar o José Mário uma pessoa que prezo.

A menos que pegue na tesoura e, como Mário Castrim, se feche em casa a ler livros e a escrever, não tendo rigorosamente nenhum envolvimento social, JPG não poderá apresentar fronteiras claras.

A deontologia não é uma declaração de princípios nem uma cartilha. A deontologia aprende-se e entranha-se, depois respira-se.

A quantidade de pessoas que já se debruçou e opinou sobre este tema parece-me quase caricata. Ainda há pouco descobri mais uns links no blog do FJ Viegas. Parece-me, de uma forma geral, demasiado barulho para um meio onde o que muitas vezes faz falta é divulgação e oportunidades.

Ha pessoas que não vale a pena..Não lhes leves a mal...Não sabem o que fazer.

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