« SMS A UM JOVEM POETA | Main | DOIS POEMAS DE NUNO COSTA SANTOS »

TCHEKHOV ENCONTRA BECKETT NO ALENTEJO

Numa aldeia desertificada, onde os "cachopos” já não correm pelas ruas, cinco personagens com mais de setenta anos tecem os fios do seu desamparo. Estão longe de tudo, presos a uma terra estéril, e aparentemente até o homem do peixe se esqueceu deles: «Deve pensar que já não merece a pena, que a gente já não come». Aos dois homens, sempre de volta da horta em que um deles "dispôs" umas favas, contando com a chuva que não virá, juntam-se três mulheres: a louca apaixonada, mais a sua cadela invisível; a avó que esteve fora mas regressou, por não se "dar bem" com a Inglaterra; e a bisbilhoteira profissional que repete, qual eco, o final das frases ditas pelos outros.
É este o universo de À Manhã, a peça de José Luís Peixoto que o Teatro Meridional estreia esta noite (21.00), no São Luiz, com encenação de Miguel Seabra e Natália Luiza. Convidado por Jorge Salavisa, responsável pela programação da sala lisboeta (e que desafiou igualmente outro jovem ficcionista, Gonçalo M. Tavares, a criar um texto original para a companhia Sensurround, de Lúcia Sigalho), Peixoto encarou o projecto como uma oportunidade de aperfeiçoar a sua escrita dramatúrgica e experimentar algumas «misturas improváveis».
A mais notória é o cruzamento – em cenário alentejano de cabeços e açudes, pilhas de cortiça e oliveiras "sem folhas" – da influência de dois autores maiores do teatro universal: Samuel Beckett e Anton Tchekhov. Ao primeiro foram roubados, de À Espera de Godot, os nomes das personagens masculinas (Ti Vlademiro e Ti Estragão); enquanto o segundo emprestou às velhas comadres os nomes das Três Irmãs (Olga, Macha e Irininha). Há aqui, evidentemente, um imenso potencial irónico e meta-literário que Peixoto explora sem trair o seu estilo, ao mesmo tempo que arrisca outra mistura improvável: a da velhice com «uma certa irresponsabilidade afectiva».
Será esta, de resto, uma das grandes surpresas do espectáculo. É que os velhotes de À Manhã, depois de se queixarem muito do frio e do abandono, entregam-se a sucessivos e elaborados jogos de sedução, com todo o tipo de assédios, "bocanços" (beijos na boca) e propostas para "fazer sexy". Uma verdadeira «comédia de desenganos», como lhe chama Natália Luíza, em que a ideia foi abordar, sem falsos pudores, esse «tabu social que é, ainda, o desejo dos idosos».
Miguel Seabra reconhece que a «vibração» da escrita habitual de Peixoto «não tem muito a ver com os nossos caminhos meridionais». Por isso, desafiou o autor de Uma Casa na Escuridão a procurar um registo de maior «leveza», onde pudessem caber a «claridade» e a «esperança». Para Natália Luiza, o resultado superou as expectativas. «Este é o seu texto mais luminoso, com um humor que vai desconcertar os leitores fiéis, mas sem nunca abdicar de uma enorme densidade humana. Ele consegue projectar-se muito bem nas personagens, como se fosse depositário da memória de muitas infâncias e de muitas velhices. No fundo, consegue ter, ao mesmo tempo, 31 [a idade real] e 88 anos».
Satisfeito com a cumplicidade que nasceu deste «encontro feliz», fruto de uma «sintonia rara» entre dramaturgo e encenadores, Miguel Seabra destaca ainda a riqueza vocabular do texto, que recupera muitos regionalismos alentejanos caídos em desuso. Expressões como "desencabecinar", "bochinha", "parodim espanhol", "espargates", "garganeiro" ou "esbornecado".
Trabalhar a linguagem da sua terra natal, tanto ao nível do léxico como das construções sintácticas, foi um exercício a que José Luís Peixoto se entregou com prazer. «Estas personagens, como aliás as do romance Nenhum Olhar, só podiam falar assim.» Por via das dúvidas, o programa do espectáculo incluirá um glossário com 47 palavras.

[Texto publicado ontem, na secção de Artes do Diário de Notícias]

Comments

Vou ver! Parece bem interessante e nunca vi um texto do Peixoto encenado. Obrigado pela dica...

Post a comment