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NOTAS SOBRE O SURREALISMO (3)

Navegando quase sempre sozinho desde 1953, julgo que para Cesariny a realidade da poesia está ligada à criação de um mundo do qual ela emite sinais que se desenham em filigrana, pela sua própria obscuridade, sobre a falsa claridade onde ainda nos atardamos. Trata-se, na verdade, de cada um interrogar a sua noite. A possibilidade de ver tudo está ligada a essa interrogação.
Poesia, de facto, para os surrealistas e para Cesariny, é aquela espécie de fio de Ariadne com uma ponta ao alcance da nossa mão, uma ponta que promete ajudar-nos a sair do labirinto. É poesia tudo o que nos "transtorna", todo o que nos "encanta". Libertada por este ângulo de visão insólito de todas as amarras tradicionais com problemas de expressão verbal e de perfeição formal (que Cesariny, aliás, domina perfeitamente, revelando profundo conhecimento das formas e dos modos da melhor poesia portuguesa), a poesia, que de súbito bizarramente se aventura até aos confins das preocupações de ordem propriamente mística, é o estado de graça, merecido por uma certa maneira de viver, que vem sublimar e transfigurar a vontade de nos arrancarmos à condição humana. No dicionário oculto do surrealismo, o seu nome verdadeiro é libertação.

[Fragmento de um texto de apoio, manuscrito e inédito, redigido por Ernesto Sampaio no Outono de 2001]

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