NOTAS SOBRE O SURREALISMO (2)
"L' écart absolu" – a separação absoluta – assim se chamava a última exposição internacional do surrealismo, organizada por André Breton em Paris, em 1965, pouco antes da sua morte (1966). Nesta derradeira manifestação pública a nível internacional, o surrealismo rompia definitivamente com uma arte e uma cultura absolutamente separadas da praxis vital dos homens. Não era apenas uma expressão artística precedente (um estilo) que era recusada, mas a totalidade da instituição arte na sua separação da vida. Os poetas mais ou menos ligados ao movimento compreenderam que o surrealismo ia fatalmente repercutir-se num plano que não era o seu: o da difusão fácil, da comunicação discursiva, do reconhecimento público, da seriedade, da cultura, do homem das multidões, o homem-massa devorado até à angústia pelo desejo de ser cada vez mais massivo. Esses poetas viam que o pensamento não pode delapidar-se em jaulas onde o pensamento não funciona; ele tem que ser protegido (ou ocultado, se preferem) como um bem precioso. Isso e a bancarrota fraudolenta, no plano social, das palavras liberdade e democracia, explica o meio silêncio – o silêncio quase absoluto, na verdade – a que a maioria dos maiores poetas se tem remetido nos últimos anos. O "pouco de realidade" (Introdução ao discurso sobre o pouco de realidade é o título de um dos livros de André Breton) torna-se cada vez mais débil neste fim ou começo de um mundo onde a poesia é uma categoria a destruir.
[Fragmento de um texto de apoio, manuscrito e inédito, redigido por Ernesto Sampaio no Outono de 2001]