MEMÓRIA DE ERNESTO (4)
No post anterior desta série, são evocados os encontros semanais que mantive com Ernesto Sampaio durante os meses de Setembro e Outubro de 2001. Havia qualquer coisa de ritual iniciático naqueles encontros: a hora certa (meio-dia, com o sol no zénite), a esplanada do Jardim da Estrela, a rocha negra. E também qualquer coisa de clandestino. Enquanto bebíamos café, ele passava-me as tais dezenas de folhas manuscritas, papéis de fina gramagem que a sua caligrafia, muito arredondada, invadia de forma metódica, perfazendo para quem a lesse uma mancha gráfica ordenada e sóbria. Ele passava-me as folhas dentro de uma capa plastificada, com ar conspirativo, como se atrás das árvores que rodeiam o lago pudesse estar escondido um qualquer agente da PIDE.
Foram essas páginas que redescobri agora, ao arrumar dossiers. As anotações de Sampaio para um documentário sobre Cesariny que nunca se chegou a concluir. Uma abordagem teórica ao Surrealismo, aos seus princípios, à sua história. Fragmentos escritos para serem partilhados com um rapaz jornalista, sem outro fim que não fosse o de iluminar essa liberdade absoluta que Breton & Cia. procuravam.
Agora que ando embrenhado em rememorações ernestinas, acho-me no dever de partilhar com os leitores da Invenção de Morel alguns destes pensamentos fragmentários do autor de Ideias Lebres, pequenas pérolas que não foram escritas para serem publicadas mas que constituem, parece-me, breves lampejos da grandeza de um homem extraordinariamente erudito e extraordinariamente generoso. Lidos hoje, vejo-os como posts. E é como posts que os publicarei, em itálico e com melancolia.