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MEMÓRIA DE ERNESTO (3)

No dia 15 de Dezembro de 2001, publiquei no DNa este texto in memoriam:

Ernesto

Foi jornalista, tradutor, crítico literário, poeta. Chamava-se Ernesto Sampaio. Era um homem discreto, um pensador lúcido, um surrealista que nunca deixou de o ser. Durante quarenta anos, viveu o amor absoluto com Fernanda Alves – «l’amour fou» que o transformou, após a morte da actriz, num «sonâmbulo» e numa «sombra». Morreu na semana passada, em Lisboa, de tristeza e solidão

Eu li a notícia no Público. Assim, brutal: «O corpo de Ernesto Sampaio foi encontrado sem vida, há dois dias, na sua casa de Lisboa». Não me lembro do resto do texto, só me lembro disto. A morte, esse escândalo cruel, a caber numa frase. A morte. A tua morte. A involuntária despedida. Assim, com um jornal nas mãos. A notícia a ser lâmina, a notícia a ser golpe feito de palavras. E, a ilustrá-la, uma fotografia: tu abraçado à Fernanda no tempo em que ainda estavam juntos e eram felizes. A imagem, belíssima, em que ela sorri imenso e tu já apareces como que turvado por uma secreta melancolia.

* * *

Há muitos anos, participaste num debate sobre dramaturgia, no Teatro de Almada. Foi a primeira vez que te vi. Conhecia alguns dos teus textos. Não conhecia o teu rosto nem a tua voz. E então começaste a falar. Primeiro, havia um silêncio. Depois, as palavras saíam num fluxo contínuo, com uma inteligência e um rigor espantosos. À saída, lembro-me de comentar com o meu irmão que falavas como quem escreve. Sem hesitações, sem gaguejos, sem quebras. Soube, logo ali, que pertencias à estirpe rara dos homens que nunca deixam de pensar. Mais tarde, descobri que também pertencias a outra estirpe igualmente rara: a dos homens que nunca deixam de sentir.

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Isto que vou dizer é uma evidência. A tua morte começou no dia em que a Fernanda Alves morreu. Desde esse dia, em Janeiro de 2000, começaste a morrer aos poucos. Está tudo no teu último livro: Fernanda. A dor, o desespero, a cólera, o remorso. As tardes fechadas, o tempo inútil a crescer como um deserto, os muitos vazios. O abismo da solidão. A renúncia. O corte em relação a tudo o que pertence a este mundo. A memória como último refúgio. Uma «existência quase póstuma, à margem da verdadeira vida». Está tudo no teu livro, esse poema feito de fragmentos. No teu livro que eras tu. Espelho partido. Cidade em ruínas.

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Releio o livro. Digo alto: «Fernanda». Reencontro a epígrafe da Divina Comédia (Inferno, V). Em italiano, para não perder a música da língua. Digo alto: «Nessun maggior dolore che ricordarsi del tempo felice nella miseria». É isso o teu livro: a dor de recordar, na miséria, tempos felizes. A dor de viver no inferno, «pois inferno é a ausência de quem amamos». Repetir uma história antiga: Dante sem Beatriz, Orfeu sem Eurídice.

***

Os acasos da vida fizeram com que nos cruzássemos, no final do verão passado. Durante dois meses, unimos esforços em torno de um mesmo projecto. Várias vezes por semana, sempre ao meio-dia, reuníamos na esplanada do Jardim da Estrela, o teu poiso preferido nesta Lisboa em que os antigos cafés dos surrealistas – o Royal, o Gelo, o Herminius – foram sendo transformados em bancos e restaurantes de fast-food. Eu chegava sempre ligeiramente atrasado e tu estavas sempre lá, na primeira das mesas verdes do lado esquerdo, junto a uma rocha negra. Entregavas-me dezenas de folhas manuscritas e depois falávamos sobre o surrealismo e, dentro dele, o Cesariny ou o Breton. Nos teus olhos renasciam brilhos antigos e eu convocava, embevecido, o teu saber e as tuas memórias. Havia, entre os dois, algo mais do que respeito mútuo e interesses comuns. Gosto de pensar que era afecto. Uma espécie de cumplicidade subterrânea e silenciosa. Mesmo quando nos tratávamos por você, já nos tratávamos por tu.

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Releio Fernanda. Redescubro frases que sublinhei da primeira vez. Como estas. «É a minha Fernanda viva que recordo e abraço, (…) a sua ternura radiosa (…), esta luz na minha vida, este grande clarão dourado.» «Estou quase a cair, posso desabar a qualquer momento. Não quero que me vejas cair. Já não sinto o meu eu, o meu peso. Perco o equilíbrio, flutuo. Eras tu a gravitação da terra e do céu, e anulaste-as…». «A meio caminho dos vivos e dos mortos, e mais próximo destes, sinto por vezes uma singular quietude. Se morrer assim, será com a certeza de que a Fernanda me espera de braços abertos.»

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Encontraram-te entre o quarto e a casa de banho. Imagino a tua morte na noite escura, o silêncio da casa, a aflição dos animais. «A minha duração não tem sentido perante estas fotografias que nos mostram abraçados, ninguém, se alguma coisa me acontecer, virá procurar-me ao mausoléu em que se transformou a nossa casa.»

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Fizeram-te uma autópsia que talvez esclareça o porquê da desistência do teu corpo. Mas, no momento em que escrevo, ainda não se conhecem quaisquer resultados. Vasco Santos, teu editor e teu amigo, diz-me ao telefone que deve ter sido o coração. Tão óbvio, não é? O Mário Cesariny, do alto da sua sabedoria de poeta iluminado, disse precisamente a mesma coisa: «[Ernesto Sampaio] é a única pessoa que conheço que morreu de amor».

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Três versos soltos sobre a Fernanda: «Já se perde/ Na corrente fortíssima/ A luz dos teus olhos».

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Disseste que os teus pais e todas as pessoas que te tocaram «partiram fechadas no seu segredo». Penso nisso agora, enquanto recordo a tua aura de mistério, o teu perfil de outro século. A barba muito espessa, os olhos muito abertos, os dentes amarelos da nicotina, o rosto com as marcas do tempo e da inquietação. Havia no teu silêncio um território inacessível aos outros. Também tu morreste fechado no teu segredo.

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Pergunto-me: se não tivesse devolvido o livro com reproduções dos quadros de Victor Brauner, a quem o entregaria agora?

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Mais algumas frases sublinhadas. «É para um céu vazio que ergo os meus olhos e as minhas mãos. Adeus, luz que giravas sobre o mundo.» «Estar vivo é acordar todas as manhãs no inferno, viver rodeado de rumores estranhos à minha preocupação secreta, longe do meu amor morto, do meu sol que quanto mais brilha, mais escura vai tornando a minha sombra.»

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Regressei hoje ao Jardim da Estrela. O céu cinzento, nuvens baças, chuva miudinha. No chão, folhas castanhas, folhas mortas. A esplanada vazia. A mesa verde, junto à rocha negra, vazia. Não há palavras que nos salvem deste silêncio, desta ausência. É tão difícil, Ernesto, dizer adeus.

Comments

Belíssima e sentida prosa. É sempre difícil também quando, por morrer alguém e ao ler sobre ela, sentimos a ausência de não o/a ter conhecido. É o caso.

Bela despedida.

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