MEMÓRIA DE ERNESTO (1)
Uma das vantagens de ter um blogue é esta: recuperar textos que amarelecem em páginas antigas (e efémeras) dos jornais, textos que existiram durante um momento e depois se eclipsaram debaixo do peso imenso dos anos que passam. Como esta crítica que escrevi sobre a primeira edição de Fernanda (chancela da Fenda; preço: 1575$00), no n.º 218 do suplemento DNa, do Diário de Notícias, em 3 de Fevereiro de 2001:

Um rosto na ausência
É preciso começar pelas fotografias. Primeiro a da capa: um rosto belíssimo, sereno e luminoso, abraçado pelas trevas. Depois as de uma mulher em cena: o corpo a ser um furacão de gestos para as palavras que não se ouvem. Ainda as da intimidade: a mesma mulher debruçando-se sobre uma mesa com copos e papéis (almoço de verão?), mais o sorriso de olhos fechados e o cigarro entre os dedos; ou então ela, furtiva, a espreitar na ombreira de uma porta; ou apertando um ramo de flores contra o horizonte. E há a imagem central, aquela onde nasce a explicação de tudo: um homem triste (ou talvez apenas melancólico) que abraça, por trás, a mulher das outras fotografias. A mulher sorri um sorriso muito aberto. O homem agarra-a com firmeza, como se já temesse perdê-la um dia. O homem é Ernesto Sampaio, poeta, ensaísta, tradutor. Fernanda é o livro que ele escreveu para tentar preencher a ausência dela.
Um dia, no princípio do ano 2000, Fernanda Alves estava no Porto, a trabalhar numa peça de Gil Vicente em que representava o papel do Anjo. Os anjos, se existem, gostaram tanto dela que a vieram buscar, assim sem aviso. E ela morreu, como um relâmpago que se extingue num céu sem nuvens. Ernesto Sampaio estava longe e não se perdoa por isso, por não ter estado lá, por «ter deixado a Fernanda morrer só». Além do vazio, ficou o remorso. E uma dor infinita, sem regresso, um buraco negro dentro do coração, a resistir ao tempo e ao esquecimento.
É essa dor que empurra Ernesto Sampaio para dentro de si mesmo, para dentro da escrita: «Quando a memória nos cai em cima como um dilúvio, quando o passado nos submerge e afoga, estamos perdidos. Sobrevivemos entre sombras, somos almas penadas, entregues ao desespero e à cólera. Vivemos no inferno, pois inferno é a ausência de quem amamos. É disso que este livro trata. Disso e da passagem da saudade à solidão» (pág. 10). Não por acaso, uma das epígrafes de Fernanda foi retirada do Inferno (Canto V) da Divina Comédia: «Nessun maggior dolore che ricordarsi del tempo felice nella miseria». É óbvio que Sampaio não é Dante Alighieri, nem há um Virgílio a guiá-lo através dos nove círculos infernais, nem Fernanda é Beatriz — essa outra espécie de anjo que esperava o poeta nas portas do Céu. Não há aqui um fôlego épico, nem versos simétricos, nem terza rima. Mas há uma «selva oscura»: a tal dor maior, a «recordação dos tempos felizes» que atravessa cada frase deste livro, como um eco a pairar sobre o texto, como um lastro de sofrimento que impõe a sua sombra para sempre.
Autor de muitas obras difíceis de classificar, que oscilam entre a prosa e a poesia, o ensaio e a provocação intelectual (é o caso de Feriados Nacionais e Ideias Lebres, ambos de 1999), Ernesto Sampaio fez de Fernanda um objecto singular, um work in progress onde cabe tudo: imagens, lamentações, memórias, versos, pequenas narrativas, coisas ditas há muito tempo, possíveis entradas de um diário, apontamentos biográficos, excertos de entrevista, declarações de amor. São fragmentos magníficos, estilhaços de um espelho partido à procura da imagem que um dia neles se reflectiu. E são, postos assim em página, um acto de coragem. Porque Ernesto Sampaio não quer saber das convenções: arrisca, abre a porta da sua vida, expõe-se completamente. Ele está ali, naquelas palavras, em carne viva. E nós sentimos, com ele, o que é o abandono, a angústia, a «não-esperança». Conseguir fazer tudo isto com uma espécie de recato ou pudor (que nos aproxima sem nos tornar voyeurs), é quase prodigioso — numa época em que os sentimentos se banalizam e assistimos às mais rebuscadas formas de strip-tease emocional, sobretudo na TV.
Além do remorso («Eu devia ter amado muito mais a Fernanda»), há uma ideia que percorre as primeiras páginas: o espanto de ter sido amado, tão intensamente, por aquela mulher. Logo ele, que seguiu sempre um rumo de contínuo regresso a si próprio, estendendo à sua volta um «mar dos Sargaços», caminhando pela vida como um «sonâmbulo». «Como pôde a Fernanda (...) viver quarenta anos com um homem que passava o tempo a fugir do tempo?» (pág. 12). É como se ele não merecesse tamanha bênção, não merecesse esta mulher de «ternura radiosa». Ela, a única pessoa capaz de o convencer de que o mundo não é um lugar «irrespirável». Ela, a «alma e o corpo» dessa unidade que os dois formavam (como lhes disse Isabel de Castro, numa carta). Sem se poupar, Sampaio confessa: «Eu podia entregar-me às minhas manias, não querer saber de nada nem de ninguém, afastar-me, isolar-me: tinha-a a ela, que era tudo, e agora não tenho nada».
Mas Fernanda — «esta luz da minha vida, este grande clarão dourado» — permanece de outras formas. Não é só uma ideia abstracta, um rosto brilhando na memória, é muito mais do que isso. É o ponto de fuga que resgata um amante de um quotidiano agora sombrio: «Sobre a reverberação das luzes dos aeroportos, nas intermináveis auto-estradas, de olhos fixos no mar, debaixo destas palmeiras, nestes museus, nestas esplanadas, ela lá está, por momentos apaga tudo, só a vejo a ela, sou aspirado até ela pela ferida que se abre em mim: inolvidável, intransponível, esse rasgão não me deixa fundir com a pele do mundo» (pág. 15).
Desta impossibilidade de reconciliação com o que ficou depois da morte, nasce um desencanto que contamina todas as coisas. Olhando à volta, só se vêem escombros. «Dir-se-ia que a morte de Fernanda arrasou a cidade: só lhe resta o traçado, fragmentos de paredes, ervas bravas. Parece Pompeia» (pág. 17). Por todo o lado nascem urtigas, alastram pântanos, cresce o cerco das areias movediças. As tardes são muros, os dias passam como nuvens. E o escritor desliga-se dos objectos, das paisagens e sobretudo das pessoas, «fechadas nos seus segredos» (mesmo as mais íntimas, mesmo as mais próximas). Condenado a uma «espécie de opróbrio», a uma «existência quase póstuma», Sampaio ganha a consciência de que «o nosso tempo passou» e de que «não é morrer que espanta, mas viver ainda». Posta lá no alto, a amada continua a ser uma espécie de sol. O «sol que quanto mais brilha, mais escura vai tornando a minha sombra» (pág. 60).
Fernanda Alves é o verdadeiro centro de gravidade deste texto. O seu rosto, o seu olhar, as suas palavras, a sua aura. Os seus gestos, a sua maneira de ser, a sua generosidade, até os seus comentários (reflexões sobre o trabalho do actor, alguns aforismos). E a sua voz, ouvida no gravador como se fosse um caminho para o outro lado («Essa voz é o poente, / Cobre-me com os últimos raios de luz / Como o sol faz aos choupos e às montanhas», pág. 39). Mesmo quando a prosa irradia noutras direcções, mesmo quando os poemas abrem clareiras cheias de símbolos, é sempre Fernanda que aparece, à transparência. E sempre a solidão. Até nos sonhos: «Nestes últimos anos, perseguiu-me um sonho recorrente: caminhava cego e a Fernanda dava-me a mão e guiava-me; desde que morreu, continuo a sonhar que caminho às cegas, mas ela desapareceu do sonho» (pág. 47).
Neste universo hermeticamente fechado sobre si mesmo, nada separa o dia da noite e a vida da morte. O escritor evolui num «espaço de sombras», luta contra o absurdo de um tempo que perdeu o sentido e lambe feridas impossíveis de sarar. Como ele próprio admite, está «a meio caminho dos vivos e dos mortos, e mais próximo destes». O cansaço é enorme, o desânimo avassalador; a vontade de lhes resistir, quase nenhuma. «Posso desabar a qualquer momento», escreve. Mas essa ruína é acompanhada de uma forma de vergonha quase infantil: «Não quero que me vejas cair. Já não sinto o meu eu, o meu peso. Perco o equilíbrio, flutuo. Eras tu a gravitação da terra e do céu, e anulaste-as...» (pág. 41).
A morte devora tudo menos o amor. O amor, a memória, as fotografias. «Nas fotografias que vou arrumando, tenho-a ao correr do tempo, desde a infância até ao seu último verão. Sigo-a de idade em idade, idêntica e sempre diferente, símbolo da mudança e da permanência, do devir incessante, até ao fim, ao apagar-se, à última página onde não há mais nada, onde nenhuma imagem pode ser acrescentada. Ali onde estava o seu corpo é o vazio que o meu olhar, a minha mão podem atravessar; onde ressoava o seu riso há agora o silêncio» (pág. 73).
Voltamos à imagem inicial: o homem que abraça, por trás, a mulher que ama e teme perder. Está triste — ou pelo menos melancólico. Talvez por não saber ainda que aquela mulher, aquele sorriso, aquela «luz» que girava sobre o mundo, viria a ser a inspiração para um dos livros mais belos (e terríveis) que se publicaram em Portugal nos últimos anos. Um livro de paixão, luto e despedida. «Por vezes lembro-me do amor, e pergunto-me o que é. Só me resta o teu nome, Fernanda, e a vaga ideia de um crime que nos fez entrar numa imunda elipse e nos expulsou do imenso jogo de viver e amar» (pág. 76).