DOIS POEMAS DE NUNO COSTA SANTOS
Um homem parado na pista
Queria mexer os braços e as pernas e até ter um certo estilo a dançar mas sempre que punha a mão ao bolso tocava com os dedos na bomba para a asma.
Andar às codornizes
Acordávamos cedo, calçávamos as botas de cano e chamávamos o tonto do braque. Seguíamos depois em direcção à neblina dos campos de beterraba. Os dois amigos de infância do meu pai não nos conheciam como grandes caçadores. Isso pouco importava. Eles iam à frente. Nós andávamos às codornizes como quem aprende a caminhar lado a lado. A certa altura o meu pai dizia-me para disparar a espingarda. Não contra o voo de uma codorniz, anunciado pela pose estática do cão. Um tiro em frente, com o tilintar do sino da aldeia ao fundo.
[In Os dias não estão para isso, Livramento, 2005]
Comments
Nunca hei-de compreender por que motivo se chama a coisas destas "poema" e não micro-conto ou mini-conto. É que não só a forma é prosaica, como a própria linguagem tem muito mais da objectividade da prosa do que da alegoria da poesia.
Pós-modernismos?...
Posted by: Jorge | janeiro 24, 2006 07:15 PM