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DE ABISMO EM ABISMO

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No terceiro dos “quatro contos longos” que compõem Os Emigrantes, o narrador de W. G. Sebald procura descobrir os contornos da existência de Ambros Adelwarth (um obscuro tio-avô), através de minuciosas “investigações” biográficas que lhe consomem vários anos de pesquisa intermitente. É um trabalho ciclópico, feito de várias conversas com familiares próximos ou pessoas que o conheceram, da exumação de álbuns cheios de velhas fotografias e postais ilustrados, ou da exegese de um diário escrito por ele, em letra miudinha, num calendário de bolso para o ano 1913.
A dado momento, quase no fim da narrativa, o narrador – um ser esquivo que parece esconder-se sempre, de alguma maneira, nos meandros intrincados da escrita – encontra num asilo psiquiátrico de Ithaca (costa Leste dos Estados Unidos) uma resposta para o mistério daquele remoto parente que emigrou ainda novo para o outro lado do Atlântico, onde viria a ser mordomo exemplar da milionária família dos Solomon. Passeando pelos jardins do asilo, entretanto fechado, encontra por acaso um médico na reforma, Dr. Abramsky, antigo assistente de Fahnstock, o clínico que na década de 50 tratou Adelwarth com uma violentíssima terapia de electrochoques, revolucionária e desumana, que o levaria de resto à morte em poucos meses. Será Abramsky a recordar a docilidade de Adelwarth, vista por Fahnstock como prova da eficácia dos tratamentos, «quando na verdade, como já na altura comecei a desconfiar, ela se devia simplesmente ao desejo do seu tio-avô de extinguir em si próprio o mais profunda e irremediavelmente possível toda a capacidade de pensar e de recordar».
A escrita de W. G. Sebald, que se revelou como ficcionista em idade tardia, no início da década de 90, já com 47 anos (razão porque nos deixou apenas quatro obras narrativas – se podemos designar assim os seus livros híbridos – antes de morrer de ataque cardíaco, ao volante, em Dezembro de 2001), é uma escrita que vai num sentido oposto ao da sua trágica personagem. Em vez da aniquilação do pensamento e da memória, uma espécie de hipertrofia do raciocínio lógico e da capacidade de reflectir sobre o passado. Não num sentido nostálgico ou saudosista, mas antes obedecendo a um impulso que é simultaneamente ético e estético: o de iluminar factos que ficaram na sombra, esmagados pelo peso destruidor do tempo, bem como as figuras humanas, as palavras, as formas de ver o mundo que lhe estiveram associadas. Mais do que testemunhos, as histórias de Sebald, magnificamente arquitectadas e redigidas com uma elegância de outro século, são operações de resgate. Um resgate – subtil, doloroso, pessoalíssimo – do que se foi perdendo no pó da decadência.
Depois, há a extraordinária humildade desta voz que nos vai guiando; a nós, leitores perplexos. Seja na lenta viagem à infância obliterada, porque escondida, de um homem que resume os traumas e horrores do séc. XX (Austerlitz), seja na recuperação de quatro vidas exiladas (em Os Emigrantes), o narrador sebaldiano nunca sobressai, nunca se chega à frente, muito menos controla o rumo das suas derivas e deambulações. Há nele uma espécie de invisibilidade, de apagamento voluntário, como se o seu lugar fosse apenas o da escuta. Ele ouve e depois conta. Ele vê e depois descreve. Ele vive e depois recorda. Mas faz tudo isto excluindo-se do cenário, como se estivesse fora de campo – um termo particularmente adequado, se pensarmos nas fotografias (granulosas e sem legendas) por ele intercaladas no texto, às vezes de forma enigmática.
É como se a função primeira do narrador fosse a de organizar as «torrentes» da memória. A sua e a dos outros. Única forma de pôr a salvo o segredo do Dr. Henry Selwyn (sob a forma de um corpo fechado durante décadas num glaciar); ou o caminho tortuoso do professor Paul Bereyter até ao suicídio na via férrea; ou a infinita melancolia do tio-avô Adelwarth; ou a angústia do pintor Max Aurach, por ter sobrevivido, em criança, à II Grande Guerra, enquanto os pais desapareciam na voragem do terror nazi. É justamente Aurach quem resume o modo como essa sombra (o Holocausto, punctum oculto dos livros de Sebald) permanece para lá dos horizontes da História: «A dor moral é praticamente infinita. Quando se julga ter chegado ao último limite, há sempre novos tormentos. Vai-se de abismo em abismo».

[Texto publicado ontem, no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]

Comments

:) Obrigado, não o tinha lido.

DE Sebald, amei o Austerlitz.
Vem ver o meu blog.

Tenho de ir à procura deste mas em inglês, uma vez que o alemão que eu sei não me chega para Sebald (talvez para os Irmãos Grimm, ou assim :)), mas depois do Austerlitz é uma obrigação absoluta ler o resto de Sebald. Mesmo obrigação.

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