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Podes dormir descansado. Na próxima sexta escrevo sobre o Juan Rulfo. Mexicano. Morto há 20 anos. Nunca sequer tomei café com ele.
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Podes dormir descansado. Na próxima sexta escrevo sobre o Juan Rulfo. Mexicano. Morto há 20 anos. Nunca sequer tomei café com ele.
Na sexta-feira passada, o indómito e virginal João Pedro George, talvez à míngua de figuras para zurzir, pegou no suplemento 6ª do DN, viu-me a jeito nas páginas dedicadas aos livros, pensou "não é tarde nem é cedo" e vai de desancar-me à antiga portuguesa neste post, rapidamente comentado por Pacheco Pereira, que não perdeu tempo a ampliar a tese conspirativa («há hoje no mundo literato vários sistemas e subsistemas grupais competindo pelos mesmos "bens", influência, artigos, colunas, programas de televisão, entrevistas, promoções, editoras, colóquios») e a apontar o dedo a esse grupo semi-maçónico, presume-se, que «ia do defunto DNA, para o grupo do "É a Cultura, Estúpido", ou as Produções Fictícias». Com o Abrupto na liça, o que podia ser um mero post azedo do JPG transformou-se num verdadeiro caso que já se ramificou em várias direcções, numa trama de links que ainda não pude visitar na totalidade.
Se só respondo agora, é porque só agora voltei a ter alguns minutos (poucos) para dedicar aos blogues. A vida tem destas coisas: cai-te em cima uma polémica das boas precisamente numa fase em que o trabalho não dá tréguas e a internet desceu vertiginosamente na lista de prioridades. Mas isso pouco importa. Mesmo sem saber se conseguirei abordar as principais questões levantadas, queria voltar, se me permitem, ao princípio de tudo. Isto é, ao texto que motivou a indignação do JPG. Será que alguém o leu? Será que alguém foi ver o que havia ali de tão grave, de tão indecoroso, de tão amiguista? Não me parece.
Sendo assim, antes de focar outros aspectos deste «banzé escusado», como lhe chamou certeiramente um amigo, talvez seja melhor começar pela republicação dessa fatídica notinha que não chega, vejam bem, aos 2000 caracteres (nem sequer lhe consigo chamar recensão, quanto mais crítica):
Andar na rua com um pêlo na bocaUm homem cai para trás, fulminado por um raio. É este o símbolo da Livramento, uma editora recém-nascida que pretende marcar a diferença, no panorama sobrelotado das pequenas chancelas (quase sempre com dois sócios cheios de genica mas com pouco dinheiro), pelo arrojo do grafismo. Basta olhar para o rosa shock da capa do primeiro livro para perceber que é possível, afinal, encontrar volumes de poesia que prescindem, no frontispício, das cores neutras ou do inevitável quadro de Edward Hopper.
Estreia poética de Nuno Costa Santos, jornalista que já publicou uma colectânea de narrativas interligadas (Dez Regressos, Salamandra) e mantém um popular blogue de posts curtos (http://melancomico.blogspot.com), Os Dias Não Estão Para Isso diz ao que vem logo nas epígrafes: Fernando Assis Pacheco (“Peçam a grandiloquência a outros...”), Alexandre O’Neill (“...adoptemos o prosaico...”) e Raymond Carver (“Sentia-me esquisito, a andar pela rua com um pêlo dentro da boca”).
A partir destas três referências, NCS estrutura uma aproximação à poesia que é sempre uma forma de sabotagem da poesia (ou, pelo menos, sabotagem da sacralização do sublime que ainda é bastante notória em muita da produção contemporânea).
Nestes versos de um lirismo sempre irónico – e por vezes ingénuo – não há pose, não há verve, não há um rasto que seja de solenidade. Descrevendo aspectos da sua vida pessoal e da respiração do bairro onde vive, NCS assume como programa uma “tabela de ninharias”, onde o Fórum TSF, a fisioterapia das “veteranas senhoras”, a bica pingada e a sinusite coexistem com vislumbres da beleza escondida das coisas ou com a nostalgia da infância nas ilhas.
É uma escrita arriscada e desigual, no fio da navalha, por vezes excessivamente rasa. Quase poemas de um quase poeta capaz de versos completos. Como estes: “Lembra-te que na dúvida / as pessoas não amam.// Que antes da dúvida / há muitos territórios // e que nenhum deles é o amor”.
Os destaques a negrito dispensam, parece-me, mais comentários. Às outras questões da polémica regressarei logo que possa.
[Deste post será feita uma cópia, a papel-químico digital, para o blogue Aspirina B.]
Inspirado por uma personagem de Burgess, chegou ao balcão da pastelaria e pediu um copo de sumo de vaca.

No terceiro dos “quatro contos longos” que compõem Os Emigrantes, o narrador de W. G. Sebald procura descobrir os contornos da existência de Ambros Adelwarth (um obscuro tio-avô), através de minuciosas “investigações” biográficas que lhe consomem vários anos de pesquisa intermitente. É um trabalho ciclópico, feito de várias conversas com familiares próximos ou pessoas que o conheceram, da exumação de álbuns cheios de velhas fotografias e postais ilustrados, ou da exegese de um diário escrito por ele, em letra miudinha, num calendário de bolso para o ano 1913.
A dado momento, quase no fim da narrativa, o narrador – um ser esquivo que parece esconder-se sempre, de alguma maneira, nos meandros intrincados da escrita – encontra num asilo psiquiátrico de Ithaca (costa Leste dos Estados Unidos) uma resposta para o mistério daquele remoto parente que emigrou ainda novo para o outro lado do Atlântico, onde viria a ser mordomo exemplar da milionária família dos Solomon. Passeando pelos jardins do asilo, entretanto fechado, encontra por acaso um médico na reforma, Dr. Abramsky, antigo assistente de Fahnstock, o clínico que na década de 50 tratou Adelwarth com uma violentíssima terapia de electrochoques, revolucionária e desumana, que o levaria de resto à morte em poucos meses. Será Abramsky a recordar a docilidade de Adelwarth, vista por Fahnstock como prova da eficácia dos tratamentos, «quando na verdade, como já na altura comecei a desconfiar, ela se devia simplesmente ao desejo do seu tio-avô de extinguir em si próprio o mais profunda e irremediavelmente possível toda a capacidade de pensar e de recordar».
A escrita de W. G. Sebald, que se revelou como ficcionista em idade tardia, no início da década de 90, já com 47 anos (razão porque nos deixou apenas quatro obras narrativas – se podemos designar assim os seus livros híbridos – antes de morrer de ataque cardíaco, ao volante, em Dezembro de 2001), é uma escrita que vai num sentido oposto ao da sua trágica personagem. Em vez da aniquilação do pensamento e da memória, uma espécie de hipertrofia do raciocínio lógico e da capacidade de reflectir sobre o passado. Não num sentido nostálgico ou saudosista, mas antes obedecendo a um impulso que é simultaneamente ético e estético: o de iluminar factos que ficaram na sombra, esmagados pelo peso destruidor do tempo, bem como as figuras humanas, as palavras, as formas de ver o mundo que lhe estiveram associadas. Mais do que testemunhos, as histórias de Sebald, magnificamente arquitectadas e redigidas com uma elegância de outro século, são operações de resgate. Um resgate – subtil, doloroso, pessoalíssimo – do que se foi perdendo no pó da decadência.
Depois, há a extraordinária humildade desta voz que nos vai guiando; a nós, leitores perplexos. Seja na lenta viagem à infância obliterada, porque escondida, de um homem que resume os traumas e horrores do séc. XX (Austerlitz), seja na recuperação de quatro vidas exiladas (em Os Emigrantes), o narrador sebaldiano nunca sobressai, nunca se chega à frente, muito menos controla o rumo das suas derivas e deambulações. Há nele uma espécie de invisibilidade, de apagamento voluntário, como se o seu lugar fosse apenas o da escuta. Ele ouve e depois conta. Ele vê e depois descreve. Ele vive e depois recorda. Mas faz tudo isto excluindo-se do cenário, como se estivesse fora de campo – um termo particularmente adequado, se pensarmos nas fotografias (granulosas e sem legendas) por ele intercaladas no texto, às vezes de forma enigmática.
É como se a função primeira do narrador fosse a de organizar as «torrentes» da memória. A sua e a dos outros. Única forma de pôr a salvo o segredo do Dr. Henry Selwyn (sob a forma de um corpo fechado durante décadas num glaciar); ou o caminho tortuoso do professor Paul Bereyter até ao suicídio na via férrea; ou a infinita melancolia do tio-avô Adelwarth; ou a angústia do pintor Max Aurach, por ter sobrevivido, em criança, à II Grande Guerra, enquanto os pais desapareciam na voragem do terror nazi. É justamente Aurach quem resume o modo como essa sombra (o Holocausto, punctum oculto dos livros de Sebald) permanece para lá dos horizontes da História: «A dor moral é praticamente infinita. Quando se julga ter chegado ao último limite, há sempre novos tormentos. Vai-se de abismo em abismo».
[Texto publicado ontem, no suplemento 6.ª do Diário de Notícias]
Um homem parado na pista
Queria mexer os braços e as pernas e até ter um certo estilo a dançar mas sempre que punha a mão ao bolso tocava com os dedos na bomba para a asma.
Andar às codornizes
Acordávamos cedo, calçávamos as botas de cano e chamávamos o tonto do braque. Seguíamos depois em direcção à neblina dos campos de beterraba. Os dois amigos de infância do meu pai não nos conheciam como grandes caçadores. Isso pouco importava. Eles iam à frente. Nós andávamos às codornizes como quem aprende a caminhar lado a lado. A certa altura o meu pai dizia-me para disparar a espingarda. Não contra o voo de uma codorniz, anunciado pela pose estática do cão. Um tiro em frente, com o tilintar do sino da aldeia ao fundo.
[In Os dias não estão para isso, Livramento, 2005]
Numa aldeia desertificada, onde os "cachopos” já não correm pelas ruas, cinco personagens com mais de setenta anos tecem os fios do seu desamparo. Estão longe de tudo, presos a uma terra estéril, e aparentemente até o homem do peixe se esqueceu deles: «Deve pensar que já não merece a pena, que a gente já não come». Aos dois homens, sempre de volta da horta em que um deles "dispôs" umas favas, contando com a chuva que não virá, juntam-se três mulheres: a louca apaixonada, mais a sua cadela invisível; a avó que esteve fora mas regressou, por não se "dar bem" com a Inglaterra; e a bisbilhoteira profissional que repete, qual eco, o final das frases ditas pelos outros.
É este o universo de À Manhã, a peça de José Luís Peixoto que o Teatro Meridional estreia esta noite (21.00), no São Luiz, com encenação de Miguel Seabra e Natália Luiza. Convidado por Jorge Salavisa, responsável pela programação da sala lisboeta (e que desafiou igualmente outro jovem ficcionista, Gonçalo M. Tavares, a criar um texto original para a companhia Sensurround, de Lúcia Sigalho), Peixoto encarou o projecto como uma oportunidade de aperfeiçoar a sua escrita dramatúrgica e experimentar algumas «misturas improváveis».
A mais notória é o cruzamento – em cenário alentejano de cabeços e açudes, pilhas de cortiça e oliveiras "sem folhas" – da influência de dois autores maiores do teatro universal: Samuel Beckett e Anton Tchekhov. Ao primeiro foram roubados, de À Espera de Godot, os nomes das personagens masculinas (Ti Vlademiro e Ti Estragão); enquanto o segundo emprestou às velhas comadres os nomes das Três Irmãs (Olga, Macha e Irininha). Há aqui, evidentemente, um imenso potencial irónico e meta-literário que Peixoto explora sem trair o seu estilo, ao mesmo tempo que arrisca outra mistura improvável: a da velhice com «uma certa irresponsabilidade afectiva».
Será esta, de resto, uma das grandes surpresas do espectáculo. É que os velhotes de À Manhã, depois de se queixarem muito do frio e do abandono, entregam-se a sucessivos e elaborados jogos de sedução, com todo o tipo de assédios, "bocanços" (beijos na boca) e propostas para "fazer sexy". Uma verdadeira «comédia de desenganos», como lhe chama Natália Luíza, em que a ideia foi abordar, sem falsos pudores, esse «tabu social que é, ainda, o desejo dos idosos».
Miguel Seabra reconhece que a «vibração» da escrita habitual de Peixoto «não tem muito a ver com os nossos caminhos meridionais». Por isso, desafiou o autor de Uma Casa na Escuridão a procurar um registo de maior «leveza», onde pudessem caber a «claridade» e a «esperança». Para Natália Luiza, o resultado superou as expectativas. «Este é o seu texto mais luminoso, com um humor que vai desconcertar os leitores fiéis, mas sem nunca abdicar de uma enorme densidade humana. Ele consegue projectar-se muito bem nas personagens, como se fosse depositário da memória de muitas infâncias e de muitas velhices. No fundo, consegue ter, ao mesmo tempo, 31 [a idade real] e 88 anos».
Satisfeito com a cumplicidade que nasceu deste «encontro feliz», fruto de uma «sintonia rara» entre dramaturgo e encenadores, Miguel Seabra destaca ainda a riqueza vocabular do texto, que recupera muitos regionalismos alentejanos caídos em desuso. Expressões como "desencabecinar", "bochinha", "parodim espanhol", "espargates", "garganeiro" ou "esbornecado".
Trabalhar a linguagem da sua terra natal, tanto ao nível do léxico como das construções sintácticas, foi um exercício a que José Luís Peixoto se entregou com prazer. «Estas personagens, como aliás as do romance Nenhum Olhar, só podiam falar assim.» Por via das dúvidas, o programa do espectáculo incluirá um glossário com 47 palavras.
[Texto publicado ontem, na secção de Artes do Diário de Notícias]
Por favor, não abuses da palavra coração.
Navegando quase sempre sozinho desde 1953, julgo que para Cesariny a realidade da poesia está ligada à criação de um mundo do qual ela emite sinais que se desenham em filigrana, pela sua própria obscuridade, sobre a falsa claridade onde ainda nos atardamos. Trata-se, na verdade, de cada um interrogar a sua noite. A possibilidade de ver tudo está ligada a essa interrogação.
Poesia, de facto, para os surrealistas e para Cesariny, é aquela espécie de fio de Ariadne com uma ponta ao alcance da nossa mão, uma ponta que promete ajudar-nos a sair do labirinto. É poesia tudo o que nos "transtorna", todo o que nos "encanta". Libertada por este ângulo de visão insólito de todas as amarras tradicionais com problemas de expressão verbal e de perfeição formal (que Cesariny, aliás, domina perfeitamente, revelando profundo conhecimento das formas e dos modos da melhor poesia portuguesa), a poesia, que de súbito bizarramente se aventura até aos confins das preocupações de ordem propriamente mística, é o estado de graça, merecido por uma certa maneira de viver, que vem sublimar e transfigurar a vontade de nos arrancarmos à condição humana. No dicionário oculto do surrealismo, o seu nome verdadeiro é libertação.
[Fragmento de um texto de apoio, manuscrito e inédito, redigido por Ernesto Sampaio no Outono de 2001]
Isto.
Escrever isto.
Aqui.
Aguentar, de boca fechada, o clamor de uma estrela dentro da cabeça.

O ansiosamente esperado n.º 8 da aguasfurtadas, revista dirigida pelo Rui Manuel Amaral, está aí finalmente, apesar das muitas dificuldades com a distribuição. Façam o favor de se apropriarem de um exemplar (no mínimo) e de passar palavra a quem ainda não sabe.
[Os pedidos directos podem ser feitos para jup@jup.pt ou "aguasfurtadas", Rua Miguel Bombarda, 187, 4050-381 Porto.]
Título: Dar Lustro
Descritivo: Panos giros & panegíricos
Imagem do cabeçalho: não tem (só letras a negro sobre template dourado, muito brilhante)
Não posso prometer nada, mas talvez sim.

Retrato de André Breton (1934)
"L' écart absolu" – a separação absoluta – assim se chamava a última exposição internacional do surrealismo, organizada por André Breton em Paris, em 1965, pouco antes da sua morte (1966). Nesta derradeira manifestação pública a nível internacional, o surrealismo rompia definitivamente com uma arte e uma cultura absolutamente separadas da praxis vital dos homens. Não era apenas uma expressão artística precedente (um estilo) que era recusada, mas a totalidade da instituição arte na sua separação da vida. Os poetas mais ou menos ligados ao movimento compreenderam que o surrealismo ia fatalmente repercutir-se num plano que não era o seu: o da difusão fácil, da comunicação discursiva, do reconhecimento público, da seriedade, da cultura, do homem das multidões, o homem-massa devorado até à angústia pelo desejo de ser cada vez mais massivo. Esses poetas viam que o pensamento não pode delapidar-se em jaulas onde o pensamento não funciona; ele tem que ser protegido (ou ocultado, se preferem) como um bem precioso. Isso e a bancarrota fraudolenta, no plano social, das palavras liberdade e democracia, explica o meio silêncio – o silêncio quase absoluto, na verdade – a que a maioria dos maiores poetas se tem remetido nos últimos anos. O "pouco de realidade" (Introdução ao discurso sobre o pouco de realidade é o título de um dos livros de André Breton) torna-se cada vez mais débil neste fim ou começo de um mundo onde a poesia é uma categoria a destruir.
[Fragmento de um texto de apoio, manuscrito e inédito, redigido por Ernesto Sampaio no Outono de 2001]
O ensaio que Ezra Pound dedicou ao nosso grande poeta épico (Camões, agora reeditado pela Fenda) não é propriamente um modelo de precisão teórica. Como Stephen Wilson sublinha no posfácio, «o interesse deste artigo não reside naquilo que nos diz acerca do seu pretenso tema, (...) mas naquilo que nos diz acerca do seu autor, Pound». Dito de outro modo, há Luiz Vaz a menos e Ezra a mais.
Ainda assim, a leitura do opúsculo recomenda-se (são 15 minutos: o tempo de um café na esquina) nem que seja como forma de chegar à magnífica frase final: «A poesia é tanto uma "crítica da vida" quanto o ferro em brasa uma crítica do fogo».
Pela manhã, no ar muito frio, expirar nuvens pela boca.
Mais do que um post por dia, nem calculam o bem que me sabia.
Na última frase do primeiro "conto longo" de Os Emigrantes (Teorema), descobri uma daquelas expressões que nos acertam em cheio com a sua verdade, a sua exactidão. «(...) Passou por mim como a sombra de uma ave em pleno voo», diz o narrador. A sombra de uma ave em pleno voo. Coisa errante, bela, esquiva, sempre a escapar-se. Se me pedissem para definir a escrita de W. G. Sebald, talvez respondesse isso mesmo: «é como a sombra de uma ave em pleno voo». E o que não cabe nestas dez palavras, só cabe em dez mil.
O problema das deadlines é que umas vezes são um acicate e outras um garrote. Ultimamente, como decerto já compreenderam, têm sido mais garrote.
Na gíria dos jornais, às palavras sem sentido que os gráficos usam para definir um espaço na página, ou para medir as futuras linhas de uma notícia, chama-se texto cego. A mim parece-me uma definição optimista, porque parte do princípio de que os outros textos, os que acabam por ser impressos, são textos que vêem.
Sempre que me perco em deambulações pelas ruas de uma cidade desconhecida, sonho que sigo à distância, humilde, a sombra dos caminhantes que foram «ladrões diurnos»* do que há de esplendoroso no mundo: Jean-Jacques Rousseau, Charles Baudelaire, Robert Walser, W. G. Sebald.
* esta expressão é de Walser
Notícia de última hora: depois de Clara Ferreira Alves, que se demitiu na passada sexta-feira, Francisco José Viegas será o novo director da Casa Fernando Pessoa.

Às vezes pergunto-me: o que será feito de Hal Hartley?
Chame-se-lhe o surreal, o maravilhoso, ou dê-se-lhe não importa que outro nome (mas sempre tão longe da imanência como da transcendência), o desconhecido provoca provoca (quando é provocado) um conjunto não simultâneo de forças, um espaço de diferença e, para empregar as palavras da primeira obra surrealista, um campo magnético. O surrealismo afirma que este espaço múltiplo não se deixa unificar. Ora, o que é próprio do grupo surrealista, o que outros grupos não têm, é ser a vários, não para realizar alguma coisa, ou para defender em comum uma fé, um ideal, um trabalho, mas somente para fazer existir o plural, dando-lhe um sentido novo, no mais profundo da aspiração surrealista, na sua mais forte ideia-limite que nenhum "eu" é capaz de conter.
[Fragmento de um texto de apoio, manuscrito e inédito, redigido por Ernesto Sampaio no Outono de 2001]
No post anterior desta série, são evocados os encontros semanais que mantive com Ernesto Sampaio durante os meses de Setembro e Outubro de 2001. Havia qualquer coisa de ritual iniciático naqueles encontros: a hora certa (meio-dia, com o sol no zénite), a esplanada do Jardim da Estrela, a rocha negra. E também qualquer coisa de clandestino. Enquanto bebíamos café, ele passava-me as tais dezenas de folhas manuscritas, papéis de fina gramagem que a sua caligrafia, muito arredondada, invadia de forma metódica, perfazendo para quem a lesse uma mancha gráfica ordenada e sóbria. Ele passava-me as folhas dentro de uma capa plastificada, com ar conspirativo, como se atrás das árvores que rodeiam o lago pudesse estar escondido um qualquer agente da PIDE.
Foram essas páginas que redescobri agora, ao arrumar dossiers. As anotações de Sampaio para um documentário sobre Cesariny que nunca se chegou a concluir. Uma abordagem teórica ao Surrealismo, aos seus princípios, à sua história. Fragmentos escritos para serem partilhados com um rapaz jornalista, sem outro fim que não fosse o de iluminar essa liberdade absoluta que Breton & Cia. procuravam.
Agora que ando embrenhado em rememorações ernestinas, acho-me no dever de partilhar com os leitores da Invenção de Morel alguns destes pensamentos fragmentários do autor de Ideias Lebres, pequenas pérolas que não foram escritas para serem publicadas mas que constituem, parece-me, breves lampejos da grandeza de um homem extraordinariamente erudito e extraordinariamente generoso. Lidos hoje, vejo-os como posts. E é como posts que os publicarei, em itálico e com melancolia.
Talvez não tenha sido por acaso que lembrei, logo hoje, dois textos que publiquei no DNA há mais de quatro anos. Foi no DNA que me tornei verdadeiramente jornalista. Foi no DNA que aprendi os êxtases da profissão, as arrelias da profissão, os lados luminosos e sombrios da profissão. Foi no DNA que me tornei verdadeiramente editor, fiel depositário dos textos de outros, atento caçador de gralhas e erros de concordância, chato de serviço quando as coisas não batem certo. Foi no DNA que experimentei tudo o que noutros lados não poderia experimentar. Foi no DNA que conheci alguns dos melhores repórteres, escritores e fotógrafos da imprensa portuguesa. Foi no DNA que me convenci de que hei-de escrever até ao último dos meus dias: escrever em jornais, em blogues, em guardanapos de papel, tanto faz. Porque escrever é, profissionalmente, a minha única meta, a minha única aspiração.
Hoje o DNA morreu. Como todos os suplementos de jornal, era efémero. E durou, mesmo assim, uma eternidade (nove anos). Hoje morreu. Não interessa dizer porquê. Morreu. E eu escondo a tristeza, agradecendo publicamente ao Pedro Rolo Duarte, que me convidou há cinco anos para ser editor-adjunto, e a todos aqueles que fizeram do DNA, tantas vezes, o mais livre e entusiasmante dos projectos jornalísticos.
No dia 15 de Dezembro de 2001, publiquei no DNa este texto in memoriam:
Ernesto
Foi jornalista, tradutor, crítico literário, poeta. Chamava-se Ernesto Sampaio. Era um homem discreto, um pensador lúcido, um surrealista que nunca deixou de o ser. Durante quarenta anos, viveu o amor absoluto com Fernanda Alves – «l’amour fou» que o transformou, após a morte da actriz, num «sonâmbulo» e numa «sombra». Morreu na semana passada, em Lisboa, de tristeza e solidão
Eu li a notícia no Público. Assim, brutal: «O corpo de Ernesto Sampaio foi encontrado sem vida, há dois dias, na sua casa de Lisboa». Não me lembro do resto do texto, só me lembro disto. A morte, esse escândalo cruel, a caber numa frase. A morte. A tua morte. A involuntária despedida. Assim, com um jornal nas mãos. A notícia a ser lâmina, a notícia a ser golpe feito de palavras. E, a ilustrá-la, uma fotografia: tu abraçado à Fernanda no tempo em que ainda estavam juntos e eram felizes. A imagem, belíssima, em que ela sorri imenso e tu já apareces como que turvado por uma secreta melancolia.
* * *
Há muitos anos, participaste num debate sobre dramaturgia, no Teatro de Almada. Foi a primeira vez que te vi. Conhecia alguns dos teus textos. Não conhecia o teu rosto nem a tua voz. E então começaste a falar. Primeiro, havia um silêncio. Depois, as palavras saíam num fluxo contínuo, com uma inteligência e um rigor espantosos. À saída, lembro-me de comentar com o meu irmão que falavas como quem escreve. Sem hesitações, sem gaguejos, sem quebras. Soube, logo ali, que pertencias à estirpe rara dos homens que nunca deixam de pensar. Mais tarde, descobri que também pertencias a outra estirpe igualmente rara: a dos homens que nunca deixam de sentir.
* * *
Isto que vou dizer é uma evidência. A tua morte começou no dia em que a Fernanda Alves morreu. Desde esse dia, em Janeiro de 2000, começaste a morrer aos poucos. Está tudo no teu último livro: Fernanda. A dor, o desespero, a cólera, o remorso. As tardes fechadas, o tempo inútil a crescer como um deserto, os muitos vazios. O abismo da solidão. A renúncia. O corte em relação a tudo o que pertence a este mundo. A memória como último refúgio. Uma «existência quase póstuma, à margem da verdadeira vida». Está tudo no teu livro, esse poema feito de fragmentos. No teu livro que eras tu. Espelho partido. Cidade em ruínas.
* * *
Releio o livro. Digo alto: «Fernanda». Reencontro a epígrafe da Divina Comédia (Inferno, V). Em italiano, para não perder a música da língua. Digo alto: «Nessun maggior dolore che ricordarsi del tempo felice nella miseria». É isso o teu livro: a dor de recordar, na miséria, tempos felizes. A dor de viver no inferno, «pois inferno é a ausência de quem amamos». Repetir uma história antiga: Dante sem Beatriz, Orfeu sem Eurídice.
***
Os acasos da vida fizeram com que nos cruzássemos, no final do verão passado. Durante dois meses, unimos esforços em torno de um mesmo projecto. Várias vezes por semana, sempre ao meio-dia, reuníamos na esplanada do Jardim da Estrela, o teu poiso preferido nesta Lisboa em que os antigos cafés dos surrealistas – o Royal, o Gelo, o Herminius – foram sendo transformados em bancos e restaurantes de fast-food. Eu chegava sempre ligeiramente atrasado e tu estavas sempre lá, na primeira das mesas verdes do lado esquerdo, junto a uma rocha negra. Entregavas-me dezenas de folhas manuscritas e depois falávamos sobre o surrealismo e, dentro dele, o Cesariny ou o Breton. Nos teus olhos renasciam brilhos antigos e eu convocava, embevecido, o teu saber e as tuas memórias. Havia, entre os dois, algo mais do que respeito mútuo e interesses comuns. Gosto de pensar que era afecto. Uma espécie de cumplicidade subterrânea e silenciosa. Mesmo quando nos tratávamos por você, já nos tratávamos por tu.
* * *
Releio Fernanda. Redescubro frases que sublinhei da primeira vez. Como estas. «É a minha Fernanda viva que recordo e abraço, (…) a sua ternura radiosa (…), esta luz na minha vida, este grande clarão dourado.» «Estou quase a cair, posso desabar a qualquer momento. Não quero que me vejas cair. Já não sinto o meu eu, o meu peso. Perco o equilíbrio, flutuo. Eras tu a gravitação da terra e do céu, e anulaste-as…». «A meio caminho dos vivos e dos mortos, e mais próximo destes, sinto por vezes uma singular quietude. Se morrer assim, será com a certeza de que a Fernanda me espera de braços abertos.»
* * *
Encontraram-te entre o quarto e a casa de banho. Imagino a tua morte na noite escura, o silêncio da casa, a aflição dos animais. «A minha duração não tem sentido perante estas fotografias que nos mostram abraçados, ninguém, se alguma coisa me acontecer, virá procurar-me ao mausoléu em que se transformou a nossa casa.»
* * *
Fizeram-te uma autópsia que talvez esclareça o porquê da desistência do teu corpo. Mas, no momento em que escrevo, ainda não se conhecem quaisquer resultados. Vasco Santos, teu editor e teu amigo, diz-me ao telefone que deve ter sido o coração. Tão óbvio, não é? O Mário Cesariny, do alto da sua sabedoria de poeta iluminado, disse precisamente a mesma coisa: «[Ernesto Sampaio] é a única pessoa que conheço que morreu de amor».
* * *
Três versos soltos sobre a Fernanda: «Já se perde/ Na corrente fortíssima/ A luz dos teus olhos».
* * *
Disseste que os teus pais e todas as pessoas que te tocaram «partiram fechadas no seu segredo». Penso nisso agora, enquanto recordo a tua aura de mistério, o teu perfil de outro século. A barba muito espessa, os olhos muito abertos, os dentes amarelos da nicotina, o rosto com as marcas do tempo e da inquietação. Havia no teu silêncio um território inacessível aos outros. Também tu morreste fechado no teu segredo.
* * *
Pergunto-me: se não tivesse devolvido o livro com reproduções dos quadros de Victor Brauner, a quem o entregaria agora?
* * *
Mais algumas frases sublinhadas. «É para um céu vazio que ergo os meus olhos e as minhas mãos. Adeus, luz que giravas sobre o mundo.» «Estar vivo é acordar todas as manhãs no inferno, viver rodeado de rumores estranhos à minha preocupação secreta, longe do meu amor morto, do meu sol que quanto mais brilha, mais escura vai tornando a minha sombra.»
* * *
Regressei hoje ao Jardim da Estrela. O céu cinzento, nuvens baças, chuva miudinha. No chão, folhas castanhas, folhas mortas. A esplanada vazia. A mesa verde, junto à rocha negra, vazia. Não há palavras que nos salvem deste silêncio, desta ausência. É tão difícil, Ernesto, dizer adeus.

A imagem central, onde nasce a explicação de tudo.
Uma das vantagens de ter um blogue é esta: recuperar textos que amarelecem em páginas antigas (e efémeras) dos jornais, textos que existiram durante um momento e depois se eclipsaram debaixo do peso imenso dos anos que passam. Como esta crítica que escrevi sobre a primeira edição de Fernanda (chancela da Fenda; preço: 1575$00), no n.º 218 do suplemento DNa, do Diário de Notícias, em 3 de Fevereiro de 2001:

Um rosto na ausência
É preciso começar pelas fotografias. Primeiro a da capa: um rosto belíssimo, sereno e luminoso, abraçado pelas trevas. Depois as de uma mulher em cena: o corpo a ser um furacão de gestos para as palavras que não se ouvem. Ainda as da intimidade: a mesma mulher debruçando-se sobre uma mesa com copos e papéis (almoço de verão?), mais o sorriso de olhos fechados e o cigarro entre os dedos; ou então ela, furtiva, a espreitar na ombreira de uma porta; ou apertando um ramo de flores contra o horizonte. E há a imagem central, aquela onde nasce a explicação de tudo: um homem triste (ou talvez apenas melancólico) que abraça, por trás, a mulher das outras fotografias. A mulher sorri um sorriso muito aberto. O homem agarra-a com firmeza, como se já temesse perdê-la um dia. O homem é Ernesto Sampaio, poeta, ensaísta, tradutor. Fernanda é o livro que ele escreveu para tentar preencher a ausência dela.
Um dia, no princípio do ano 2000, Fernanda Alves estava no Porto, a trabalhar numa peça de Gil Vicente em que representava o papel do Anjo. Os anjos, se existem, gostaram tanto dela que a vieram buscar, assim sem aviso. E ela morreu, como um relâmpago que se extingue num céu sem nuvens. Ernesto Sampaio estava longe e não se perdoa por isso, por não ter estado lá, por «ter deixado a Fernanda morrer só». Além do vazio, ficou o remorso. E uma dor infinita, sem regresso, um buraco negro dentro do coração, a resistir ao tempo e ao esquecimento.
É essa dor que empurra Ernesto Sampaio para dentro de si mesmo, para dentro da escrita: «Quando a memória nos cai em cima como um dilúvio, quando o passado nos submerge e afoga, estamos perdidos. Sobrevivemos entre sombras, somos almas penadas, entregues ao desespero e à cólera. Vivemos no inferno, pois inferno é a ausência de quem amamos. É disso que este livro trata. Disso e da passagem da saudade à solidão» (pág. 10). Não por acaso, uma das epígrafes de Fernanda foi retirada do Inferno (Canto V) da Divina Comédia: «Nessun maggior dolore che ricordarsi del tempo felice nella miseria». É óbvio que Sampaio não é Dante Alighieri, nem há um Virgílio a guiá-lo através dos nove círculos infernais, nem Fernanda é Beatriz — essa outra espécie de anjo que esperava o poeta nas portas do Céu. Não há aqui um fôlego épico, nem versos simétricos, nem terza rima. Mas há uma «selva oscura»: a tal dor maior, a «recordação dos tempos felizes» que atravessa cada frase deste livro, como um eco a pairar sobre o texto, como um lastro de sofrimento que impõe a sua sombra para sempre.
Autor de muitas obras difíceis de classificar, que oscilam entre a prosa e a poesia, o ensaio e a provocação intelectual (é o caso de Feriados Nacionais e Ideias Lebres, ambos de 1999), Ernesto Sampaio fez de Fernanda um objecto singular, um work in progress onde cabe tudo: imagens, lamentações, memórias, versos, pequenas narrativas, coisas ditas há muito tempo, possíveis entradas de um diário, apontamentos biográficos, excertos de entrevista, declarações de amor. São fragmentos magníficos, estilhaços de um espelho partido à procura da imagem que um dia neles se reflectiu. E são, postos assim em página, um acto de coragem. Porque Ernesto Sampaio não quer saber das convenções: arrisca, abre a porta da sua vida, expõe-se completamente. Ele está ali, naquelas palavras, em carne viva. E nós sentimos, com ele, o que é o abandono, a angústia, a «não-esperança». Conseguir fazer tudo isto com uma espécie de recato ou pudor (que nos aproxima sem nos tornar voyeurs), é quase prodigioso — numa época em que os sentimentos se banalizam e assistimos às mais rebuscadas formas de strip-tease emocional, sobretudo na TV.
Além do remorso («Eu devia ter amado muito mais a Fernanda»), há uma ideia que percorre as primeiras páginas: o espanto de ter sido amado, tão intensamente, por aquela mulher. Logo ele, que seguiu sempre um rumo de contínuo regresso a si próprio, estendendo à sua volta um «mar dos Sargaços», caminhando pela vida como um «sonâmbulo». «Como pôde a Fernanda (...) viver quarenta anos com um homem que passava o tempo a fugir do tempo?» (pág. 12). É como se ele não merecesse tamanha bênção, não merecesse esta mulher de «ternura radiosa». Ela, a única pessoa capaz de o convencer de que o mundo não é um lugar «irrespirável». Ela, a «alma e o corpo» dessa unidade que os dois formavam (como lhes disse Isabel de Castro, numa carta). Sem se poupar, Sampaio confessa: «Eu podia entregar-me às minhas manias, não querer saber de nada nem de ninguém, afastar-me, isolar-me: tinha-a a ela, que era tudo, e agora não tenho nada».
Mas Fernanda — «esta luz da minha vida, este grande clarão dourado» — permanece de outras formas. Não é só uma ideia abstracta, um rosto brilhando na memória, é muito mais do que isso. É o ponto de fuga que resgata um amante de um quotidiano agora sombrio: «Sobre a reverberação das luzes dos aeroportos, nas intermináveis auto-estradas, de olhos fixos no mar, debaixo destas palmeiras, nestes museus, nestas esplanadas, ela lá está, por momentos apaga tudo, só a vejo a ela, sou aspirado até ela pela ferida que se abre em mim: inolvidável, intransponível, esse rasgão não me deixa fundir com a pele do mundo» (pág. 15).
Desta impossibilidade de reconciliação com o que ficou depois da morte, nasce um desencanto que contamina todas as coisas. Olhando à volta, só se vêem escombros. «Dir-se-ia que a morte de Fernanda arrasou a cidade: só lhe resta o traçado, fragmentos de paredes, ervas bravas. Parece Pompeia» (pág. 17). Por todo o lado nascem urtigas, alastram pântanos, cresce o cerco das areias movediças. As tardes são muros, os dias passam como nuvens. E o escritor desliga-se dos objectos, das paisagens e sobretudo das pessoas, «fechadas nos seus segredos» (mesmo as mais íntimas, mesmo as mais próximas). Condenado a uma «espécie de opróbrio», a uma «existência quase póstuma», Sampaio ganha a consciência de que «o nosso tempo passou» e de que «não é morrer que espanta, mas viver ainda». Posta lá no alto, a amada continua a ser uma espécie de sol. O «sol que quanto mais brilha, mais escura vai tornando a minha sombra» (pág. 60).
Fernanda Alves é o verdadeiro centro de gravidade deste texto. O seu rosto, o seu olhar, as suas palavras, a sua aura. Os seus gestos, a sua maneira de ser, a sua generosidade, até os seus comentários (reflexões sobre o trabalho do actor, alguns aforismos). E a sua voz, ouvida no gravador como se fosse um caminho para o outro lado («Essa voz é o poente, / Cobre-me com os últimos raios de luz / Como o sol faz aos choupos e às montanhas», pág. 39). Mesmo quando a prosa irradia noutras direcções, mesmo quando os poemas abrem clareiras cheias de símbolos, é sempre Fernanda que aparece, à transparência. E sempre a solidão. Até nos sonhos: «Nestes últimos anos, perseguiu-me um sonho recorrente: caminhava cego e a Fernanda dava-me a mão e guiava-me; desde que morreu, continuo a sonhar que caminho às cegas, mas ela desapareceu do sonho» (pág. 47).
Neste universo hermeticamente fechado sobre si mesmo, nada separa o dia da noite e a vida da morte. O escritor evolui num «espaço de sombras», luta contra o absurdo de um tempo que perdeu o sentido e lambe feridas impossíveis de sarar. Como ele próprio admite, está «a meio caminho dos vivos e dos mortos, e mais próximo destes». O cansaço é enorme, o desânimo avassalador; a vontade de lhes resistir, quase nenhuma. «Posso desabar a qualquer momento», escreve. Mas essa ruína é acompanhada de uma forma de vergonha quase infantil: «Não quero que me vejas cair. Já não sinto o meu eu, o meu peso. Perco o equilíbrio, flutuo. Eras tu a gravitação da terra e do céu, e anulaste-as...» (pág. 41).
A morte devora tudo menos o amor. O amor, a memória, as fotografias. «Nas fotografias que vou arrumando, tenho-a ao correr do tempo, desde a infância até ao seu último verão. Sigo-a de idade em idade, idêntica e sempre diferente, símbolo da mudança e da permanência, do devir incessante, até ao fim, ao apagar-se, à última página onde não há mais nada, onde nenhuma imagem pode ser acrescentada. Ali onde estava o seu corpo é o vazio que o meu olhar, a minha mão podem atravessar; onde ressoava o seu riso há agora o silêncio» (pág. 73).
Voltamos à imagem inicial: o homem que abraça, por trás, a mulher que ama e teme perder. Está triste — ou pelo menos melancólico. Talvez por não saber ainda que aquela mulher, aquele sorriso, aquela «luz» que girava sobre o mundo, viria a ser a inspiração para um dos livros mais belos (e terríveis) que se publicaram em Portugal nos últimos anos. Um livro de paixão, luto e despedida. «Por vezes lembro-me do amor, e pergunto-me o que é. Só me resta o teu nome, Fernanda, e a vaga ideia de um crime que nos fez entrar numa imunda elipse e nos expulsou do imenso jogo de viver e amar» (pág. 76).
Faz hoje precisamente seis anos que morreu a actriz Fernanda Alves.
Faz hoje precisamente seis anos que o ensaísta Ernesto Sampaio, surrealista que lhe dedicou um amour fou digno de Breton, começou a morrer lentamente, afundado na tristeza, na saudade e na solidão.
Do Ernesto disse o Mário Cesariny: «É a única pessoa que conheço que morreu de amor». A frase não é nenhuma hipérbole, não há nela qualquer espécie de liberdade poética. Leiam Fernanda e perceberão porquê.
«Tinhas os olhos fechados e o mesmo sorriso — um pouco triste — de sempre. Estavas bela, muito bela. Morta? Adormecida? Nunca tão bela...
O verdadeiro brasão de cada um é o rosto.
No rosto lê-se todo o corpo.»
[in Fernanda, de Ernesto Sampaio, Fenda, segunda edição, 2005]
Título: Jukebox
Descritivo: Discos de vinil, amores antigos, bares cheios de fumo
Imagem do cabeçalho:

Quarenta anos antes de 2046, Wong Kar Wai prepara-se para ser presidente do júri no Festival.
Seu ciclóstomo de boca quadrada!

Parece que riu muito antes de se apagar de vez, o «poeta nocturno». Por mim, vejo nessa gargalhada final apenas a lucidez extrema dos loucos. A morte aproximou-se, solene. E ele fez pouco dela, cara a cara.

António Gancho fotografado por Miguel Carvalhais
TU ÉS MORTAL
Tu és mortal meu filho
isto que um dia a morte te virá buscar
e tu não mais serás que um grão de milho
para a morte debicar
Tu és mortal anjo
tu és mortal meu amor
isto que um dia a morte virá de banjo
insinuar-se-te senhor
É-se mortal meu Deus
tu és mortal meu Deus
isto que um dia a morte há-de descer
ao comprimento dos céus
[in A Loucura, n.º 6 da revista Alma Azul, Abril de 2002]

«Precisa-se empregada com conhecimento de artigos místicos»

Hoje, dia de aniversário de Louis Braille, o cabeçalho do Google lê-se com os dedos.
«Em frente do lugar onde o teu belo corpo se sumiu na terra desconhecida, há uma árvore que retém entre as folhas o murmúrio dourado de uma luz de passagem. Só aqui reina a paz, sobre os ossários e sobre as pedras, onde ninguém pode separar o fogo das cinzas e o riso do pó.
Oferenda à pobre morta: um único pé de junco trémulo apanhado à beira de águas rápidas; uma única palavra pronunciada para ela, devolvendo-lhe o ar que me dava para eu respirar; uma recordação de luz perdida. Possam estas leves ofertas abrir-lhe o espaço sem espaço onde o sofrimento se apaga, e brilhe alta, inaudita, a claridade sem claridade da inimaginável face.»
[in Fernanda, de Ernesto Sampaio, Fenda, segunda edição, 2005]

Fotografia de Manuel Deniz Silva
Sempre gostei de poetas com capacidade de auto-ironia. Por exemplo, Manuel de Freitas, no seu último livrinho (A Flor dos Terramotos, Averno), coloca estes versos no final de um poema sobre a morte e a forma como a vivem três velhas viúvas, poema em que a tarde se condensa «numa garrafa vazia»:
Estão a perceber agora
por que é que eu gosto tanto
de tabernas?
Logo depois, a coda acentua ainda mais o efeito irónico:
(Não respondam; o poema termina aqui,
porque a Dona Joana tem de ir ao oculista.)

As Musas Inquietantes (1916)
Aconteceu a um dos meus melhores amigos.
Era meia-noite em ponto de 31 de Dezembro, pessoas aos gritos na casa ao lado, rolhas de champanhe a bater no tecto, flûtes a tilintar, passas garganta abaixo, mensagens de SMS a entupir o éter, toda a gente cedendo ao ritual do novo ano cheio de possibilidades (uma ilusão), e ele em frente ao ecrã luminoso do computador portátil, headphones do iPod a isolarem-no do mundo, mergulhado na solitária arte de encontrar o melhor caminho para uma frase.
Ou seja: como se não bastasse ter passado o ano a escrever, ele também passou o ano a escrever. Quem me dera.
Já está on-line o relato da última sessão do É a Cultura, Estúpido!.
O João Luís Barreto Guimarães regressa à blogosfera com um work in progress «principalmente sobre poesia».
É caso para lançar foguetes? É. [Leiam e perceberão porquê.]
Pela minha parte, desde já me declaro cliente habitual da empresa, ilimitada como convém, à qual exigirei factura a partir do montante de 9,98 versos.
Título: HAL9000
Descritivo: Crónicas do ciberespaço
Imagem do cabeçalho:

«E agora? Falando destas coisas passadas, de todas estas ilusões apanhadas ao acaso, deste rol de frases grotescas em forma de lebres mortas outrora vivas, não era má ideia acender a lareira com livros, só por alguns momentos, se de repente fizesse frio a sério, para ver alguma coisa brilhar, para pôr as sombras a dançar — uma fogueira como uma gargalhada breve à custa destas peles de coelho nas árvores. Para poder escrever agora, ei-la, eis a minha página em forma de coração empalhado.»
[in Fernanda, de Ernesto Sampaio, Fenda, segunda edição, 2005]

Fotografia de Manuel Deniz Silva
Foi há três anos que tudo começou, aqui.
1. O nascimento da Alice (11/2)
2. Todos os gestos, olhares, gargalhadas, choros, fomes, balbucios, abraços, quase-palavras, biberons, passeios, banhos, sonos, dentes, crescimentos, alegrias e meiguices da menina mais bonita do mundo
3. Amor, amizades & etc.
4. Uma boa nova (profissional) ao cair do pano
5. Isto dos blogues, agora no plural
1. Dias Felizes
2. Seta Despedida
3. bombyx mori
4. A Natureza do Mal (III)
5. Da Literatura
6. Um blogue sobre Kleist
7. Fora do Mundo
8. Melancómico
9. Educação Sentimental
10. A causa foi modificada
11. Prazeres Minúsculos
12. Agridoce
13. Solvstäg
14. A Origem das Espécies
15. A Voz do Deserto
16. Welcome to Elsinore
17. Azeite & Azia
18. Bandeira ao Vento
19. Sound + Vision
20. Três Pastelinhos
1. Os Emigrantes, W. G. Sebald, Teorema
2. Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis, Cotovia
3. Paris Nunca se Acaba, Enrique Vila-Matas, Teorema
4. Um acontecimento na ponte de Owl Creek, Ambrose Bierce, Assírio & Alvim
5. A Voz Secreta das Mulheres Afegãs, Sayd Bahodine Majrouh, Cavalo de Ferro
6. A Misteriosa Chama da Princesa Luana, Umberto Eco, Difel
7. O Galo de Ouro, Juan Rulfo, Cavalo de Ferro
8. Últimos Cigarros, Italo Svevo, 101 Noites
9. À Espera no Centeio, J. D. Salinger, Difel
10. A Anestética da Arquitectura, Neil Leach, Antígona
1. Bastardia, Hélia Correia, Relógio d'Água
2. A Última Obra-Prima de Aaron Slobodj, José Carlos Fernandes, Devir
3. Requiem, Jorge Gomes Miranda, Assírio & Alvim
4. Jerusalém, Gonçalo M. Tavares, Caminho
5. Aqui vem o Sol, Alexandre Andrade, Quasi
6. O pequeno livro do Grande Terramoto, Rui Tavares, Tinta da China
7. Sol a Sol, Armando Silva Carvalho, Assírio & Alvim
8. Memórias de um craque, Fernando Assis Pacheco, Assírio & Alvim
9. Longe da Aldeia, Rui Pires Cabral, Averno
10. As Ruínas Circulares, João Pedro da Costa, Leiturascom.net
1. Aurora, F. W. Murnau (1927, reposição)
2. Saraband, Ingmar Bergman
3. A Rapariga Santa, Lucrecia Martel
4. A Nossa Música, Jean-Luc Godard
5. Alice, Marco Martins
6. Flores Partidas, Jim Jarmush
7. A Noiva Cadáver, Tim Burton
8. Temporada de Patos, Fernando Eimbcke
9. Colisão, Paul Haggis
10. Wallace & Gromit: A Maldição do Coelhomem, Nick Park
[Este foi, pelas melhores razões, o ano em que menos frequentei os cinemas. Não por acaso, quatro dos filmes desta lista ou estrearam antes de 11 de Fevereiro (Saraband e A Nossa Música) ou já os tinha visto na edição de 2004 do Indie Lisboa (A Rapariga Santa e Temporada de Patos). Espero ainda ir a tempo de descobrir alguns dos filmes que estão em cartaz e que poderiam, imagino, constar da lista: Reis e Rainha, de Arnaud Desplechin; Odete, de João Pedro Rodrigues; e O Pesadelo de Darwin, de Hubert Sauper.]

Seguir em frente, passo a passo.
[Alberto Giacometti fotografado no seu atelier, em 1961, por Henri Cartier-Bresson. Do lado esquerdo, pode ver-se uma das obras mais célebres do escultor: L' homme qui marche.]