PORQUE ARDERAM CARROS EM PARIS?

Em torno desta pergunta — levantada insistentemente há pouco mais de um mês, quando os motins nos subúrbios da capital francesa provocaram o espanto da Europa e do mundo — digladiaram-se as mais contraditórias teses. Dos cenários dantescos que vêem na imigração a raiz de todos os males à sociologia barata de alguns cronistas (capazes de desculpar o indesculpável, como o incêndio de bibliotecas e creches, sempre à luz dos traumas da exclusão), houve matéria para todos os exageros, relativismos e cortinas de fumo.
A verdade é que o problema não cabe na evidência simples que a lógica dos soundbytes exige. O que se passou nos bairros sociais parisienses não foi uma Intifada nem um epifenómeno menor — foi antes o afloramento de uma realidade que tendemos a esconder debaixo do tapete, um sinal das tensões que persistem nas sociedades ocidentais mais desenvolvidas, à espera de rebentar. Esquecer isto, quando a revolta começa a desaparecer das agendas mediáticas, seria um erro crasso.
Publicado pouco antes da explosão da "bomba social" francesa, como que antecipando-a, Caminhos para a Integração — Condições de vida, aspirações e identidades de jovens descendentes de famílias imigrantes na Europa (editora 90º) recolhe textos apresentados num colóquio internacional, em 2003, e o mínimo que se pode dizer é que o diagnóstico do problema há muito que estava feito. A ilustrar esta obra necessária, imagens de um ateliê fotográfico realizado com jovens de bairros difíceis da periferia de Lisboa (Cova da Moura, Fontainhas, Bobadela).
[Apontamento publicado na edição de ontem do Diário de Notícias]
Comments
Ontem em Paris, hoje na Austrália... O mundo parece em ebulição e prestes a transbordar... O primeiro mundo invadido por hostes famintas, tornandas esfomeadas nos seus países de origem por uma globalização implacável e cega. De certo modo, os países desenvolvidos pagam hoje o preço de décadas de subdesenvolvimento nas suas ex-colónias, e da subalternização das economias desses países (preços baixos de matérias primas) em favor das economias mais desenvolvidas...
E é só o começo... Ontem em Paris, hoje na Austrália... Amanhã? Lisboa?
Posted by: Rui Martins | dezembro 13, 2005 07:58 PM
Para quem como eu vive em Paris o problema do "esconder debaixo do tapete" é assunto desconhecido, contudo, não será demais mencionar que o problema aqui pouco é divulgado, a imprensa por cá também não é sensionalista como a portuguesa e, por exemplo, no auge dos "conflitos" os telejornais não perdiam mais de 4 ou 5 minutos no tema. Embora chegasse a ver duas viaturas em chamas, uma a poucas dezenas de metros da casa de uns amigos onde jantava nessa noite, só percebi as reais proporções do que se estava a passar ao ver as noticias portuguesas. No entanto, sei que em Portugal não existe qualquer tipo de semelhança com o que aqui se passa e deu-se a entender uma rebelia e uma insegurança maior do que realmente é. O problema é grave e todos o sabem, mas porque se foram criando bairros sociais que hoje albergam mais gente que a maioria das cidades portuguesas, há que olhar para isto com olhos de ver e perceber o erro cometido pelos franceses.
Posted by: Patrique | dezembro 14, 2005 12:44 PM