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MILAGRE

«As aulas que Paul nos deu abarcavam todo o programa das escolas primárias da época, tabuada da multiplicação, bases de aritmética, escrita do alemão e do latim, ciências naturais, história pátria, canto e a chamada educação física. Mas o ensino da religião não era feito por Paul: íamos uma vez por semana ao cicioso catequista Meier, com e-i, depois ao prebendado Meyer, com e-y, de voz tonitruante que nos apresentou a confissão, o credo, o calendário litúrgico, os sete pecados mortais e esse género de coisas. Paul, sobre quem corria o boato, para mim incompreensível, de que era crente a seu modo, esforçava-se por evitar encontrar, no princípio ou no fim da hora de religião, o Meyer-y, pois bem se via que nada lhe repugnava mais do que a beatice católica. E quando, terminada a aula de religião, voltava para a sua sala e encontrava no quadro um altar do Advento desenhado a giz lilás, uma custódia vermelha e amarela ou outra coisa desse género, punha-se acto contínuo a apagar estas obras de arte com ostensiva veemência e zelo. A pia de água benta em forma de coração de Jesus ardente que havia junto à porta, enchia-a Paul, tive muitas ocasiões de ver, imediatamente antes da hora de religião, até cima, com o regador que servia habitualmente para os vasos de gerânios. Por isso o prebendado nunca chegou a usar o frasco de água benta que trazia sempre na sua mala de pele de porco preta e lustrosa. Esvaziar sem mais a pia cheia a rasar era coisa que não ousava e por isso não tinha nenhuma explicação plausível para dar àquele Sagrado Coração aparentemente inexaurível, entre a presunção de uma maldade sistemática e a vaga esperança intermitente de poder tratar-se de um sinal vindo do céu ou mesmo de um milagre.»

[in Os Emigrantes, de W. G. Sebald, trad. Telma Costa, Teorema, 2005]

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