2005

Ferrugem num portão abandonado da Rua Damasceno Monteiro, em Lisboa.
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Ferrugem num portão abandonado da Rua Damasceno Monteiro, em Lisboa.
Deixar para amanhã o que tinha pensado fazer hoje.
Não é crime, pois não?
Publicidade institucional: A Invenção de Morel, blogue em marfinite de alta qualidade, pintado e decorado à mão por um só artista.

A maior de todas as ficções: o Tempo.
Alegria da escrita.
O possível perdurar.
Vingança da mão mortal.
[in Paisagem com Grão de Areia, trad. Júlio Sousa Gomes, Relógio d'Água]
E de repente, no último dia útil do ano, acertou-se o futuro que era incerto.

Lisboa em baixa resolução: [Arrenda-se/Aprenda-se]
Quando visito este blogue, em vão, apetece-me tanto carregar na tecla PLAY. Está quase, Alexandra, não está?
Pedro Lomba, back to the old days.
Título: Sturm und Drang
Descritivo: Românticos até mais não
Imagens do cabeçalho:


«Camões escreve num estilo resplandecente e bombástico — que por vezes é poesia. A língua portuguesa, pouco musical, é subjugada, e os seus acordes dissonantes harmonizados. Como retórica colorida, Os Lusíadas dificilmente será ultrapassado, em minha opinião. O encanto deve-se ao vigor do autor, à sua unanimidade, à firme convicção da glória das coisas do mundo exterior — e há igualmente um certo prazer no contacto com o tipo de espírito de Camões, o espírito de um homem com suficiente entusiasmo para escrever um poema épico em dez Cantos sem nunca se deter em qualquer tipo de reflexão filosófica. Ele é o Rubens da poesia.»
[in Camões, de Ezra Pound, trad. Isabel Pedro dos Santos, Fenda]

Exercícios de montanhismo numa rua de Lisboa, quatro dias depois do Natal.
Ia percorrendo o mundo de lés a lés e pelo caminho todos os homens com que se cruzava, fossem brancos ou negros, índios ou aborígenes, tinham as feições de Bruce Chatwin.

Atrás do muro, vozes de criança. E eu imagino as brincadeiras no recreio, rapazes de um lado, raparigas do outro. Correrias. Perseguições. Corpos encostados às paredes. Corpos caindo desamparados. Joelhos em sangue. Murmúrios. Segredos. Gritos.
Oiço-os todas as manhãs, quando passo junto ao portão, a caminho do metro. Oiço-os e reconheço no alarido constante, tão nítida, a música da minha própria infância.
No final do séc. XIX, o imperador da Abissínia quis “humanizar” as execuções dos condenados à morte e para isso encomendou três cadeiras eléctricas a uma empresa de Nova Iorque. Acontece que a electricidade, como muitas outras coisas, ainda não tinha chegado naquela época aos confins de África onde o imperador exercia a sua autoridade e o seu poder. Assim sendo, as cadeiras novinhas em folha tornaram-se, já se imagina, a própria imagem da inutilidade e do dinheiro mal gasto. Resultado: dois destes instrumentos de morte foram logo para o lixo, enquanto o terceiro ficou para o imperador, a quem serviu de trono até ao fim da vida.
Não conheço muitas histórias mais exemplares e irónicas do que esta.

Afinal, enganei-me. O São Sebastião não é em plástico, mas sim em «marfinite de alta qualidade, pintada e decorada à mão por artistas» (reparem no delicioso plural).
— Bom dia. Era aquele São Sebastião que está ali na montra, se faz favor.
— Hmmmm. [A jovem empregada vira-se para trás.] Pode ser este aqui? O maior?
— Não. Eu quero o pequeno. O que custa dois euros.
— Hmmmm. [Pergunta a um colega se há mais Sãos Sebastiões pequenos no armazém. O colega responde que não há.] Só temos mesmo aquele, sabe. O da montra.
— Tudo bem. Pode ser esse.
— Tem a certeza?
— Sim. É para oferecer a uma amiga.
— A uma amiga?
— Sim.
— E não prefere levar antes, sei lá, um São João Baptista?

Facto 1: no Natal recebi, à laia de presente envenenado, um Dictionnaire Misogyne.
Facto 2: são mulheres tanto a autora do livro (Agnès Michaux) como quem o ofereceu.
Título do post que suscitou mais comentários até agora n'A Invenção de Morel: Fiscalidade.
«Pierre Cabanne - Você disse: "Um quadro que não choca não vale a pena".
Marcel Duchamp - É um pouco boutade, mas é bastante exacto. Na produção de qualquer génio, grande pintor ou grande artista, na realidade, não existem mais do que quatro ou cinco coisas que verdadeiramente contam na sua vida. O resto não passa do preenchimento de cada dia. De um modo geral, estas quatro ou cinco coisas chocaram no momento da sua aparição. Sejam elas Les Demoiselles d'Avignon ou La Grande Jatte, são sempre obras de choque. É neste sentido que eu o entendia, pois nunca sinto vontade nenhuma de admirar todos os Renoir, nem sequer todos os Seurat... Ainda que Seurat, de que gosto muito, seja outra coisa. Sonho com a raridade, o que, de outra forma, poderia ser chamado de estética superior. Gente como Rembrandt ou Cimabue trabalharam todos os dias durante quarenta ou cinquenta anos e somos nós, a posteriori, que decidimos que aquilo é muito bom, porque foi pintado por Cimabue ou por Rembrandt. Uma pequena porcaria de Cimabue é ainda muito admirada. É uma pequena porcaria ao lado de três ou quatro coisas que ele fez e que todavia não conheço, mas que existem. Aplico esta regra a todos os artistas.
PC - Também disse que o artista é inconsciente em relação ao significado real da sua obra, e que o espectador deve sempre participar numa criação suplementar, interpretando-a.
MD - Exactamente. Porque considero, com efeito, que um homem, um génio qualquer, que habite no coração de África e produza todos os dias quadros extraordinários, sem que ninguém os veja, não existe. Dito de outra forma, o artista só existe se for conhecido. Por consequência, pode-se considerar a existência de cem mil génios que se suicidam, que se matam, e que desaparecem porque não souberam fazer o necessário para que fossem conhecidos, para se imporem e conhecerem a glória.»
[in Engenheiro do Tempo Perdido, entrevistas de Marcel Duchamp com Pierre Cabanne (1966), trad. António Rodrigues, Assírio & Alvim, 2002]

Encontrei-o na montra de uma loja de artigos religiosos e esotéricos. É de plástico. Custa dois euros.
Quando Manuel Alegre avançou, no debate com Cavaco Silva, a ideia de criar um «laboratório da Língua Portuguesa», ainda pensei que tinha em mente qualquer coisa como isto. Mas não me parece. O laboratório de Alegre não é para se fazer, é para se pôr na lapela durante os discursos eleitorais. É uma abstracção pomposa, um caça-votos para intelectuais adeptos da CPLP, uma rima forçada para essa causa inconsequente que é a lu-so-fo-ni-a (dita assim, em staccato).
«Em Owego, onde devia sair da State Highway, parei e fiquei até às nove horas num restaurante de estrada, confiando por vezes uma ou outra palavra ao papel, mas quase todo o tempo perdido em pensamentos a olhar pelo vidro panorâmico para o tráfego automóvel ininterrupto e para o céu do ocaso que faixas laranja, rosa e ouro cruzavam ainda muito depois do Sol se pôr. Por isso era já tarde quando cheguei a Ithaca. Durante uma meia hora percorri a cidade e os arredores para me orientar antes de parar numa rua lateral diante de uma guest house sossegada e iluminada no meio de um jardim às escuras, como um Empire des Lumières onde nunca foi ninguém. Um caminho em curva ia do passeio até um lanço de degraus de pedra à entrada, onde um arbusto abria os seus ramos pejados de flores brancas (à luz do candeeiro pareceu-me por momentos que estava coberto de neve). Passou muito tempo até que do interior da casa nitidamente já adormecida viesse um porteiro grisalho, tão encurvado que de certeza não via mais do que as pernas e o baixo ventre de quem estivesse diante dele. Sem dúvida por causa dessa dificuldade tinha dado uma olhadela rápida, antes de atravessar o átrio, a este hóspede tardio à espera diante da porta envidraçada. Sem uma palavra, subiu comigo uma maravilhosa escada de mogno — não se tinha a sensação de subir uma escada, mas de pairar sobre os degraus — até ao primeiro andar, onde me destinou um quarto espaçoso com vista para as traseiras.
[in Os Emigrantes, de W. G. Sebald, trad. Telma Costa, Teorema, 2005]

L' Empire des Lumières, de René Magritte (1954)
O ready-made que ilustra o post anterior foi criado por Duchamp em circunstâncias curiosas. Decidido a abandonar o mundo artístico, Marcel estava de regresso aos EUA, depois de mais uma temporada em Paris, durante a qual tomou contacto com o movimento Dada e conheceu de perto Francis Picabia. Foi por essa altura, aliás, que desenhou o célebre bigode na Gioconda. Por mera cortesia, ou talvez em jeito de agradecimento pelo apoio recebido, ele quis levar consigo um presente para o seu patrono, Walter Arensberg. Mas o que se pode oferecer a um homem que já tem tudo o que o dinheiro pode comprar? Justamente aquilo que o dinheiro não pode comprar. Dirigindo-se à farmácia mais próxima, Duchamp apontou para um frasco de soro fisiológico, em vidro, e pediu ao farmacêutico que o esvaziasse até à última gota, fechando o recipiente logo de seguida. E foi assim que seguiram, na bagagem para Nova Iorque, os agora famosos 50 centímetros cúbicos de «ar parisiense», extravagante prenda de amigo que se transformou em obra artística e que pode ser contemplada, suspensa por um fio de nylon, no Philadelphia Museum of Art.

Air de Paris (1919)
Esta noite sonhei com actores de Bergman: melancólicos, envelhecidos, silenciosos, violentos. O problema é que contracenavam, não me perguntem porquê (e muito menos como), numa telenovela da TVI.
A expressão à queima-roupa sempre foi para mim um mistério. Se alguém levou com um balázio disparado a curta distância, ficando provavelmente logo morto ou às portas da morte, quem é que se vai interessar pelo estado em que ficou a sua indumentária?

Sabia explicar tudo, menos o crepúsculo.
Compreendo que um automóvel pague IVA.
Compreendo que um estojo de maquilhagem pague IVA.
Compreendo que um relógio pague IVA.
Compreendo que um par de ténis pague IVA.
Compreendo que uma lata de atum pague IVA.
Compreendo que um iPod pague IVA.
Custa-me compreender que a poesia pague IVA.
Na banda sonora do filme Alice, Bernardo Sassetti toca piano e Copo de Cristal (assim mesmo, com maiúsculas).

E nunca mais chega. Quando é que chega, Rui? Quando é que chega?
Os meus dedos e os meus olhos, ansiosos, aguardam.
Amanhã, pelas 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz, o “É a Cultura, Estúpido!” vai ensaiar um balanço cultural do ano de 2005, feito por Pedro Mexia e por este vosso escriba. Na rubrica "O que não ando a ler", falar-se-á dos livros que não lemos em 2005 e dos que não tencionamos ler em 2006.
No tema do mês vamos tentar compreender se o futuro terá futuro quando o futuro for presente. Para discutir a questão, nos seus aspectos científicos, filosóficos, práticos ou nem por isso, estarão presentes na mesa Nuno Crato (matemático e divulgador de ciência) e João Barreiros (autor de Ficção Científica e especialista deste género literário). A conversa será moderada pelo Pedro Mexia, cabendo-me a função de "agente provocador".
Mais info e relatos das outras sessões no blogue do projecto.
Título: Bola de Espelhos
Descritivo: Jorge Luis Borges, futebol e disco sound
Imagem do cabeçalho:

«As aulas que Paul nos deu abarcavam todo o programa das escolas primárias da época, tabuada da multiplicação, bases de aritmética, escrita do alemão e do latim, ciências naturais, história pátria, canto e a chamada educação física. Mas o ensino da religião não era feito por Paul: íamos uma vez por semana ao cicioso catequista Meier, com e-i, depois ao prebendado Meyer, com e-y, de voz tonitruante que nos apresentou a confissão, o credo, o calendário litúrgico, os sete pecados mortais e esse género de coisas. Paul, sobre quem corria o boato, para mim incompreensível, de que era crente a seu modo, esforçava-se por evitar encontrar, no princípio ou no fim da hora de religião, o Meyer-y, pois bem se via que nada lhe repugnava mais do que a beatice católica. E quando, terminada a aula de religião, voltava para a sua sala e encontrava no quadro um altar do Advento desenhado a giz lilás, uma custódia vermelha e amarela ou outra coisa desse género, punha-se acto contínuo a apagar estas obras de arte com ostensiva veemência e zelo. A pia de água benta em forma de coração de Jesus ardente que havia junto à porta, enchia-a Paul, tive muitas ocasiões de ver, imediatamente antes da hora de religião, até cima, com o regador que servia habitualmente para os vasos de gerânios. Por isso o prebendado nunca chegou a usar o frasco de água benta que trazia sempre na sua mala de pele de porco preta e lustrosa. Esvaziar sem mais a pia cheia a rasar era coisa que não ousava e por isso não tinha nenhuma explicação plausível para dar àquele Sagrado Coração aparentemente inexaurível, entre a presunção de uma maldade sistemática e a vaga esperança intermitente de poder tratar-se de um sinal vindo do céu ou mesmo de um milagre.»
[in Os Emigrantes, de W. G. Sebald, trad. Telma Costa, Teorema, 2005]
Não há nada pior do que abrir um livro e constatar que nas suas páginas ficou impregnado aquele tão característico cheiro a restaurante chinês.
Tenho inveja, muita inveja, salutar inveja, deste presépio.

Abaixo o Jingle Bells! Viva Johann Sebastian Bach!
[Compassos iniciais da cantata Christen, Atzet Diesen Tag, BWV 63, interpretados pelos English Baroque Soloists e o Monteverdi Choir, dirigidos por John Eliot Gardiner]
Fazer embrulhos, escrever etiquetas, arrumar a casa, limpar o chão, desfiar bacalhau, picar cebolas, ralar cenouras, organizar o lixo, circular de carro pela cidade, voltar a casa, sair outra vez, subir escadas, descer escadas, subir escadas, pôr a mesa, controlar o forno, atender telefonemas, responder a SMS, controlar o forno (está quase), imitar Mondrian nas disposição dos guardanapos de papel brancos, pretos e roxos, ouvir a campainha e abrir a porta aos primeiros que chegam, já morto de cansaço.
Primeiro entranha-se, depois estranha-se.
Não as gastem todas com o Mr. MA.

À direita e à esquerda:
falésias, abismos, referver
de águas indisciplinadas.
Na estreita faixa do meio,
os carris são um pavor
perpendicular.
Ou melhor: são uma corda bamba
por onde avança, estouvado
saltimbanco de olhos vendados,
sem vara e sem cautelas,
o comboio e nós dentro.
[in Que Comboio é Este, Edição do Teatro de Vila Real, Dezembro de 2005]
Está disponível já hoje, mas deve ser lido amanhã (de manhã). Made by Solvstäg.

Este senhor, surdo e tudo.
É um delicioso paradoxo. A &Etc — única editora portuguesa que nunca faz reedições dos seus livros (por uma questão de princípio) — tem sede na Rua da Emenda.
«Faço subir a tua voz no gravador, e como um vento de Maio traz a sua força aos velhos objectos que me cercam. Chega-nos sem lágrimas, dir-se-ia que sorridente perante a morte. Parece que cantaste pouco antes da nossa luz se apagar. Não sei. Sei que estou fechado num glacial Janeiro como um velho sem voz, atrás da janela a cada hora mais escura, como um velho que vagueia pela memória e se sorri é por se ver a atravessar uma rua clara e a encontrar uma sombra de olhos fechados, agora e até ao fim dos anos fria como Janeiro... Essa mulher tão distante que arde sob a neve, se eu me calar, quem lhe dirá para brilhar ainda?»
[in Fernanda, de Ernesto Sampaio, Fenda, segunda edição, 2005]
(Som de copo a partir-se, com estrondo, atrás do balcão.)
Na outra ponta, junto à máquina do café, ergue-se a voz de um dos empregados mais velhos:
— Olha, olha, tu queres ver que alguém deixou cair um guardanapo?
Há cerca de ano e meio, publiquei no Blogue de Esquerda (II) um texto sobre a fotografia do post anterior. Aqui o reproduzo:
Nesta imagem, há dezenas de pequenos detalhes que me fascinam: os reflexos perfeitos; os semi-círculos de metal na água; a duplicação do gradeamento e do céu de Paris; a superfície ainda lisa antes do caos; os telhados que emergem da bruma; aquele homem tão vago (ao fundo) junto a um monte de pedras; os cartazes que anunciam, em maiúsculas, certo apelido eslavo (RAILOWSKY: nome de circo?); a escada de madeira a tremer como certos insectos aquáticos. Mas é sempre neste homem que se lança para o salto impossível, em primeiro plano, que os meus olhos param. Há nele uma harmonia paradoxal, uma elegância inesperada. Ele é o negativo da bailarina que se ergue lá atrás, na parede, graciosa e imóvel, antes e depois do disparo de Cartier-Bresson. A bailarina e o homem que salta: dois voos que se completam e anulam, ecos um do outro, unidos por esse feliz acidente do tempo a que chamamos acaso.

Derrière la gare Saint-Lazare (1932)
Num generoso exercício de partilha, o Ricardo Gross transcreveu no seu blogue uma crónica publicada por Vasco Pulido Valente lá para os finais da década de 70, na extinta revista O Cinéfilo (texto incluso na antologia O País das Maravilhas, Editorial Intervenção, 1979). A prosa intitula-se As Oportunidades Perdidas e centra-se na falta de jeito que VPV revelava, até então, para se aproveitar da amizade com artistas plásticos (na fase em que lhes sobra talento mas lhes falta reconhecimento público) como meio para construir, a preço módico ou nulo, uma pinacoteca pessoal de fazer inveja a qualquer burguês endinheirado. O estilo é o de sempre: irónico, engenhoso, formalmente perfeito e com o travo amargo do cínico profissional (embora ainda distante do niilismo obsessivo que o vem marcando desde os anos 90).
Há nesta leitura, como seria de esperar, um curioso efeito de distanciamento nostálgico. Apreciamos a lamentação de VPV sobre a sua falta de sentido prático, num tom suavemente auto-depreciativo (muito na linha do que o Pedro Mexia faz nas crónicas da Grande Reportagem), e percebemos que houve um tempo em que o grande cronista era capaz de desabafos mais ou menos inócuos, sem ter a decadência da pátria e a miséria intelectual dos seus contemporâneos como único refrão, repetido até à náusea. Houve um momento em que VPV se fechou no seu casulo e o humor se transformou em bílis negra. Espreitar a forma como ele escrevia antes desse progressivo mergulho no ascetismo misantropo, recordar o VPV que já era o VPV que hoje conhecemos sem ser ainda o VPV que hoje conhecemos, foi uma grata experiência que agradeço à boa vontade do Ricardo.
Mas não é bem por isso que escrevo este post. A razão está numa das últimas frases do texto:
«Uma coisa é certa: daqui a uns anos, quando as minhas duas assoalhadas de seis contos à Penha de França já forem uma pechincha, a minha colecção há-de ser igual à de toda a gente que se preza.»
Eis a descoberta importante: o VPV, nos idos de 70, morou na Penha de França, o que nos transforma em vizinhos virtuais, à distância de quase três décadas. Agora que os seis contos por duas assoalhadas seriam muito mais do que uma pechincha (nem digo o que tenho de pagar mensalmente pelo meu T3), perdoem-me o súbito arroubo de fetichismo toponímico. É que ao sair à rua, esta manhã, não pude deixar de imaginar as diferenças entre a Penha de França dele e a minha, temendo lá no fundo que esteja no bairro, e não no descalabro nacional, a raiz do seu pessimismo.
«O primeiro relógio inteiramente electrónico foi o americano Hamilton Pulsar.
O primeiro relógio inteiramente biológico foi o alemão Immanuel Kant.»
Título: Lorem Ipsum
Descritivo: Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipisicing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua. Ut enim ad minim veniam, quis nostrud exercitation ullamco laboris nisi ut aliquip ex ea commodo consequat. Duis aute irure dolor in reprehenderit in voluptate velit esse cillum dolore eu fugiat nulla pariatur. Excepteur sint occaecat cupidatat non proident, sunt in culpa qui officia deserunt mollit anim id est laborum
Imagem do cabeçalho:

Esta é a luz mais curta
Esta é a luz mais curta
Esta é a luz mais curta
E tu não sabes o que fazer.
A cidade fecha-se em copas,
pairam aviões no céu de trovoada,
há um frio que se toca com as mãos,
cresce a tristeza assim, tão inclinada.
Esta é a luz mais curta
Esta é a luz mais curta
Esta é a luz mais curta
E tu não sabes o que fazer.
Viste os mapas envelhecerem
mais ainda do que o teu rosto.
Olhas para trás e já não vês
as vagas sombras de Agosto.
Esta é a luz mais curta
Esta é a luz mais curta
Esta é a luz mais curta
E tu não sabes o que fazer.
Agora chegou o tempo
da profunda melancolia,
mas nem sequer encontraste
o súbito clarão que pedia.
Esta é a luz mais curta
Esta é a luz mais curta
Esta é a luz mais curta
E tu não sabes o que fazer.
Esta é a luz mais curta
Esta é a luz mais curta
Esta é a luz mais curta
E tu não sabes o que fazer.
O SABOR DA CEREJA — ABBAS KIAROSTAMI (1997)

Não é fácil para um homem
sepultar a sua sombra,
encontrar o melhor
que a terra nos dá:
um esconderijo.
A língua queimada
recusa as cerejas.
Nenhuma palavra
remove da boca
o gosto a poeira.
Circula sem vida,
por montes e restos,
o corpo tresmalhado.
Alguém há-de saber
para que serve um morto.
[in Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, 2005]
Naquela manhã decidiu reescrever, palavra por palavra, o Quijote. Mas depois ficou indeciso sobre qual dos Quijotes: o de Cervantes ou o de Pierre Menard?
O ACOSSADO — JEAN-LUC GODARD (1959)

Cinco passos para a frente
era o inferno dos felizes.
Cinco passos para trás,
o curral dos ofendidos.
Não havia saída,
nenhum ermo onde esconder
a vida. Só a morte
nos dizia — por aqui.
[in Movimentos no Escuro, Relógio d'Água, 2005]
Mário "Duchamp" deu um bigode a Aníbal "Ready Made".
Se fosse hoje, qual dos três reis magos não passaria à segunda volta?
No seu curriculum havia uma linha que dizia: aparece, muito desfocado e ao longe, numa fotografia de Henri Cartier-Bresson.

Zénite zen.
Não é por nada, mas...
Sandro prefere a nona do Mahler. Carina prefere a anona do MARL.
[Com uma vénia agridoce ao Pedro Vieira.]

Portugal, 2005
«A tua ausência é como essas árvores perdidas num jardim ao abandono, que parecem transplantadas de uma floresta antiga, quando um perfume de infância habita a sua madeira.
De mim não resta grande coisa. Não me chores. Aqui já não há fogo para apagar. Não me olhes (sei que não podes olhar-me). Estou quase a cair, posso desabar a qualquer momento. Não quero que me vejas cair. Já não sinto o meu eu, o meu peso. Perco o equilíbrio, flutuo. Eras tu a gravitação da terra e do céu, e anulaste-as...
O céu é tão negro, faz tão profundamente noite que a terra parece ter perdido o pé. Desde 6 de Janeiro que ando às escuras, apesar da espantosa precisão das estrelas, dos seus dardos dolorosos numa carne de tinta coagulada.»
[in Fernanda, de Ernesto Sampaio, Fenda, segunda edição, 2005]

Se só pudesse levar para a ilha deserta uma melodia do genial Mussorgsky, era esta:
[Boris Christoff (baixo) e Alexandre Labinsky (piano), numa gravação de 1957. Retrato de Modest Mussorgski por Ilya Repin, pintado em 1881]
O metro de Nova Iorque em grande plano, nas fotografias à queima-roupa de Travis Ruse. [Dica preciosa do Benjamim.]
Os melhores manequins da blogosfera estão aqui.

Hidden Rooms 1 (2001)
«A cerva pasta com as suas crias. O leão lança-se sobre a cerva, que consegue fugir. O caçador surpreende o leão e a cerva na sua corrida e prepara a carabina. Pensa: se mato o leão terei um bom troféu, mas se mato a cerva terei troféu e poderei comer a sua saborosa pata à caçadora.
De repente, algo surpreendeu a cerva. Pensa: se o leão não me alcança, voltará e comerá os meus filhos? Precisamente o leão está a pensar: para que me canso com a mãe quando, sem nenhum esforço, poderia comer as crias?
Cerva, leão e caçador detiveram-se simultaneamente. Desconcertados, olham-se. Não sabem que, por uma coincidência sumamente improvável, participam de um instante de perplexidade universal. Peixes suspensos a meia água, aves quietas como se penduradas do céu, todo o ser animado que habita a Terra duvida sem atinar a fazer um movimento.
É o único, brevíssimo vazio que se produziu na história do mundo. Com o disparo do caçador reata-se a vida.»
[microconto do escritor argentino Raúl Brasca, in revista Periférica, n.º 11, Outono de 2004]
Título: A maldição de Schlemihl
Descritivo: Nunca vendas a tua sombra, muito menos ao diabo
Imagem do cabeçalho:


Releio o post anterior e arrepio-me com as duas hifenizações mal feitas. O problema não é meu, é do sistema de edição (pouco sensível às idiossincrasias da língua portuguesa). Ainda assim, o arrepio.
«"Um conselho, é do que preciso, ajuda para o meu romance." Desta vez Marguerite entendeu perfeitamente. "Ah, um conselho", disse, e convidou-me a sentar-me ali no hall (como se estivesse muito cansado), apagou lentamente o cigarro e pô-lo no cinzeiro da entrada e dirigiu-se, um tanto misteriosamente, para o seu escritório, donde voltou passado um minuto com uma folha de papel que parecia uma receita médica e continha umas instruções que podiam — disse-me, ou julguei entender que me dizia — ser-me úteis para escrever romances. Peguei na folha e dirigi-me para a rua. Li as instruções que continha pouco depois, já na rue Saint-Benoît, e senti que de repente desabava sobre mim todo o peso do mundo, ainda hoje recordo o pânico enorme — calafrio, para ser mais exacto — que senti ao lê-las:
1. Problemas de estrutura; 2. Unidade e harmonia; 3. Enredo e história; 4. O factor tempo; 5. Efeitos textuais; 6. Verosimilhança; 7. Técnica narrativa; 8. Personagens; 9. Diálogo; 10. Cenários; 11. Estilo; 12. Experiência; 13. Registo linguístico.»
[in Paris Nunca se Acaba, de Enrique Vila-Matas, trad. de Jorge Fallorca, Teorema, 2005]
Às 16h55, um leitor acedeu a este blogue a partir de Barcelona, Espanha. Seria ele?

De Enrique Vila-Matas para um leitor vila-matiano, numa das primeiras páginas da edição portuguesa de Paris Nunca se Acaba.
Estava o céu cinzento em Lisboa, naquela tarde. E chovia.
Depois de publicar O Mal de Montano, qual foi o impulso que o levou a escrever Paris Nunca se Acaba [ambos editados pela Teorema]? Quis fazer uma recapitulação irónica da sua juventude na capital francesa e do período de dois anos em que aprendeu a ser escritor?
Enrique Vila-Matas: Na verdade, tudo começou com um convite para dar uma conferência, na Andaluzia, em que abordaria, de um ponto de vista teórico, o tema da ironia na literatura. Essa conferência era em Setembro [de 2002] e um mês antes fui a Paris com Paula, a minha mulher, preocupado com o facto de não conseguir fazer o que me pediam. Ao deambular pela cidade, narrava-lhe histórias e memórias de quando, muito jovem, vivia no Quartier Latin e frequentava, por exemplo, aquele mesmo Café de Flore onde estávamos sentados. E à medida que ia ironizando sobre a minha própria juventude, dei-me conta de que a conferência na Andaluzia podia ser, mais do que um estudo teórico, um exemplo prático da ironia aplicada a mim mesmo. Em suma, não sei teorizar sobre a ironia, mas sei ironizar sobre as minhas memórias. E foi isso que fiz em Paris Nunca se Acaba.
E o que era para ser uma conferência transformou-se num romance em forma de conferência.
V-M: Sim, mas eu acabei por dar mesmo a tal conferência, em Setembro. Eram apenas dez páginas: as que estão no começo do livro. E a partir deste núcleo inicial surgiu a ideia de continuar, inventando uma conferência que dura três dias, quando a verdadeira não durou mais do que uma hora. Mas isto não importa por aí além. Foi só a circunstância, a casualidade que pôs em marcha um livro que eu não sabia que podia existir. Ou seja, apercebi-me que conseguia contar as minhas memórias de juventude. Isso é que é o importante.
Uma dessas memórias, que ocupa um lugar central no livro, é a sua relação de vizinhança com Marguerite Duras, a escritora que lhe alugou umas águas-furtadas. O episódio era referido muitas vezes nas suas entrevistas, em tom de lenda. Ao contá-lo finalmente, com todos os detalhes, quis livrar-se de uma história que o perseguia?
V-M: Nunca fiz questão de contar essa lenda. Mas como estavam sempre a pedir-me que a contasse, decidi matá-la de vez neste livro. O que eu pretendi realmente foi outra coisa: explicar algo de mim aos leitores. Sempre inclui aspectos autobiográficos nas minhas narrativas, só que misturados com elementos de impostura. Em Paris Nunca se Acaba, pelo contrário, quis que o leitor soubesse coisas verdadeiras sobre mim. E porque não há-de poder um autor oferecer uma parte da sua vida, provavelmente a mais interessante de todas?
Houve uma tentativa de aproximação à verdade, esse território tão difícil de definir?
V-M: Sim, este é o meu livro que se aproxima mais da verdade. É o único que é realmente autobiográfico. Não apareço transfigurado, como nos outros. E falei de coisas de que nunca tinha falado. Por exemplo, de dinheiro, algo que nunca surge nos meus romances. Vi-me obrigado a explicar coisas que nunca explico. De onde vinha o dinheiro, mesmo sendo pouco. A minha relação com as mulheres, que também nunca tinha explicado. E a minha biblioteca, que era ínfima. Oito livros. Eis uma coisa que me dá certa vergonha ter de assumir. O livro é autobiográfico mas sem vaidade, porque não me posso orgulhar da vida que levava.
E conseguiu olhar para esse Enrique como se olha para uma personagem? Já se via na altura como uma figura de ficção?
V-M: De forma nenhuma. Se eu tivesse sabido que a história de Paris seria interessante ao ponto de um dia se transformar em livro, e que seria comprado e lido por tantas pessoas (como tem sido em Espanha e França), se tivesse sabido que eu seria o herói dessa história...
Teria vivido de outra maneira.
V-M: Claro. Sairia à rua e, em vez de comprar a sandwich que comprava sempre, por ter pouco dinheiro, pediria outra coisa extravagante e teria pensado que estava a ser perseguido e coisas do género.
Corresponderia mais à aura romântica da figura de Hemingway, o ídolo que no livro o jovem Enrique pretende imitar?
V-M: Sim, mas as coisas sempre me chegaram sem que as previsse ou planeasse. Como é evidente, jamais pensei que a minha tristíssima vida em Paris pudesse vir a ser matéria literária. Mas também nunca imaginei, por exemplo, que um dia seria traduzido em tantas línguas. Na época, por alturas da morte de Franco, nenhum espanhol estava traduzido em França, salvo Juan Goytisolo, o Quixote e poucas coisas mais. Tal como nunca imaginei que a livraria que eu mais frequentava em Paris, uma livraria que ainda hoje existe em Saint-Germain des Prés e cuja montra eu espreitava todas as manhãs, nunca imaginei que um dia teria um livro sobre a minha experiência de Paris exposto precisamente nessa montra. Sempre me dei bem com o facto de não calcular nem planear demasiado o que me acontece. As coisas boas chegaram sempre sem que as tivesse previsto. Se as prevês, quando chegam já não têm interesse.
Neste livro, precisamente por ser irónico, o Enrique Vila-Matas narrador, do alto da sua maturidade literária e existencial, podia ser impiedoso com o Enrique Vila-Matas personagem, jovem meio perdido no projecto de ser escritor. Mas isso não acontece. O retrato não é implacável nem condescendente, mas antes tranquilo, quase doce.
V-M: É uma doçura compassiva, que vem de Cervantes. Cervantes é sempre muito compassivo com as suas personagens. E é de uma grande humanidade porque compreende os fracassos das personagens.

A organização de Paris Nunca se Acaba tem qualquer coisa de caótico e fugidio. Há uma soma de fragmentos, de derivas, de digressões...
V-M: Os fragmentos fazem parte da estrutura da minha memória. Isto é algo que nenhum crítico espanhol compreendeu. A estrutura deste livro não foi copiada da estrutura de nenhum outro livro. É o espelho da forma como funciona a minha memória: uma recordação puxa outra, que puxa outra, que puxa outra, e assim sucessivamente. O livro terminou, para mim, quando já não conseguia lembrar-me de mais histórias que pudesse desenvolver. Tudo o que vivi é o que ali está.
A sensação com que se fica é que o livro, como Paris, podia não acabar nunca.
V-M: Mas acaba. Acaba quando a memória se esgota e não há mais nada para contar. Quando ela se completa, quando ela se fecha. É sempre assim. Este verão estive no Brasil e no regresso contei a história dessa viagem à primeira pessoa com quem estive. A partir daí, tudo o que contei manteve-se fiel a essa primeira versão. Não acrescentei nada. O que narrei ficou ali comprimido. Para mim, toda a minha estadia em Paris naqueles dois anos, de 1974 a 1976, ficou ali. A minha memória é o livro.
Este processo de rememoração poderia ser aplicado a outros períodos da sua vida?
V-M: Não. Só vivi dois anos fora de Barcelona e foram os anos de Paris. O resto é vida quotidiana e a vida quotidiana não é uma viagem que mereça ser contada. Tudo é monótono, parecido, igual.
Não há com que escrever um romance de duzentas ou trezentas páginas...
V-M: Pois não. Aliás, eu divido a minha vida actual em duas: a vida quotidiana, que significa escrever, em Barcelona; e as viagens de trabalho que faço, duas ou três vezes por mês, e onde encontro materiais para as minhas narrativas.
Aquela lista de regras para escrever um romance que lhe é dada por Marguerite Duras existiu mesmo?
V-M: Esse é o segredo mais bem guardado do livro. Até já me pediram o papel com a lista e parece haver quem o queira comprar. Mas a lista foi sobretudo o momento-chave em que descobri qual era o sentido do livro. Dei-me conta de que fui para Paris e alguém me disse como devia escrever. E como não obedeci à lista de Marguerite Duras, pude criar a minha própria ideia de literatura. Foi quando me lembrei da lista oferecida naquele dia por Marguerite, enérgica e nervosa, que me apercebi que a estrutura do livro era simplesmente a história de alguém que foi a Paris aprender a escrever. Tinha dado um sentido ao livro.
A dada altura, quando regressa brevemente a Barcelona, ouve Juan Benet dizer a Eduardo Mendoza: “Hoje escrevi a primeira página de um romance e sei que me espera um ano de obsessão”. Parece-me que esta frase define bastante bem o que tem sido o seu trabalho de escritor. Concorda?
V-M: Sim, porque quando alguém se põe a escrever um livro e trabalha a primeira frase, sabe que ficará aprisionado por uma história que vai causar-lhe muitos problemas e desconfortos durante muito tempo. Por isso, cada vez penso mais no que vou fazer a seguir, se há-de ser um livro ou não, porque a decisão de escrever um livro implica ficar preso durante um ano ou dois, no mínimo, em algo que te vai ocupar o tempo todo, quase obsessivamente. Por exemplo, faz mais de 15 dias que tenho a ideia de escrever um novo livro sobre o medo, a ideia do medo. O medo em que vivemos todos, no Ocidente, nos nossos dias. E no entanto não me decido a escrevê-lo, porque sei que essa ideia do medo me vai ocupar demasiado tempo. Talvez decida não escrever sobre isso para me precaver. Estou à espera que apareça algo melhor para mim, mais relaxado.
Mas um escritor pode recusar um tema desses, que se impõe?
V-M: Não, se ele se impuser com muita força. A única coisa que fiz sobre o medo foi escrever um artigo no El País, que se chama «O Medo», como uma prova, a ver o que diziam os leitores. Mas pelos vistos ninguém se entusiasmou com o que escrevi sobre o medo e não estou disposto a gastar um ano seguindo por este caminho.
O registo híbrido dos seus últimos livros – onde se mistura ficção, ensaio e autobiografia – também o encontramos, por exemplo, em W. G. Sebald. Acha que o futuro do romance passa por aqui?
V-M: Não. Acho que tudo vai continuar bastante parecido com o que é hoje. Foi muito bom ler Sebald e outros, mas o que eu faço não se parece com nada que conheça. A estrutura de O Mal de Montano é diferente de tudo. Se trabalho de forma híbrida é porque alcancei um certo ponto de liberdade na escrita. Quando quero contar alguma coisa, penso se o vou contar de uma forma mais pensada, estilo ensaio, ou como uma narração. Ou como um poema. Busco a forma certa. O que faço são viagens mentais de grande liberdade. A origem desta liberdade, para mim, está mais no Quixote e em Tristram Shandy. São eles que põem em circulação esta liberdade, esta associação de ideias e de géneros.

Incomoda-o o facto de ser considerado um escritor para escritores?
V-M: Acho que essa imagem de autor minoritário deixou de fazer sentido porque em Espanha este livro já vendeu 40.000 exemplares. Embora continue a ser visto como um escritor de culto, não acho que seja um escritor para escritores. Creio que num momento determinado da minha vida comecei a dirigir-me aos leitores. Embora escreva para mim mesmo, nos últimos tempos tenho sempre muito em conta os leitores.
Isto apesar de ter começado, em A Assassina Ilustrada, por querer matá-los.
V-M: Queria matar os leitores porque tinha medo de que se apercebessem de que eu não sabia escrever. A minha obra é como uma grande viagem na qual se foram incorporando muitos leitores através do tempo. A princípio ninguém percebia de que é que eu estava a falar e para mim é uma satisfação que agora se saiba e que exista um círculo de leitores a acompanhar tudo o que faço. Porque isto significa que consegui o que sempre quis fazer e que implica um trabalho imenso: inventar os leitores. Criar leitores novos. Leitores para os meus livros. Os leitores vila-matianos. Leitores que comunicam uns com os outros.
Esses seus leitores vila-matianos são “doentes de literatura”, têm o Mal de Montano?
V-M: Sim, porque para além de leitores têm que estar apaixonados pela literatura. São duas coisas diferentes.
Uma vez disse que o sistema de atribuição dos prémios literários em Espanha era uma mafia. Continua a pensar assim?
V-M: Isso punha em jogo uma certa provocação da minha parte, porque sempre precisei de inimigos para seguir em frente. Estou acostumado a ser maltratado por certos círculos literários espanhóis. Por exemplo, quando ganhei em França o Prémio Médicis para melhor romance estrangeiro de 2003 [por O Mal de Montano], numa edição em que eram finalistas Ian McEwan, Jeffrey Eugenides e Joyce Carol Oates, a repercussão em Espanha foi mínima, quando é óbvio que se fosse outro escritor os jornais encheriam páginas e páginas, como se tivéssemos ganho o Nobel.
Mas, por outro lado, dá muitas vezes a ideia de que gosta de estar fora do sistema literário.
V-M: Sim, isso é fundamental para mim. As ofertas que me fazem para mudar de editora em Espanha, economicamente muito vantajosas, recuso-as sempre, embora essas histórias nunca cheguem aos jornais. Para mim, o essencial é manter-me à margem, dentro do possível, sem ir parar a um terreno infame e que não me interessa, o terreno dos que se vendem. E isso explica o silêncio à minha volta. Mas preciso desse estímulo. Escrevo sempre contra algo.
Não sente o pânico de um dia deixar de querer escrever? Ou será que o fantasma do escritor ágrafo ficou arrumado com Bartleby & Companhia?
V-M: O fantasma não é deixar de escrever. O fantasma é um dia começar a notar que me repito. Nessa altura, terei que abandonar a escrita.
Mas Borges, por exemplo, repetia-se imenso.
V-M: Todos os escritores se repetem. E Borges repetia-se muito depois de ficar cego, quando já só ditava e se pôs a imitar os seus melhores livros. Quando perceber que me repito, e isso está contado num conto que dediquei a Salinger, retiro-me.
Sentirá angústia ou alívio?
V-M: Não sei. Esse momento ainda não chegou, felizmente. Mas se fosse um alívio, significaria que estava à espera que acontecesse. E não estou.
Mas consegue imaginar a sua vida sem escrita?
V-M: Isso seria como desaparecer. E eu gostava, como está escrito em Doctor Pasavento [editado já este ano, em Espanha, pela Anagrama, ainda sem tradução portuguesa], de desaparecer um dia, sem me despedir.
Desaparecer como muitas das suas personagens, numa espécie de apagamento súbito, definitivo e sem aviso. É isso?
- É. Desaparecer apenas. Não gosto das pessoas que se despedem demais.
[Versão XL da entrevista publicada por mim, na secção Artes do Diário de Notícias, a 14 de Dezembro]

«Ceci n'est pas un roman» — é o que apetece dizer deste livro omnívoro que recupera a vida de Vila-Matas durante os anos (1974-76) em que fugiu da Barcelona franquista para triunfar como escritor em Paris, na senda de Hemingway, algures entre a mansarda da Rue Saint-Benoît e as luzes do Café de Flore. Mais do que a crónica do previsível falhanço, Paris Nunca se Acaba é um caótico (mas magnífico) mosaico de memórias e relatos breves, encaixados uns nos outros, sobre alguém que vence a angústia de principiante e termina, muito a custo, o primeiro romance (A Assassina Ilustrada). Engenhoso, metaliterário, irónico — é Vila-Matas no seu melhor.
Ontem, no DN, publiquei uma entrevista com Enrique Vila-Matas, feita no início de Novembro, quando o escritor catalão esteve em Lisboa a lançar o romance Paris Nunca se Acaba (Teorema), numa sala do Corte Inglés «demasiado pequena e demasiado azul», como referi neste post do BdE.
Um dos maiores problemas da imprensa, não surpreenderei ninguém ao dizê-lo, é a falta de espaço. No caso das entrevistas, pior ainda. Editar uma conversa é sempre reduzi-la, amputá-la ou, nos casos mais extremos, resumi-la. Transformar o fluxo de uma ou duas horas de diálogo, com as suas sinuosidades e subtilezas, no texto formatado que enche a página do jornal pode ser — é quase sempre — um exemplo prático da tão portuguesa arte de meter o Rossio na Rua da Betesga.
Não foi propriamente esse o caso da entrevista com Vila-Matas: o essencial dos 50 minutos de conversa no bar do Hotel Lisboa está, creio eu, nestas 14 perguntas e respostas. Mas houve, como é evidente, material que ficou de fora. É esse material que recupero aqui, no espaço ilimitado do blogue, a par das duas fotografias que a minha modesta máquina digital roubou ao autor de Suicídios Exemplares, na referida salinha claustrofóbica do Corte Inglés.
Antes, porém, deixo-vos a nota mínima sobre o livro que acompanhou, ontem, a versão da entrevista em papel.
«O que é um facto é que com a passagem do tempo se entrelaçaram na minha vida os momentos de riso e de pranto e que, por exemplo, hoje me é impossível recordar sem bom humor o estado mental com que escrevi os meus mais recentes romances, esse estranho estado mental que me leva a chorar de pena com o meu próprio humorismo e a rir-me a bandeiras despregadas quando os meus personagens morrem. É assim a vida e é assim a arte. A longo prazo, se nos armarmos de paciência, comprovamos que, assim como o riso e o pranto, vida e arte têm a tendência para acabar por se misturarem e se entrelaçarem para compor uma imagem única, cómica e trágica ao mesmo tempo, uma imagem tão singular como a que compõem touro e toureiro nessas grandes faenas que nunca esquecemos.»
[in Paris Nunca se Acaba, de Enrique Vila-Matas, trad. de Jorge Fallorca, Teorema, 2005]
Os grandes prazeres são muitas vezes assim, minúsculos. Cf., em caso de dúvida, a luz captada por Josef Sudek na Catedral de São Vito, em Praga.
Não deixa de ser estranho descobrir que chegaram a este blogue, nas últimas horas, leitores que moram em Newark (EUA), na Póvoa do Varzim, na Moita, em A Dos Ruivos (Leiria), em Gesteira (Coimbra), no Bairro da Madre de Deus (Lisboa), em Esmoriz (Aveiro), em Amsterdão (Holanda), em Orange (Provence, França), em Lindfield (Nova Gales do Sul, Austrália), em Mountain View (Califórnia, EUA), em Moscavide, em Contumil (Porto), em Stockport (Reino Unido), etc, etc, etc.
É como se de repente os visse a todos, do outro lado do espelho que é o ecrã do computador, rostos desconhecidos que são uma espécie de família invisível e involuntária para a qual escrevo, tantas vezes na ilusão de que ninguém me lê.
CANTO DÉCIMO TERCEIRO
De criança sempre gostei de canas
e roubava-as do rio
ainda verdes.
Deixava-as depois estendidas ao sol durante todo o verão
e recolhia-as, ligeiras,
como o sussurro dos mosquitos.
Quando no inverno
os ossos estalavam de frio
e os gatos tossiam sobre o damasqueiro
corria até ao sótão
e metia as mãos no meio das canas quentes
ainda com todo aquele sol em cima.
[in O Mel, trad. Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, 2004]
Nunca brinques com a sinceridade. A sinceridade é uma arma perigosa.

Céu e Água I (1938)
Ao verificar que um dos meus melhores amigos não sai de casa há quase duas semanas, não responde a mails, nem a mensagens SMS, nem aos recados que lhe deixo no atendedor, resolvi bater-lhe à porta. Ao fim de cinco minutos, apareceu-me ensonado, de chinelos e roupão, barba por fazer e um cheiro a denunciar défice de higiene.
Na sala: CD's espalhando reflexos pelas paredes, suplementos culturais sublinhados a marcador fluorescente, pilhas de DVD's, livros com a lombada partida, restos de pizza, cinzeiros sobrelotados, latas de Coca-Cola nos sítios mais improváveis.
— Estás com péssimo aspecto, pá. O que é que te aconteceu? — perguntei.
— Dezembro. Sabes como é, não sabes? Dezembro, pá. Mês tramado.
— Por causa do Natal?
— Qual quê, pá. 'Tás maluco? Quem é que quer saber do Natal? Dezembro é o último mês, pá.
— Ah, estou a ver. Estás deprimido porque chegas a esta altura e angustia-te a ideia da passagem do tempo, esse sacana. Mais 365 dias para o galheiro e tu sem cumprires os teus projectos utópicos e eternamente adiados. É isso?
— Não, pá. Não é nada disso.
— Então é o quê?
— São os balanços.
— Os balanços?
— Sim. Desde o princípio do mês que ando a ganhar arcaboiço mental para os balanços do ano. E escreve o que eu te digo: como as coisas andam em termos de oferta, se quiseres ser sério, mas mesmo sério, isto é coisa para dar cabo de um gajo. Literalmente, pá. Literalmente.
Ainda pensei dizer qualquer coisa, explicar-lhe que não será bem assim, as listas valem o que valem, etc. Mas depois olhei para os seus olhos raiados de sangue, para a pele amarelada, para as mãos quase translúcidas, para as olheiras mais fundas que a Fossa das Marianas. E calei-me.
Se vivesse hoje, Heinrich von Kleist seria um admirador de Eric Rohmer.

Em torno desta pergunta — levantada insistentemente há pouco mais de um mês, quando os motins nos subúrbios da capital francesa provocaram o espanto da Europa e do mundo — digladiaram-se as mais contraditórias teses. Dos cenários dantescos que vêem na imigração a raiz de todos os males à sociologia barata de alguns cronistas (capazes de desculpar o indesculpável, como o incêndio de bibliotecas e creches, sempre à luz dos traumas da exclusão), houve matéria para todos os exageros, relativismos e cortinas de fumo.
A verdade é que o problema não cabe na evidência simples que a lógica dos soundbytes exige. O que se passou nos bairros sociais parisienses não foi uma Intifada nem um epifenómeno menor — foi antes o afloramento de uma realidade que tendemos a esconder debaixo do tapete, um sinal das tensões que persistem nas sociedades ocidentais mais desenvolvidas, à espera de rebentar. Esquecer isto, quando a revolta começa a desaparecer das agendas mediáticas, seria um erro crasso.
Publicado pouco antes da explosão da "bomba social" francesa, como que antecipando-a, Caminhos para a Integração — Condições de vida, aspirações e identidades de jovens descendentes de famílias imigrantes na Europa (editora 90º) recolhe textos apresentados num colóquio internacional, em 2003, e o mínimo que se pode dizer é que o diagnóstico do problema há muito que estava feito. A ilustrar esta obra necessária, imagens de um ateliê fotográfico realizado com jovens de bairros difíceis da periferia de Lisboa (Cova da Moura, Fontainhas, Bobadela).
[Apontamento publicado na edição de ontem do Diário de Notícias]

À TERRA NATAL
A derradeira viagem
até à tua terra natal
começou alguns dias antes:
preparativos, lembranças,
indicações.
Ao telefone com assombro
ias ditando
não os escolhos da paisagem,
nem as encruzilhadas
a que tinha chegado
a vida,
mas o sabor dos frutos maduros,
a luz dos encontros à beira do tanque.
Aguardavas na varanda o nítido
momento de partir,
solene como uma rapariga
vestida
para o seu primeiro baile:
o casaco de malha
segurava já os ombros,
apenas o lenço
que corria em tons de mar
pela pele alva do pescoço
criava uma ilusão de céu
na velhice cansada das
manhãs
em que te levantavas
para os gatos
e para a solidão
amiga das
canadianas,
metade corda de alpinista,
metade remo de batel.
Nos dias antes de morrer,
sentada no paredão da cama,
voltaste a escutar a harpa da infância.
Ninguém sabe para quem foi
o teu último pensamento,
as palavras finais que disseste,
em que parte do mundo
pousaste o olhar pela última vez.
Nas Pietàs que escrevo
é sempre o filho que ao colo tem
sua mãe morta.

[in Requiem, Assírio & Alvim, 2005;os dois fotogramas são do filme Mãe e Filho, de Alexander Sokurov, 1997]
Ao meu lado, no metro, um casal de suecos. Muito jovens, cheios de joie de vivre e escandalosamente belos. Sem pudor (e sem remorso), escudado na impenetrabilidade do idioma, escuto o diálogo e atento nas inflexões das vozes, no ritmo das frases, naquela melopeia a propagar-se na carruagem estranhamente silenciosa. Não sei o que dizem, não sei do que falam, mas há ali um espírito de brincadeira, seduções, cumplicidades, pequenas formas de alegria.
Anticlímax: quando saem finalmente, de mãos dadas e mochilas às costas, só consigo pensar nos diálogos mais negros e desesperados de Ingmar Bergman.
Frio na pele: lâmina benigna.
A resposta à pergunta não está aqui, neste post ofuscado por uma frase magnífica: «Eu vivia com uma rapariga, mas agora estamos separados, porque eu escondi o amor que sentia por ela».
Não há resposta para a pergunta do arrumador. Mas a não-resposta do Pedro, no que tem de hesitação e perplexidade, talvez seja a única resposta possível.
Título: Verde Musgo
Descritivo: «Les patrouilles de la végétation s'arrêtèrent jadis sur la stupéfaction des rocs. Mille bâtonnets du velours de soie s'assirent alors en tailleur» ("La Mousse", Francis Ponge)
Imagem do cabeçalho:

Inventamos desculpas,
alegrias ao retardador,
ecos, brilhos, simulacros.
A cor do gelo reflectida
nas montras, ecrãs de
plasma, folhas pisadas.
E depois a melancolia
doméstica, presa pela
trela, doente, com um
cone de plástico à
volta do focinho.
Vamos e vimos, sem
saber de onde nem para
onde, presos a um mapa
que muda todos os dias.
Ao longe, som de cavalos,
clamor de tempestade, céus
brancos de apocalipse.
Fechamos os olhos
num silêncio de celofane.
Fingimos que não a vemos,
à água mais escura. Mas
ela galga degraus, engole
tudo pelo caminho. Sobe
para lá dos riscos que marcam,
na parede, as cheias do século.

Para a minha filha, que já dorme, deixo os primeiros compassos da 12.ª das Cenas Infantis de Robert Schumann (Kinderszenen, Op.15), tocada por Martha Argerich. É aquela que se intitula Kind im Einschlummern (A Criança que Adormece):
«A Terra gira desde há 3500 milhões de anos. A humanidade vive desde há um milhão de anos. A história das civilizações humanas dura desde há 10.000 anos sem que seja contínua ou evolutiva. A parte civilizada, artística, noética, literária, não constitui mais que uma fracção imperceptível da experiência da espécie Homo. Imperceptível pela própria espécie em geral. Houve apenas algumas obras, alguns objectos, alguns sons, alguns livros, alguns muros vislumbrados por alguns homens que se inclinam por vezes, da frente para trás.»
[in As Sombras Errantes, de Pascal Quignard, trad. Maria da Piedade Ferreira, Gótica, 2003]

Depois de ter gasto 22 latas de tinta preta e branca, além de oito telas enormes que cobriam quase por completo o chão do atelier, convenceu-se finalmente de uma coisa: pintar à maneira de Pollock pode parecer fácil (porque a técnica nasce de um impulso aleatório), mas é tudo menos fácil.
Expulsou os outros, um a um, até ficar sozinho no poema: sete palavras em linha recta, ao alto, na página quase vazia.
Don: Ando à procura de uma máquina de escrever.
Lolita: Isso é tão século XX!
[Broken Flowers, de Jim Jarmush]

Le violon d'Ingres (1924)
PÉRGOLA
Assim despida rente ao mar
só de longe em longe se
vêm enredar em cada uma
das suas colunas as flores
brancas da espuma
INSTITUTO DE MEDICINA LEGAL
Uma carrinha funerária aguarda
junto ao portão. Lá dentro o
ajudante cose à pressa com
uma agulha grossa a parede
do abdómen. O condutor
olha extasiado — suspensas
dos muros do Instituto — as
flores da paixão.
[in Porto de Abrigo, Assírio & Alvim, 2005]

Já está on-line, no site da Fundação Nobel, a conferência com que Harold Pinter aceitou o Prémio Nobel da Literatura de 2005.
Além de um testemunho sobre a sua obra teatral e o seu empenhamento político, o discurso é um dos mais violentos ataques à política externa americana de que me recordo nos últimos tempos. Para ser coerente com a forma como vê a tragédia contemporânea que é o terrorismo e a resposta da Administração Bush a essa ameaça intangível (uma ameaça que tudo sanciona e permite), Pinter tinha que dizer o que diz, sem papas na língua, com esta clareza e lucidez brutais. Claro que as hordas de opinion makers que o atacaram, logo em Novembro, por causa do «anti-americanismo primário», não cuidando sequer de saber o que escrevera o laureado ou se o Prémio era merecido, já devem ter afiado à pressa as rombas lâminas do ressentimento.
É deixá-los gritar. Entretanto, aqui vos deixo um pequeno excerto da parte menos política, mas para mim mais relevante, do discurso (a que voltarei, com outro detalhe, mais tarde):
«A writer's life is a highly vulnerable, almost naked activity. We don't have to weep about that. The writer makes his choice and is stuck with it. But it is true to say that you are open to all the winds, some of them icy indeed. You are out on your own, out on a limb. You find no shelter, no protection – unless you lie – in which case of course you have constructed your own protection and, it could be argued, become a politician. (...) When we look into a mirror we think the image that confronts us is accurate. But move a millimetre and the image changes. We are actually looking at a never-ending range of reflections. But sometimes a writer has to smash the mirror – for it is on the other side of that mirror that the truth stares at us.»
Título: Boca Cheia
Descritivo: O blogue anti-cavaquista que vai até à última migalha
Imagem do cabeçalho:

Não sei se vos acontece o mesmo — falo para os utilizadores do G-Mail — mas aquele indicador dos megabytes de memória disponível (sempre a crescer, sempre a crescer, sempre a crescer) provoca-me um sentimento ambíguo.

«Certa vez, mais tarde, vi numa curta-metragem a preto e branco sobre a vida da Bibliothèque Nationale como as mensagens circulavam a grande velocidade por correio pneumático entre as salas de leitura e as estantes ao longo do que poderia chamar-se um circuito nervoso e como a comunidade de investigadores ligados ao aparelho da biblioteca forma um ser extremamente complexo em constante evolução que se alimenta de miríades de palavras e gera por seu turno miríades de palavras. Creio que esse filme, que vi apenas uma vez mas que na minha imaginação se foi tornando mais fantástico e assombroso, tem o título Toute la mémoire du monde e foi feito por Alain Resnais.»
[in Austerlitz, de W. G. Sebald, trad. Telma Costa, Teorema, 2004]

Austerlitz, a personagem central do romance de Sebald, tem razão. O filme chama-se de facto Toute la mémoire du monde e foi realmente feito por Alain Resnais. O ano de produção é 1956; a metragem, 22 minutos. Vi-o já não sei bem quando (numa das segundas-feiras cinéfilas da Abril em Maio) e também para mim se tornou, sempre que o recordo, cada vez mais fantástico e assombroso.
Passa a ser este: cartasmorel@gmail.com. Disponham.
Já se impunha: a todos os bloggers que incluiram A Invenção de Morel nas suas listas de links, mencionaram o aparecimento deste espaço (ou até lhe concederam a honra de um destaque da semana), o meu mais sincero agradecimento.

El Cristo de San Juan de la Cruz (1951)
No último número da revista Time, Steven Spielberg fala do seu próximo opus (o muito esperado Munique, sobre o atentado cometido contra a equipa olímpica israelita, nos Jogos de 1972, por um comando palestiniano) e às tantas revela este projecto:
«Vou comprar 250 câmaras de video e dividi-las, 125 para crianças palestinianas, 125 para crianças israelitas, para fazerem filmes sobre as suas próprias vidas — não dramas, apenas pequenos documentários sobre quem são e aquilo em que acreditam, quem são os pais, a que escola vão, o que comeram, que filmes vêem, que CDs ouvem — e depois vou trocar os videos. É o tipo de coisa que, creio eu, pode ser eficaz a fazer com que as pessoas compreendam que não há assim tantas diferenças a dividir israelitas e palestinianos — enquanto seres humanos, pelo menos.» [citação traduzida por João Lopes, neste post]
A ideia é muitíssimo bem intencionada mas pergunto-me se Spielberg, à imagem do que acontece na maioria dos seus filmes (do magnífico E.T. ao deplorável Guerra dos Mundos), não exibe aqui mais um sinal da sua perturbante ingenuidade, uma candura que pretende ver nos outros, a cada passo, uma inocência que eles há muito perderam.

Alex Flemming, Flying carpet n.º 5 (2004)
[Os restantes aviões atapetados de Flemming podem ser vistos na Galeria 111, ao Campo Grande, em Lisboa, até 31 de Dezembro.]
Já agora, aproveito para lembrar que o relato da última sessão do É a Cultura, Estúpido!, dedicada a Fernando Pessoa (no 70.º aniversário da sua morte), pode ser lido aqui.
Fernando Pessoa foi, simultaneamente, a maior dádiva e a maior maldição da literatura portuguesa do séc. XX. Se por um lado ganhámos uma figura que rivaliza com Kafka ou Joyce (um génio fragmentário, pós-moderno antes da pós-modernidade e desmultiplicado numa constelação única de poetas que existiam todos dentro das meninges do mesmo homem, através desse milagre multiplicador das identidades que é a heteronímia), por outro herdámos uma embaraçosa força de bloqueio.
Ser poeta, depois de Pessoa, tornou-se um problema (quase) sem solução. Por isso temos andado, desde 1935, a fugir do seu fantasma, da sua sombra, do seu peso asfixiante. E se uns o mataram, como é suposto matar o pai em psicanálise, outros limitaram-se a ignorar aquela espécie de Adamastor, seguindo em frente e não olhando para trás. A história da poesia portuguesa dos últimos 50 anos é em certa medida, parece-me, a superação de uma orfandade, o preenchimento desse vazio imenso que Pessoa deixou.
No caso dos autores que começaram a publicar há menos tempo, os efeitos da maldição pessoana tendem a ser mais ténues. O autor de Mensagem permanece um marco e um objecto de admiração, claro, mas sem as proverbiais angústias da influência. Falo por mim: poucos textos me marcaram mais do que os poemas de Álvaro de Campos ou O Livro do Desassossego de Bernardo Soares (o Pessoa ortónimo, francamente, dispenso), mas nunca senti em relação a nenhum deles a tentação do epigonismo, como senti em relação a Eugénio de Andrade ou António Ramos Rosa – nesse final da adolescência em que comecei a levar a escrita mais a sério.
[Depoimento que me solicitaram para um dossier sobre Fernando Pessoa, incluído no número 918 do Jornal de Letras, a partir de hoje nas bancas.]
Título: Estação do Oriente
Descritivo: De Omar Khayyam aos néons de Xangai
Imagem do cabeçalho:

Conhecem esse medíocre, pastoso, açucarado, hiper-kitsch e agoniante escritor de best-sellers que se chama Nicholas Sparks? Finalmente houve alguém que lhe deu uma ensaboadela valente, com uma ajudinha do mestre Almada Negreiros. Já não era sem tempo.

Calma. Estão quase a chegar.
Imprimatur, non imprimatur, imprimatur, non imprimatur, imprimatur, non imprimatur.
* Com uma vénia para o Bombyx Mori
Comprava pequenos felinos, às dezenas. Depois libertava-os, só para poder escrever anúncios de gato perdido como este (anúncios verdadeiros, entenda-se; nem por isso menos belos ou menos trágicos).

Garfo (1928)
VIMOS TODOS OS FILMES
Vimos todos os filmes
mas ainda não sabemos o fim de nenhum,
somos como a luz que desconhece
a própria velocidade.
Os relógios são a decoração doméstica
da angústia, damos corda
aos que precisam e não precisam
sem sabermos nada
da corda e da angústia.
Anos e anos amontoam-se
como nuvens ou tumores benignos
entre as nossas pequenas ciências
e o pressentimento de que
Deus escreve direito e nós
somos as linhas tortas.
IDENTIDADE
A identidade, como a pele,
renova-se, perde-se de sete
em sete anos, muda no mesmo
corpo, torna diferente
a permanência humana.
A identidade é a soma
das intenções, uma foto
instantânea para um propósito
imediato que não dura.
A identidade é um equívoco
para camuflar o coração.
NÚMERO 5
Dei um passo atrás
e vi pela primeira vez
o número da minha porta.
No passeio, olhando
o metal gasto do algarismo
que há vinte e seis anos
sei que existe,
pensei em recuar um pouco mais
para ver todas as coisas que habito
e não compreendo.
Mas três passos depois
do passeio
o trânsito automóvel
impedia a perspectiva
e a sabedoria.
[in Duplo Império, edição de autor, 1999]

Início do Adagio do Concerto para Piano e Orquestra n.º 23, K. 488, por Alfred Brendel (piano) e Neville Marriner (maestro), à frente da Academy of St. Martin-in-the-Fields
Há 214 anos, em Viena, morreu Wolfgang Amadeus Mozart.
Há 33 anos, em Lisboa, nasceu Pedro Mexia.
Título: Hakepfff
Descritivo: Diário de uma gata com saúde de ferro, atormentada pelos "espirros" de uma embalagem de Air Wick Freshmatic Automatic Spray
Imagem do cabeçalho:

[Pedir mais informações ao futuro autor do blogue]
E se em vez de críticas literárias a livros de poesia — arte difícil (para não dizer utópica) — escrevêssemos apenas paráfrases dos melhores poemas desses livros?
«Or a long sentence moving at a certain pace down the page aiming for the bottom — if not the bottom of this page then of some other page — where it can rest, (...)»
[início do conto Sentence, de Donald Barthelme, in 40 Stories, Penguin, 1987]

Ainda não li, mas vou ler.
Depois, como qualquer blogger que se preze neste final de 2005, direi de minha justiça.
Seguindo uma sugestão do José Afonso Furtado, mergulhei em apneia no MetaxuCafe e não me arrependi. Este site é um exemplo da nova grande tendência da blogosfera anglo-saxónica: as redes de blogues com temas afins. No caso do MetaxuCafe, estamos perante um litblog network (rede de blogues literários), um espaço comum a partir do qual o leitor pode ser encaminhado para os posts mais relevantes publicados nesta parcela específica da blogosfera. O poder de amplificação das vozes individuais aumenta e o efeito das sinergias parece-me beneficiar tanto os bloggers, sejam eles mais ou menos conhecidos, como os seus leitores.
Para quando uma rede semelhante em Portugal? [A pergunta não é retórica.]

New York Movie (1939)
«PITOL, Sergio (Puebla, México, 1933). Entre todos os diaristas que participam neste dicionário ele é o que há mais tempo colabora na construção da minha tímida identidade. Personagem-chave na minha vida. Aparece pontual e misteriosamente como um estranho embaixador do fio mais razoável do tecido puído, e fá-lo nos momentos da minha vida mais ligados ao género fantástico. Conheci-o em Varsóvia, em 1973, quando me desloquei expressamente a essa cidade com a ideia de lhe comentar as minhas impressões de leitor dos seus contos e aproveitar para o conhecer, e acabei por ficar um mês inteiro em sua casa e Pitol convertendo-se no meu mestre.(...)
No dia 23 de Agosto de 1973, o dia em que deixei Varsóvia, Pitol ofereceu-me um exemplar do seu romance El tañido de una flauta, e dedicou-mo com umas palavras em inglês que aludiam à Provença. Era o primeiro livro que me dedicavam e durante anos fui visualizando essa dedicatória, via-a com frequência e acabei por sabê-la de cor. Ao longo desses anos, nunca nos telefonámos nem nos escrevemos carta alguma, mas fomo-nos encontrando, muitas vezes por casualidade, nos mais variados lugares. Vimo-nos, por exemplo, em Bujara, Trieste, na Mérida venezuelana, Pequim, Veracruz, Paris, Praga e Mojácar. Um dia, em 23 de Agosto de 1993, decidiu enviar-me uma carta de Brasília, a primeira que me enviava na sua vida. Quando a recebi, não tardei a aperceber-me de que mediavam exactamente vinte anos entre a dedicatória de Varsóvia e a carta brasileira. Tirei fotocópias dos documentos à espera de um dia os mostrar a Sergio e ver qual seria a sua reacção perante aquela enigmática, surpreendente coincidência. Finalmente, surgiu-me a oportunidade, precisamente na Provença que constava na dedicatória. Sergio e eu encontrámo-nos numa homenagem a um escritor e amigo comum, em Aix-en-Provence. Uma noite, nessa cidade, mostrei-lhe de repente os dois documentos e fiquei à espera de uma reacção. Sergio olhou demoradamente as fotocópias, tirou logo a seguir os óculos, sorriu levemente, deixou que o silêncio se apoderasse da situação, depois voltou a pôr os óculos, sorriu um pouco nervoso, olhou de novo as fotocópias, levantou a cabeça e arqueou as sobrancelhas, voltou a baixar a cabeça, e finalmente disse: "Algo se deve ter passado, isso é seguro."»
[Enrique Vila-Matas, in O Mal de Montano, trad. Jorge Fallorca, Teorema, 2004]

O escritor mexicano Sergio Pitol venceu a edição deste ano do Prémio Cervantes, atribuído a Jorge Luis Borges em 1979 e a Adolfo Bioy Casares em 1990.
Além de ladra benigna, a C. é uma desmancha-prazeres e uma estraga-links.
Título: Chuva Oblíqua
Descritivo: Blogue pessoano, interseccionista e tudo
Imagem do cabeçalho:

«Uma das janelas de Calvino, a com melhor vista para a rua, era tapada por duas cortinas que, no meio, quando se juntavam, podiam ser abotoadas. Uma das cortinas, a do lado direito, tinha botões e a outra, as respectivas casas.
Calvino, para espreitar por essa janela, tinha primeiro de desabotoar os sete botões, um a um. Depois sim, afastava com as mãos as cortinas e podia olhar, observar o mundo. No fim, depois de ver, puxava as cortinas para a frente da janela, e fechava cada um dos botões. Era uma janela de abotoar.
Quando de manhã abria a janela, desabotoando, com lentidão, os botões, sentia nos gestos a intensidade erótica de quem despe, com delicadeza, mas também com ansiedade, a camisa da amada.
Olhava depois da janela de uma outra forma. Como se o mundo não fosse uma coisa disponível a qualquer momento, mas sim algo que exigia dele, e dos seus dedos, um conjunto de gestos minuciosos.
Daquela janela o mundo não era igual.»
[Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Calvino, Caminho, 2005]

Still funny (and clever) after all these years.
A C., do dias felizes, roubou-me este post que eu nunca publiquei.
Quer dizer, que eu nunca publiquei mas acabaria, mais tarde ou mais cedo, por publicar.
[Perdoo-lhe apenas porque ela reincide magnificamente na sua cleptomania por antecipação, como se fosse uma coisa mais forte do que ela (ou seja: um aproveitamento da minha fraqueza). Desculpo-a também porque a sua cleptomania é generosa e, desculpem mas apetece-me usar a palavra, iluminada.]