VERSOS QUE NOS SALVAM
Enquanto aguardo que chegue às bancas o último número da revista aguasfurtadas, um projecto literário agora dirigido pelo Rui Manuel Amaral, deixo-vos aqui um dos poemas que a Margarida Ferra ali publica e que me parecem (mas eu sou suspeito) uma revelação:
COZINHA
Não posso esquecer-me
da distância que ia
da mesa redonda
à gaveta dos talheres;
do que a luz da hora do almoço fazia
com o azul escuro dos armários,
com a barra que já tinha sido branca;
das dedadas nos copos de vidro,
amarelos,
tão pouca a convicção no detergente,
no esfregão,
nas luvas de borracha,
de todas as mulheres que os lavaram;
das gotas que entravam
por dentro das camisolas
e nos gelavam enquanto desciam
os braços esticados para a grade
(onde esquecíamos a loiça
depois da chuva lenta).