E AGORA VOU ALI BEBER UM COPO EM MEMÓRIA DO FERNANDO

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Antes de morrer, o poeta escreveu uma última frase, em inglês:
«I know not what tomorrow will bring.»
Ele não sabia. Nós não sabemos. Ninguém sabe.
Aparentemente, há um problema qualquer no sistema de comentários deste blogue que tem impedido a interacção com os leitores.
Espero que este silêncio seja o mais curto possível.
A quem tentou, em vão, comentar os posts nos últimos dias, as minhas desculpas.
O cúmulo da intertextualidade deve ser isto: fazer um post que ilustra um poema-paráfrase de Daniel Jonas intitulado «Crítica de Miguel Gomes a Funny Games de Michael Haneke» (in Os Fantasmas Inquilinos, Cotovia).
Eis os 17 versos:
Quando surge o primeiro cadáver
depois de Haneke
ter esticado a tensão até ao limite
somos abandonados
no vazio.
Os agressores eclipsam-se
como se tivessem sido apenas
uma trágica projecção nascida do tédio
da "upper class".
Ficamos sobre uma televisão
coberta de sangue — onde carros
de granturismo perpetuam o absurdo
movimento circular —
ou sozinhos com as vítimas
num estarrecedor plano-sequência
imóvel
e com mais de cinco minutos.

Ela voltou. A escrever. E a ser lida.
Título: Manobra de Heimlich
Descritivo: Se não deitar isto cá para fora, sufoco
Imagem do cabeçalho (depois de limpar a palavra "breastbone"):

Amanhã, dia em que se assinalam os 70 anos da morte de Fernando Pessoa e que a sua obra cai no domínio público, o É A CULTURA, ESTÚPIDO! “ressuscita” o mais importante poeta português do século XX em mais um debate no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, pelas 18h30. Entre outros temas, discutir-se-á a forma como o legado do escritor será recebido pelas próximas gerações. No centro das conversas estará ainda o futuro da própria ideia de literatura e o lugar que esta poderá ocupar na cada vez mais vasta panóplia de oferta cultural. A sessão, organizada em parceria pelas Produções Fictícias e pela Casa Fernando Pessoa, será moderada por José Mário Silva, com Pedro Mexia no papel de “agente provocador”. Os convidados especiais são José Afonso Furtado, director da Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian, além de especialista em questões da Edição no mundo digital e novos suportes para o livro; Richard Zenith, tradutor, investigador e editor de Fernando Pessoa; Manuela Parreira da Silva, professora da Universidade Nova de Lisboa e elemento da equipa que tem estudado e editado o espólio do poeta; e Fernando Cabral Martins, ensaísta, “pessoano” e um dos responsáveis pela Pós-Graduação em Edição de Texto da Universidade Nova de Lisboa.
Antes da sessão, o Teatro Municipal de São Luiz e a Casa Fernando Pessoa desafiam actores, autores, artistas e outras personalidades para virem ao Jardim de Inverno, entre as 16h00 e as 18h30, para lerem um poema, à sua escolha, de Fernando Pessoa. A sessão é aberta ao público. Entre muitos outros, estarão presentes Gonçalo M. Tavares, Fernando Pinto do Amaral, Graça Lobo, Nuno Lopes, Sérgio Godinho, Inês Pedrosa, Virgílio Castelo, Pedro Lomba, Rogério Vieira, Sofia Grillo, Manuel Marques, Carlos Martins, Jorge Vaz de Carvalho, Pedro Mexia, José Mário Silva, Nuno Artur Silva, Sílvia Pfeifer, Custódia Gallego.
Para encerrar as comemorações, e assinalar os 12 anos da Casa Fernando Pessoa, será apresentado o espectáculo «Wordsong/Pessoa», pelas 21h00, na Casa Fernando Pessoa.
[Todas as informações sobre o «É a Cultura, Estúpido!», bem como os relatos das sessões, encontram-se no blogue do projecto, aqui.]
O vencedor do Prémio PT (o mais importante do Brasil), anunciado esta madrugada em S. Paulo, foi Amílcar Bettega Barbosa, com Os Lados do Círculo. Em segundo lugar ficou O Falso Mentiroso, de Silviano Santiago. Em terceiro, as Histórias Mirabolantes de Amores Clandestinos, de Edgard Telles Ribeiro.
Os Poemas Rupestres, de Manoel de Barros (que muitos viam como favorito), não convenceram o júri, talvez porque em 2004 o triunfo coube a outro livro de poesia: Macau, de Paulo Henriques Britto.
— Quer então dizer que vais escrever em três blogues...
— Quatro. São três públicos e um secreto (pelo menos por enquanto).
— Quatro blogues.
— Sim.
— E tens vida para isso tudo?

Le phare à Honfleur (1886)
O fecho do BdE na secção de Media do Diário de Notícias.
Enquanto aguardo que chegue às bancas o último número da revista aguasfurtadas, um projecto literário agora dirigido pelo Rui Manuel Amaral, deixo-vos aqui um dos poemas que a Margarida Ferra ali publica e que me parecem (mas eu sou suspeito) uma revelação:
COZINHA
Não posso esquecer-me
da distância que ia
da mesa redonda
à gaveta dos talheres;
do que a luz da hora do almoço fazia
com o azul escuro dos armários,
com a barra que já tinha sido branca;
das dedadas nos copos de vidro,
amarelos,
tão pouca a convicção no detergente,
no esfregão,
nas luvas de borracha,
de todas as mulheres que os lavaram;
das gotas que entravam
por dentro das camisolas
e nos gelavam enquanto desciam
os braços esticados para a grade
(onde esquecíamos a loiça
depois da chuva lenta).
Há coisas que podem passar de um blogue para outro: o username e password, certas marcas idiossincráticas, o nome de uma rubrica, dois posts que deviam ter sido publicados no último dia (e não foram).

Esta tarde, à hora do crepúsculo.
Também já há e-mail: morel@weblog.com.pt. Sirvam-se à vontade.
O blogroll já rola: links na coluna da direita, ainda à espera de uma ordem que não seja meramente alfabética.

Nem todas as ressacas são alcoólicas.
Há pouco menos de um mês, no post em que anunciei o fecho do BdE, fiz um apelo: «que esta despedida seja uma festa, um adeus eufórico, não um funeral». Contrariando os meus receios, o desejo cumpriu-se. A última semana do blogue foi hiper-activa, ao nível dos tempos áureos, com o regresso de colaboradores há muito remetidos ao silêncio, reunidos de novo para uma espécie de celebração do que este projecto representou para quem o escreveu e para a sua comunidade de leitores.
Pedi um adeus eufórico e festivo. Estou a ter, hoje, o adeus eufórico e festivo que pedi. Porquê então este súbito estado de melancolia?
Ali em baixo, onde se lê que este vai ser «um blogue muito mais literário do que político» deve ler-se «um blogue quase sempre literário e quase nunca político».
Não se preocupem: a lista de links vem a caminho.
O quadro que ilustra a parte superior desta página é uma das versões de A Ilha dos Mortos, a terceira das cinco que Arnold Böcklin (1827-1901) pintou. Pertence à colecção da Alte Nationalgalerie (Berlim) e torna quase palpável o que no romance de Bioy Casares apenas se insinua:
«Quinta hipótese [colocada pelo narrador na tentativa de explicar a aparição de "intrusos" numa ilha supostamente deserta]: os intrusos seriam um grupo de mortos amigos; eu, um viajante, como Dante ou Swedenborg, ou então outro morto, de outra raça, num momento diferente da sua metamorfose; esta ilha, o purgatório ou o céu daqueles mortos»
Ao contrário do que estes posts iniciais podem eventualmente sugerir, «A Invenção de Morel» não pretende ser um blogue lacónico (ou minimalista).
«A Invenção de Morel» vai ser um blogue muito mais literário do que político.
O narrador sem nome de Bioy Casares foi buscá-la a Leonardo e eu vou buscá-la ao narrador sem nome de Bioy Casares: Ostinato Rigore.

É um livro sobre a pior das distopias: a eternidade.
Do que este blogue pode vir a ser, ignoro tudo.
Só não sei se esta ignorância me protege ou ameaça.

Recomeça-se.
Once a blogger, always a blogger.
A blogger is a blogger is a blogger.